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EXCLUSIVO – Aumento de atendimentos e mortes de diabéticos em Brusque acende alerta na saúde pública

Dados mostram salto de quase 300% nos atendimentos e recorde de óbitos em 2024

Imagine ir a uma festa infantil e não poder comer quase nada do cardápio. Ter que interromper atividades por crises de hipoglicemia ou conviver com cansaço e sede extrema enquanto tenta aproveitar a maternidade. Essas são algumas das experiências vividas por Nathália Lemos, Layla Landfeldt e Maísa Moura, moradoras de Brusque que convivem com diabetes há pelo menos oito anos.

Mesmo sem se conhecerem, elas enfrentam desafios semelhantes e apontam obstáculos comuns, como o difícil acesso ao tratamento pelo SUS e a falta de informação adequada sobre a doença.

Embora amplamente conhecida, a condição voltou a acender um alerta entre autoridades e população de Brusque e região. Dados revelam um crescimento expressivo nos casos registrados no município.

Entre 2020 e 2024, os atendimentos na rede pública relacionados à diabetes aumentaram quase 300%, passando de 952 para 3.683 por ano. O salto foi acompanhado por outro dado preocupante: o número de mortes chegou ao maior patamar dos últimos cinco anos, com 48 óbitos registrados em 2024.

Nesse período, também houve aumento significativo na distribuição de medicamentos como metformina e insulinas, o que indica maior adesão ao tratamento e, possivelmente, crescimento no número de diagnósticos.

Especialistas ouvidos pela reportagem, tais como endocrinologistas, o secretário de Saúde e a diretora de Atenção Farmacêutica, ajudam a compreender o avanço dessa doença silenciosa, que mobiliza diferentes áreas do sistema público de saúde.

Mortalidade e internações


Entre 2020 e 2024, Brusque registrou 175 mortes por diabetes, média de 35 por ano. As mulheres representam 53% das vítimas (96 casos). Em Guabiruba, foram 27 óbitos (14 mulheres e 13 homens) e, em Botuverá, sete (quatro mulheres e três homens).

Em Brusque, o predomínio feminino se repetiu em quatro dos cinco anos analisados. A única exceção foi 2020. Em 2023, quase 70% das mortes foram de mulheres, o maior percentual do período.

O pior ano, em números absolutos, foi 2024, com 48 óbitos. O dado contrasta com a queda registrada nos anos anteriores: 38 em 2020, 34 em 2021, 32 em 2022 e 23 em 2023.

As internações hospitalares pelo SUS também foram analisadas. Em Brusque, o total chegou a 380 casos no período, com 56% de pacientes mulheres (216). Em Guabiruba, foram 42 internações (47% homens) e, em Botuverá, sete (quatro homens e três mulheres).

Ao contrário da mortalidade, os dados de internação em Brusque oscilaram ao longo dos anos. O pico foi em 2023, com 107 registros. Em 2024, houve queda para 78, mas o número ainda superou os três anos anteriores, indicando possível tendência de alta. As mulheres seguem como maioria em todas as internações.

Obtidos com exclusividade, os dados foram repassados pela Diretoria de Vigilância Epidemiológica (Dive) e reúnem informações da Secretaria de Estado da Saúde (SES), da Gerência de Análises Epidemiológicas e Doenças e Agravos Não Transmissíveis (GADNT), do Sistema de Informações Hospitalares (SIH) e do Sistema de Informações sobre Mortalidade (Sim).

A consolidação das informações foi feita por um software desenvolvido pelo Datasus. A coleta dos dados ocorreu em 3 de julho deste ano.

Números do estado


Em 2024, Santa Catarina registrou 2.593 óbitos por diabetes mellitus: 1.160 homens (29 por 100 mil) e 1.433 mulheres (35 por 100 mil).

As internações chegaram a 4.091. Os óbitos em Brusque equivalem a quase 2% do total estadual. Já as internações do município representam 3% do total catarinense.

De 2020 a 2024, foram 12.083 mortes no estado — alta de 25,4% na série histórica. As mulheres lideraram a taxa de mortalidade. No mesmo período, as internações hospitalares somaram 20.002, com crescimento de 3.743 em 2020 para 4.252 em 2023.

Mapa de atendimentos


Segundo a Secretaria de Saúde, os atendimentos na rede pública relacionados ao diabetes seguem em crescimento. Em 2023 e 2024, o município registrou mais de 3,6 mil casos por ano, número bem acima dos anos anteriores.

