Longe dos estruturados portais e das rodovias que levam diariamente a população de uma cidade para outra, há uma forma rústica e aventureira de atravessar os municípios de Guabiruba e Botuverá. A Travessia dos Lageados é uma trilha em meio à mata, que liga o bairro Lageado Alto, em Guabiruba, até a localidade de Lageado Baixo, em Botuverá.

A travessia dos lageados foi descoberta de maneira pioneira por imigrantes italianos que chegaram ao Brasil entre o fim do século 19 e início do século 20. Para prosperarem na nova terra, precisaram encontrar e desbravar caminhos em meio a até então pouco explorada região, buscando o sustento e a sobrevivência em meio à natureza selvagem.

Como forma de manter e fortalecer a tradição, algumas famílias descendentes de italianos ainda realizam o caminho de maneira frequente, colaborando também com a manutenção da trilha, como a limpeza do excesso de mato no caminho – o que poderia acarretar no desaparecimento da trilha. Com o passar do tempo e o desenvolvimento do esporte de aventura, passou a chamar a atenção também dos apaixonados pela adrenalina em meio à natureza.

Como não poderia deixar de ser, aqueles que se aventuram a conhecer essa forma pouco convencional de ultrapassar os limites entre as duas cidades são presenteados pela natureza preservada. São árvores raras, um espetáculo de fauna e flora e o encontro com diversos riachos, cachoeiras e rios que cruzam o caminho dos trilheiros.

A duração da caminhada gira em torno de três horas. Durante a expedição, a reportagem concluiu em cronometradas 2h47. Para realizar a caminhada é necessário, antes de tudo, autorização do Instituto do Meio Ambiente (IMA), porque o local cruza o preservado Parque Nacional da Serra do Itajaí.

Foto: Cristóvão Vieira

Além disso, é fundamental que o trilheiro vá acompanhado de um guia que conheça o trajeto. Há várias bifurcações que encaminham para outras trilhas, e perder-se no meio do caminho é fácil para os mais desatentos. Água e alimentação são essenciais, porque as horas de caminhada vão exigir vigor físico e energia aos participantes.

Começo da caminhada

A expedição iniciou em Guabiruba, com destino a Botuverá. Depois de subir com auxílio de veículo até uma boa parte do Lageado Alto, chegamos à bifurcação que levava para o começo da trilha, e a partir daí apenas a pé poderíamos seguir. Na entrada, uma placa nada convidativa: perigo de morte. Um recado importante para chamar mais atenção de quem opta por realizar a caminhada.

No começo o terreno rochoso e plano faz a trilha lembrar uma pequena estrada, embora bastante estreita. As podas das árvores laterais de um lado e do outro também colaboram com a impressão de que a caminhada será tranquila. Contudo, com o passar do trajeto, a natureza vai tomando conta do que lhe pertence e dificultando o acesso aos visitantes.

É preciso atravessar cursos de água para chegar ao destino / Foto: Cristóvão Vieira

Em pouco tempo, as pedras dão lugar à lama e ao mato. As árvores vão fechando suas copas nas alturas, escurecendo o caminho. Quando o sol encontra algumas brechas, o cenário é bonito: feixes de luz que vão tracejando listras no solo. Um dos perigos da trilha é sua umidade: a pouca incidência de sol mantém as pedras lisas e escorregadias, e todo cuidado é pouco para não cair e se machucar.

Somente alguns minutos depois de entrar na trilha, já não se ouve mais manifestações da vida urbana. Silêncio total, quebrado somente às vezes pelo gorjeio de aves raras e o som de animais silvestres a correr pela mata.

Subida íngreme

No primeiro encontro com um curso de água cristalina no caminho, há uma pegadinha para os desatentos – que a expedição, por pouco, não caiu. Atravessando reto o riacho, há uma trilha limpa que segue para outro caminho. Mas para chegar a Botuverá, é preciso margear a água corrente pela direita e, alguns metros depois, entrar por outro caminho.

Há pelo menos quatro encontros com água corrente em que é necessário atravessar. É praticamente impossível manter os pés secos e, em algum momento, o trilheiro vai ter que colocar o pé na água. É importante usar calçados impermeáveis ou botas.

