Nos tempos da colonização dos imigrantes do Vale do Itajaí, entre os séculos 19 e 20, os antigos moradores da região exploraram e formaram novos caminhos em meio a mata. Os objetivos eram tanto para conhecer novos ambientes onde pudessem viver quanto para realizar tarefas fundamentais da agricultura, e assim manter a subsistência em uma época de muito trabalho e poucos recursos.

Muitas destas trilhas abertas em meio à mata, contudo, ficaram por um bom tempo desconhecidas após a urbanização e reorganização das cidades. Recentemente, um grupo de trilheiros que faz parte da Associação de Ecoturismo, Preservação e Aventura do Vale do Itajaí (Assepavi) redescobriu um caminho utilizado muito provavelmente para extração de madeira nas proximidades do Faxinal do Bepe, em Indaial, enquanto visitavam o local para outro trabalho.

Foto: Guinter Schmid

Utilizando facão e outras ferramentas para reabrir o caminho, e decididos a descobrir até onde a trilha levaria, o grupo descobriu, após dois dias de caminhada – e inclusive acampando na beira da trilha – que poderiam chegar até Botuverá. E assim ajudaram a resgatar a história e definir uma nova opção de aventura na mata fechada.

Para fazer a caminhada é preciso ter um mínimo de resistência física. São aproximadamente 48 horas de trajeto, totalizando cerca de 58 quilômetros. A altitude é considerável, já que na chegada do Faxinal são 700 metros acima do nível do mar, mas ao longo da caminhada chega-se a cerca de 890 metros de altitude. No trecho final, são cerca de três horas somente de descida. A trilha passa pelo Parque Nacional da Serra do Itajaí e é, portanto, um espaço de preservação permanente.

Primeira visita

Empolgados com a aventura de conhecer um novo caminho em meio a mata, um grupo de cerca de nove pessoas subiu o Faxinal do Bepe em uma Combi. O destino final era a Fazenda Recanto Feliz, uma área verde destinada ao lazer e à pratica de esportes em contato com a natureza, localizada em Botuverá.

Um dos líderes da expedição foi Ivan Pedro Rodermel Fischer. O guabirubense, acostumado com trilhas, explica que este foi um dos lugares em que mais conseguiu entrar em contato com a natureza selvagem. “É intocável. Você encontra com animais exóticos e com parte da fauna nativa da nossa região. Em vários momentos você não ouve nada da vida urbana, fica tudo em silêncio ou com o barulho das águas nos riachos, dos pássaros e outros animais”.

Pelo caminho, Fischer relata que também encontrou estruturas construídas pelos antepassados. “É possível encontrar construções, pontes antigas, porteiras, portões e ruínas de casas. Algumas das casas pegaram fogo, mas sobrou parte da estrutura que pode ser identificada”. Somente no primeiro dia foram caminhados cerca de 20 quilômetros.

Animais silvestres, como o periquito-verde, estão presentes em abundância no caminho | Fotos: Guinter Schmid

Desde então, Fischer já fez mais vezes o trajeto. Em algumas destas oportunidades encontrou-se com vestígios de animais silvestres. “A gente encontrou bastante marca de cateto, ou porco-do-mato. Também vimos pegadas de onça e fezes de outros felinos”. Conforme explica o trilheiro, é importante levar para a trilha bons equipamentos para camping, levando em consideração a possibilidade de chuva e frio devido a altitude.

Para Ivan, a travessia de Indaial para Botuverá por meio do Faxinal do Bepe, apesar de exigir resistência e intensidade, é uma das mais interessantes da região. “Vale bastante a pena, até por ela ser dentro da mata fechada. Não escuta cidade, e nem mesmo vê a cidade nos picos dos morros. É ainda mais bonito quando começa a cair o sol”.

Cuidados na trilha
Também experiente em expedições na mata, Guinter Schmid fez parte do grupo que resgatou a travessia de Indaial para Botuverá. Conforme explica, alguns cuidados são importantes para realizar uma caminhada desta envergadura, principalmente por passar pela mata fechada, com a possibilidade de encontrar animais peçonhentos e insetos transmissores de doenças. “Primeiro é importante estar com as vacinas em dia, principalmente a da febre amarela, que vem com força na nossa região”.

Outro item primordial são as perneiras, um tecido feito geralmente de couro que é usado na parte das canelas para proteger de ataques de cobra. A jararacuçu é uma das mais encontradas na região. “Uma vez estando ali dentro da travessia não tem como chamar resgate. Não tem área para celular ou acesso à comunicação”. Os trilheiros mais experientes utilizam um equipamento conhecido como Spot, que consegue emitir sinal via rádio quando há situação de perigo.

Travessia ao Faxinal do Bepe
Endereço: Faxinal do Bepe, em Indaial
Acesso: Restrito
Nível de dificuldade: Difícil
Riscos: Altos
Sinalização: Sem sinalização


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