Em 2020, foram 952 atendimentos. Em 2021, 1.244; em 2022, 1.917. Em 2024, foram 3.683 — aumento de 286% em relação a 2020. O maior pico foi em 2023, com 3.772 atendimentos, o que representa alta de 296% no mesmo comparativo.

No total, a saúde pública em Brusque registrou 11.568 atendimentos entre 2020 e 2024, o que equivale a pelo menos seis por dia.

A reportagem também levantou os dados de cada unidade de saúde do município. A UBS do Centro lidera com folga, somando 2.024 atendimentos no período. Em seguida, aparecem as unidades do São João (957) e do Rio Branco (629).

Na outra ponta, a Clínica da Mulher e o Serviço de Assistência Especializada tiveram apenas dois atendimentos cada — números compatíveis com os focos dessas unidades, que não são voltadas ao tratamento do diabetes.

Secretário avalia crescimento


Ricardo Freitas, secretário de Saúde de Brusque, atribui o aumento nos atendimentos de pacientes com diabetes principalmente à ampliação do diagnóstico. "As pessoas, os médicos e os pacientes começam a pensar mais em diabetes, solicitam exames, e você vai aumentando o número de casos", explica.

Ele ressalta que parte dos pacientes chega à cidade sem diagnóstico ou tratamento adequado, o que também contribui para o crescimento dos números locais. Para o secretário, o principal desafio está na mudança cultural necessária para controlar a doença.

"As pessoas têm muita dificuldade em aceitar a mudança de hábitos, como o regime alimentar e a prática de atividades físicas. Também enfrentam resistência quanto à posologia dos medicamentos, que às vezes exige várias doses diárias ou o uso de insulina", afirma.

Ele define o trabalho como "um serviço formiguinha, porque não é fácil mudar o estilo de vida das pessoas". Ricardo destaca ainda que o fornecimento de insulina, glicosímetros e medicamentos pelo poder público não enfrenta entraves.

"Em relação a isso, a população não teria nenhum problema", garante, ressaltando que os cuidados fazem parte dos grupos de atendimento a doenças crônicas realizados nas unidades de saúde.

Demanda por medicamentos aumentou


A Farmácia Básica de Brusque distribui metformina e dois tipos de insulina (regular e NPH). A insulina regular tem ação rápida e é aplicada antes das refeições; a NPH tem efeito intermediário. A metformina é usada no controle do diabetes tipo 2.

Entre 2020 e 2024, os atendimentos com insulina NPH saltaram de 521 para 1.261. A insulina regular passou de 293 para 585. A metformina foi retirada por 2.730 pacientes em 2020 e por 3.115 em 2024.

Para a diretora de Atenção Farmacêutica, Patrícia Bernardi Sassi, o crescimento pode estar ligado à introdução das canetas de insulina na rede pública a partir de 2022. Ela também menciona o impacto da pandemia nas ações da atenção básica.

“Houve um enfraquecimento das estratégias de saúde da família, direcionando esforços para o enfrentamento da pandemia”, explica. A reorganização do sistema, segundo ela, retomou o cuidado com os pacientes crônicos e pode ter influenciado no aumento dos números.

Dores de pacientes


Maísa Moura, 30 anos, foi diagnosticada há nove. “Comecei a sentir muito cansaço, perder peso e passar mal com frequência. Resolvi fazer exames e descobri o diabetes tipo 1. Foi difícil aceitar. Eu tinha 21 anos, uma bebê e quase nenhuma informação sobre o que estava por vir”.

Nathália Lemos, 22, descobriu a doença aos 6 anos. “Foi um choque para a família. Eu era uma criança que amava comer de tudo. A mudança foi difícil”, conta. Ela desenvolveu ansiedade e precisou de apoio psicológico.

Layla Landfeldt, 18, teve o diagnóstico pouco antes dos 11. “Minha mãe achou que fosse anemia, mas durante os exames a enfermeira suspeitou de diabetes. Logo comecei com insulinas e contagem de carboidratos. Me adaptei bem, mas no começo sentia vergonha de aplicar insulina em público”.

A rotina exige controle rigoroso. “As restrições alimentares são parecidas com as de quem busca uma dieta saudável, com a diferença de que preciso contar carboidratos e aplicar insulina em todas as refeições”, diz Layla.

Layla teve o diagnóstico pouco antes dos 11 anos | Foto: Arquivo pessoal

Maísa, que também tem uma síndrome que a impede de se exercitar, conta com o SUS, mas enfrenta dificuldades. “As consultas são muito demoradas. Já recorri ao atendimento particular algumas vezes”.

Nathália relata situação semelhante. “Tenho retorno pelo SUS a cada seis meses, mas na prática chega a demorar até um ano”.

