“E agora gostaria de ter um pouco de perspectiva. Se puder ter a honra de que todas as mulheres indicadas, em todas as categorias, se levantem agora comigo neste local, as atrizes – vamos, Meryl [Streep], se você levantar, todo mundo levanta -, as cineastas, as produtoras, as diretoras, as roteiristas, a diretora de fotografia, as compositoras, as designers. Vamos!

Ok, olhem ao redor, pessoal. Olhem ao redor, senhoras e senhores, porque todas nós temos histórias para contar e projetos que precisamos financiar.

Não falem com a gente nas festas de hoje à noite. Daqui a alguns dias, convidem-nos para o seu escritório, ou venham até os nossos, o que for melhor para vocês, e vamos contar sobre nossos projetos. Tenho duas palavras para deixar com vocês hoje, senhoras e senhores: inclusion rider.”

Este poderia ser o resumo do Oscar do último domingo: um trecho do discurso da ganhadora do prêmio de melhor atriz, por sua atuação maravilhosa em Três Anúncios Para um Crime.

A cerimônia foi pontuada por momentos de celebração e conscientização sobre a diversidade, com um dos focos na diferença de oportunidades para as mulheres. A não ser em suas categorias específicas (atriz e atriz coadjuvante), as mulheres indicadas, nos 90 anos de existência do Oscar, formam um número tão, mas tão minoritário, que só mesmo requisitando especificamente atenção para trabalho e projetos liderados por mulheres. O uso do tempo limitadíssimo do discurso de agradecimento para levantar essa necessidade é mais do que razão para acrescentar uma segunda camada de aplausos para esta grande atriz, neste ano de reconhecimento.

Frances McDormand é, além de tudo, uma figura única. Não se veste de acordo com o dress code padrão, não está preocupada com cabelo, maquiagem, rugas, elegância. Está preocupada com conteúdo – e com um amor inclusivo que também fez questão de destacar ao agradecer ao “seu clã”, o marido Joel Coen e do filho Pedro: estes dois indivíduos leais foram bem criados por suas mães femininas. Eles valorizam a si mesmos, ao outro e àqueles que estão ao seu redor. Sei que estão orgulhos de mim e isso me enche de uma alegria eterna.

Por seu talento e sua visão de mundo, Frances McDormand, a gente aplaude você. De pé.

Mas não somos todos. Sempre existem aqueles que têm a convicção de que toda mulher tem que ser, antes de mais nada, aprisionada aos padrões. Neste Oscar, essas pessoas foram representadas, quem diria, pelo crítico Rubens Ewald Filho, em seus comentários na transmissão da festa pelo canal de TV por assinatura TNT. Sobre Frances, ele disse que ela é “uma senhora que não é bonita e que deu vexame bêbada no Globo de Ouro“. Pode pegar o vexame todo para você, Rubens!

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E ainda mais vexame, ao afirmar que a atriz Daniela Vega (de Uma Mulher Fantástica, que ganhou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro para o Chile) “é na verdade um rapaz”. Passou da hora do crítico atualizar seu software interno e substituir essa transfobia por uma visão de mundo que chegue, ao menos, aos pés da de Frances McDormand, abraçando a inclusão e enxergando as pessoas além das normas que já foram substituídas pela compreensão de que as pessoas têm o direito ao respeito de suas diferenças – e de serem avaliadas pelas suas qualidades, talentos e marcas que deixam no mundo, ao invés de sermos julgados por padrões sociais anacrônicos, limitantes e preconceituosos. Pode ser?


Claudia Bia
–  jornalista que não conseguiu esperar uma semana para falar do Oscar.

 

Ah, sim. Nestes dias pós Oscar, você já deve ter recebido a informação de que inclusion rider é uma cláusula que pode ser incluída nos contratos dos profissionais de cinema “top de linha”, exigindo que elenco secundário e equipe técnica sejam mais representativos em termos de etnias e gêneros.

 

 

“E agora gostaria de ter um pouco de perspectiva. Se puder ter a honra de que todas as mulheres indicadas, em todas as categorias, se levantem agora comigo neste local,
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