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Moradoras de Brusque contam como a cirurgia bariátrica pelo SUS transformou a vida delas: “melhor escolha”

Especialistas ressaltam a importância do preparo prévio dos pacientes e do acesso gratuito ao serviço

O Hospital Azambuja de Brusque completou, no dia 17 de agosto, três anos da primeira cirurgia bariátrica realizada pelo Sistema Único de Saúde (SUS) no município. O procedimento, conduzido pelos cirurgiões Fábio Medaglia Filho e Lucas Pensin, representou um avanço importante para a saúde gratuita na região.

Desde então, a instituição já realizou mais de 565 cirurgias que, segundo os médicos, vão além da estética: ajudam a reduzir dores, prevenir doenças relacionadas à obesidade e melhorar a saúde mental.

Em Brusque, apenas a instituição está autorizada a realizar o procedimento pelo SUS, habilitação concedida pelo Ministério da Saúde em dezembro de 2021, beneficiando também moradores de cidades vizinhas como Gaspar, Ilhota, Nova Trento e Guabiruba.

Para os especialistas, essa ampliação de acesso gratuito ao procedimento trouxe novas perspectivas de tratamento para milhares de pacientes na região, mas também desafios, como a alta demanda, que pode superar a capacidade dos hospitais habilitados, especialmente em Santa Catarina.

Cirurgia histórica


Cristiane Aparecida de Paula Ferreira da Silva, moradora de Brusque, foi a primeira paciente a realizar cirurgia pelo SUS na cidade. Ela tinha 29 anos e foi operada pelo método de laparotomia, técnica mais invasiva que exige maior tempo de internação e uso de UTI.

Desde meados de 2024, porém, os procedimentos passaram a ser feitos por videolaparoscopia (vídeo), método menos invasivo que garante alta mais rápida, menos dor e retorno ao trabalho em cerca de 15 dias.

"Com essa tecnologia, conseguimos ampliar o número de procedimentos e reduzir riscos", afirma o cirurgião Fábio Medaglia.

Hospital Azambuja/Divulgação

Cristiane chegou a pesar 120 quilos antes da cirurgia e hoje está com 70 quilos. "Minha saúde melhorou 100%. Estou sem dores, minha pressão está controlada e consigo correr, caminhar e me abaixar sem dificuldade", relata.

Ela também destaca mudanças na autoestima: "antes me sentia constrangida e nem tirava fotografias, mas hoje posso sorrir e ser feliz. Fazer a cirurgia foi a minha melhor escolha".

Arquivo pessoal

Fila de espera e critérios


Desde a cirurgia de Cristiane, o número de procedimentos cresceu de forma expressiva, assim como a fila de pacientes.

Segundo o hospital, foram realizadas 22 cirurgias em 2022, 133 em 2023 e 222 em 2024. Somente até agosto de 2025, já haviam sido feitas 188 intervenções.

A Secretaria de Saúde informa que, desde maio de 2024, há 961 pessoas aguardando na fila da região, sendo cerca de 200 delas moradores de Brusque.

De acordo com Medaglia, o Hospital Azambuja realiza quatro a cinco cirurgias semanais pelo SUS, enquanto cerca de 32 novos pacientes entram mensalmente no sistema de triagem, totalizando cerca de 300 em acompanhamento.

Para reduzir o tempo de espera, o município criou o Protocolo de Acesso à Atenção Especializada, que organiza o encaminhamento com base em critérios de elegibilidade e acompanhamento multiprofissional.

"Essa organização garante que os pacientes com maior vulnerabilidade clínica tenham acesso mais rápido, ao mesmo tempo em que todos recebem acompanhamento multiprofissional", explica o secretário de Saúde, Ricardo Alexandre Freitas.

Ele ressalta, porém, que a ampliação do serviço depende da disponibilidade de vagas reguladas pela Secretaria de Estado da Saúde.

A diretora-geral de Saúde, Inajá Gonçalves Araújo, detalha que o atendimento começa na Atenção Básica, com avaliação de peso, histórico clínico e doenças associadas.

"Quando há indicação, o encaminhamento é feito via regulação para endocrinologia, que orienta os próximos passos do preparo pré-operatório", explica.

Divulgação

Acompanhamento multiprofissional


No Hospital Azambuja, o acompanhamento envolve enfermagem, psicologia e nutrição. A enfermeira Jessica Rodrigues diz que, antes da cirurgia, é realizado acolhimento e transmitida segurança ao paciente e à família.

"Garantimos suporte, monitoramento e acesso a todos os cuidados necessários. No pós-operatório, orientamos sobre sinais de alerta, curativos, mobilização precoce e dieta, garantindo conforto e segurança", explica.

A psicóloga Marialice Lazzarotto Fogaça reforça que a avaliação psicológica é essencial, pois a cirurgia exige mudanças de hábitos e na relação com a comida.

"Trabalhamos autoimagem, manejo da ansiedade e estratégias para manter hábitos saudáveis, além de orientar sobre apoio familiar e adaptação emocional durante os dois anos de acompanhamento".

Já a nutricionista Francielle Horst, que atua há três anos na equipe, detalha que a preparação nutricional é fundamental para a segurança e adaptação do paciente.

"Incentivamos o consumo de alimentos saudáveis, a redução de bebidas alcoólicas, açucaradas e ultraprocessados, fracionamento das refeições, mastigação adequada, início de suplementação e atividade física, resultando em perda de peso prévia", afirma.

Ela acrescenta que a reintrodução alimentar é gradual, da dieta líquida à livre, sempre observando proteínas, hidratação e suplementação.