Eucalipto gigante se destaca em meio às árvores / Foto: Cristóvão Vieira

Alguns trechos à frente é dado início a uma subida, que vai se tornando cada vez mais íngreme. Ao lado esquerdo é possível ver um peral muito alto, enquanto o trecho para caminhar é estreito, o que requer uma atenção redobrada.

Quanto mais se sobe, mais a temperatura baixa. O frio em meio a trilha é uma realidade, e a altitude que se atinge é de mais de 600 metros acima do nível do mar. O suor gelado pode ser um perigo para quem faz essa caminhada, e é importante levar toalha e outra camiseta.

Após cerca de 40 minutos de subida, chegamos à parte mais alta e plana, onde podemos parar para descansar sentados nas pedras, além de lanchar e hidratar.

Descida e chegada

A partir dali, começa uma descida, não tão íngreme, mas longa. A sensação é de que o pior da trilha já passou. É tempo de contemplar as maravilhas da natureza. Belos eucaliptos e outros tipos de árvores contemplam o caminho. Em alguns pontos é preciso encontrar suporte nos galhos ou troncos das árvores, para descer os barrancos e dar continuidade à trilha.

Em determinado ponto da expedição, nosso caminho cruzou com o de um caçador. Prática proibida, que degrada o meio-ambiente – além de buscar caças de animais silvestres, o caçador também abriu caminho arrebentando árvores com facão -, o que ainda é comum em Botuverá. Munido de uma espingarda, o homem baixou a arma e cumprimentou o grupo estranho que passava.

Árvore sangue-de-dragão solta resina vermelha ao ser cortada / Foto: Cristóvão Vieira

Continuando nosso caminho, chegamos a um ponto de mata aberta. A luz do sol chega a incomodar no começo, já que as pupilas se acostumam com a falta de claridade. No meio do caminho, encontramos árvores peculiares. A primeira é uma sangue-de-dragão. Quando é cortada, solta uma resina vermelha que lembra o sangue. Contudo, bastante machucada pelos cortes das facas, a árvore perece em meio à travessia.

Outra árvore que chamou a atenção foi um eucalipto enorme e de tronco grosso. É preciso esticar o pescoço pra enxergar o fim da árvore, embelezando o passeio em cima de um barranco. Mas o melhor ainda estava por vir aos aventureiros que resistiram as quase três horas de caminhada.

Ao chegar no Lageado Baixo, em Botuverá, passamos pelas terras da família Foppa. Lá encontramos uma bela cachoeira, de cerca de 30 metros de altura. Como um presente que a natureza dá àqueles que ousam desbravar a densa e exigente trilha, lá estava a queda de água a ser admirada e contemplada pelos visitantes.

Travessia dos Lageados
Endereço: Entrada na Estrada Geral do Lageado, em Guabiruba, ou nas propriedades da família Tomio, em Botuverá
Acesso: Restrito
Nível de dificuldade: Médio
Riscos: Médios
Sinalização: Não sinalizado


Você está lendo: Travessia dos Lageados [Experiência em vídeo]


Veja também:
– Potencial para ecoturismo [Experiência em vídeo]
– Parque das Grutas [Experiência em vídeo]
– Morro do Barão [Experiência em vídeo]
– Rebio da Canela Preta [Experiência em vídeo]
– Floresta dos Xaxins [Experiência em vídeo]
– Fazenda Alegre [Experiência em vídeo]
– Trilha das Minas Abandonadas
– Travessia ao Faxinal do Bepe
– Trilha dos 100
– Trilha do Graff
– Recanto Feliz [Experiência em vídeo]
 Cachoeira do Bégo [Experiência em vídeo]
– Cachoeira do Venzon [Experiência em vídeo]
– Cachoeira do Lageado Baixo [Experiência em vídeo]
– Salto do Sessenta [Experiência em vídeo]
– Cachoeira da Água Fria [Experiência em vídeo]
– Rio Itajaí-Mirim
– Roteiro turístico