Nathália descobriu a doença aos 6 anos | Foto: Arquivo pessoal

Elas também destacam impactos emocionais e sociais. “O diabetes é uma doença exaustiva. É preciso estar o tempo todo atento aos sinais do corpo”, afirma Maísa. Nathália lembra que “é bem triste” ver uma criança em uma festa sem poder comer guloseimas.

Layla destaca os efeitos das crises: “fico fraca, com tontura e preciso parar o que estou fazendo. Quando tem muita gente por perto, é difícil explicar”.

As três defendem mais informação pública. “As ações deveriam ser mais frequentes e claras”, diz Maísa. Layla aponta o desconhecimento sobre o tipo 1. Nathália reforça: “a visibilidade da doença ainda é muito pequena”.

Maísa também cobra políticas públicas mais eficazes: “Hoje, os diabéticos tipo 1 lutam para que a doença seja reconhecida como deficiência. Isso faria diferença na qualidade de vida”.

Maísa descobriu a doença durante a maternidade | Foto: Arquivo pessoal

Diabetes sob o olhar médico


Segundo o endocrinologista Frederico Guimarães Marchisotti, conselheiro do CRM-SC, o aumento dos casos de diabetes está ligado ao estilo de vida moderno, marcado por má alimentação, sedentarismo, envelhecimento da população e obesidade. “Também precisamos considerar o baixo nível de renda, que dificulta o acesso a hábitos saudáveis”, afirma.

O especialista chama atenção para os sintomas do diabetes tipo 2, muitas vezes ignorados: sede excessiva, urinar com frequência, cansaço, visão embaçada e perda de peso sem causa aparente.

“Muita gente atribui isso ao estresse ou à idade e demora a procurar um médico”, diz. Em média, o diagnóstico vem cinco anos após o início da doença, quando muitas vezes ainda não há sintomas claros.

Marchisotti reforça que o diagnóstico precoce é essencial. “Quanto antes a doença for identificada, maiores as chances de controlar a glicemia e manter qualidade de vida”, explica.

Ele destaca ainda o crescimento de casos em pacientes jovens. “Já não é raro ver adolescentes com diabetes tipo 2, antes considerado uma doença de adultos”, afirma. O fenômeno está ligado à obesidade infantil e ao sedentarismo.

Apesar dos avanços, o médico diz que o SUS ainda enfrenta dificuldades. “Há obstáculos no acesso a medicamentos, especialistas e exames”, observa.

Segundo o médico, também faltam programas de educação continuada e as medicações mais modernas ainda não estão disponíveis na rede pública. “Houve até uma consulta pública recente sobre a inclusão desses remédios”, lembra.

Marchisotti finaliza com um alerta: “o diabetes pode ser prevenido e controlado. Mas isso exige atenção aos sinais do corpo, hábitos saudáveis e acompanhamento médico regular. Quanto antes, melhor”.

A médica Lielli Carine Fischer Pollheim, pós-graduada em Endocrinologia e Nutrologia, também aponta o estilo de vida como fator central no avanço da doença no Brasil.

“Obesidade, sedentarismo e alimentação rica em ultraprocessados estão entre as principais causas do crescimento do diabetes tipo 2”, afirma. Ela acrescenta que o envelhecimento da população e as desigualdades no acesso à saúde dificultam o diagnóstico precoce.

Lielli destaca ainda que os sinais da doença podem passar despercebidos por muito tempo, o que retarda o início do tratamento.

“Sede constante, fome excessiva, cansaço, infecções frequentes e cicatrização lenta são alguns dos alertas. Muitas vezes, um simples teste de glicemia na ponta do dedo já pode indicar alterações”, explica.

Ela reforça que o diagnóstico precoce é um divisor de águas na vida do paciente. “Quanto mais cedo a doença for detectada, maiores as chances de controlar a glicemia apenas com mudanças de estilo de vida, evitando complicações e internações”, afirma.

Na prática clínica, a médica observa um número crescente de pacientes jovens com resistência insulínica e pré-diabetes.

“Já é comum ver alterações metabólicas em pessoas entre 20 e 30 anos. Isso está ligado ao excesso de peso, hábitos sedentários e alimentação calórica desde a infância”, relata.

Sobre o sistema público de saúde, Lielli aponta gargalos semelhantes aos citados por Marchisotti: subdiagnóstico, demora em exames, falta de acesso a medicamentos e dificuldade de encaminhamento a especialistas.

“O SUS tem um papel fundamental, mas ainda enfrenta limitações importantes, principalmente nas regiões mais carentes”, conclui.


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