O cirurgião Fábio complementa dizendo que o protocolo prevê pelo menos quatro reuniões em grupo, uma por mês, durante quatro ou cinco meses, para preparar o paciente antes e depois do procedimento.

"Já o acompanhamento pós-operatório segue mensal durante dois anos. Só damos alta do nosso serviço depois desse período", explica.

Demandas estaduais, desafios nacionais


Dados da Sociedade Brasileira de Cirurgia Bariátrica e Metabólica (SBCBM) mostram que menos de 1% dos brasileiros com indicação consegue realizar o procedimento pelo SUS ou planos de saúde.

Em Santa Catarina, o serviço está concentrado em poucas cidades, como Florianópolis, Joinville, Blumenau e Brusque, deixando regiões como Oeste e Sul sem cobertura.

Para Tiago Onzi, presidente do capítulo catarinense da SBCBM, a dificuldade envolve falta de custeio e equipes multiprofissionais. "Hoje, o Brasil realiza cerca de 13 mil cirurgias bariátricas por ano pelo SUS, número insuficiente diante da demanda", afirma.

Ele defende um programa estadual com parcerias entre municípios e Estado, custeio reforçado e ampliação das cirurgias por videolaparoscopia. "Esse formato pode ampliar o acesso e garantir melhores resultados", diz.

O Atlas Mundial da Obesidade 2025 (World Obesity Atlas 2024), da Federação
Mundial da Obesidade (World Obesity Federation – WOF), afirma que 68% da população brasileira está acima do peso, sendo 31% com obesidade. Nos casos graves, a cirurgia pode reduzir até 40% do peso e melhorar condições como diabetes e hipertensão.

Um robô para o futuro


Atualmente, o Conselho Federal de Medicina reconhece cinco técnicas de cirurgia bariátrica: Duodenal Switch, Bypass Gástrico, OAGB, Sleeve Gástrico e SADI-S. A escolha depende do perfil do paciente e pode variar entre procedimentos mais invasivos ou menos agressivos.

No SUS de Brusque, as cirurgias são feitas por videolaparoscopia, com duas opções: Sleeve, que reduz o estômago em formato de tubo, e Bypass, que cria uma bolsa menor com desvio intestinal.

O cirurgião Lucas Pensin destaca, porém, que o hospital já utiliza tecnologia robótica, mas ainda não disponível pelo SUS.

"Ela permite movimentos mais precisos, visão em 3D, menor sangramento, menos dor e retorno mais rápido ao trabalho", explica. Segundo ele, a cirurgia por vídeo custa entre R$ 25 mil e R$ 30 mil; a robótica chega a R$ 40 mil.

Hospital Azambuja/Divulgação

O cuidado com as "canetas emagrecedoras"


As chamadas “canetas emagrecedoras” têm ganhado destaque recente no debate sobre obesidade e cirurgia bariátrica, por causa da alta procura e do uso, muitas vezes, sem acompanhamento médico adequado.

Esses medicamentos podem auxiliar na perda de peso antes da cirurgia ou em casos de reganho, sendo indicados para pacientes com IMC acima de 30, ou 27 com comorbidades. Nenhuma das três moradoras entrevistadas as utilizou.

Segundo o cirurgião Lucas Pensin, o tratamento deve ser contínuo e supervisionado. "Não adianta usar por um ou dois meses e parar, porque o peso tende a voltar. Em casos de IMC acima de 40, a cirurgia bariátrica ainda é a opção mais eficaz", afirma.

A farmacêutica Patrícia Bernardi Sassi explica que as canetas imitam hormônios intestinais, aumentando a saciedade, reduzindo a fome e ajudando no controle glicêmico. Ela reforça que o acompanhamento multiprofissional é essencial e lembra que os medicamentos não são fornecidos pelo SUS, sendo aplicados apenas com prescrição.

A advogada Jéssica Voltolini Pereira alerta para os riscos legais no uso e na comercialização sem receita.

"Há riscos administrativos, civis e criminais. Os profissionais podem responder por qualquer um deles, e os estabelecimentos podem sofrer multas, interdição ou processos de indenização", afirma.

Ela lembra que a publicidade também é restrita: "não é permitido anunciar diretamente ao consumidor com promessas estéticas ou milagrosas; apenas informações técnicas e científicas podem ser direcionadas a profissionais de saúde".

Segundo Jéssica, a decisão pelo uso deve ser compartilhada com o paciente e nunca imposta como condição para a cirurgia.


"Precisava cuidar de mim"



Vera Lúcia Silva Miguel, 51 anos, de Brusque, decidiu fazer a cirurgia bariátrica após perder o marido para a Covid-19 em 2020. Ele também pesava 134 quilos e enfrentou dificuldades até no sepultamento, pelo tamanho do caixão.

“Percebi que precisava cuidar de mim. Não queria que meus filhos passassem pelo mesmo sofrimento”, diz.

Encaminhada ao programa do Hospital Azambuja, passou cerca de um ano em exames e orientações antes da cirurgia, realizada em 17 de outubro, quando pesava 114 quilos. Hoje, está com 85 quilos, quase 50 a menos.

“Acompanhamento com nutricionistas e médicos fez toda a diferença. A cada semana via resultados e ganhava ânimo para continuar. A cirurgia foi, sem dúvida, a minha melhor escolha”, conta.

Agora, recuperou disposição para atividades simples, como brincar com os netos, e afirma que a mudança vai além do peso: “a cirurgia é só o começo; depois vêm a reeducação alimentar e os exercícios”.

Arquivo pessoal

Assista agora mesmo!


Quem foram e como atuavam os primeiros médicos a atender as famílias de Guabiruba:


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