O terreno em que está localizada hoje a Vivenda Árvore da Vida era propriedade do pai de Deise, esposa de Jefferson. Ali, era extraída a madeira das árvores do local, sem grande preocupação com o ambiente. Também havia o cultivo de mandioca. Em pouco tempo, grande parte do terreno ficou com o solo sem nutrientes.

“Sempre me diziam que estas terras não valiam nada”, lamenta Jefferson, por causa da falta de nutrientes de solo, do terreno acidentado e da escassez de água. No entanto, em uma visita ao local com alguns amigos, eles encontraram uma grande figueira, com uma pequena poça de água próxima a árvore. Eles começaram a cavar, e a poça aumentou. Havia uma fonte.

“A figueira acabou nascendo naquele ambiente, e está apoiada em rochas. O peso e a estrutura provavelmente mexeram nas rochas e furaram o lençol freático”, palpita. Esta é a origem do nome Vivenda Árvore da Vida. Em uma área de chão batido, que não era mais explorada há cerca de 35 anos, a natureza se recuperou.

Estudos, inspiração e o começo
A partir de 2015, Jefferson começou a estudar agricultura de maneira autodidata. Fez viagens, esteve presente em palestras e conferências. Um amigo lhe mostrou o webdocumentário Life in Syntropy (literalmente “Vida em Sintropia”), produzido pela Agenda Götsch – organização do idealizador do sistema agroflorestal, Ernst Götsch – e apresentado na Conferência das Nações Unidas sobre as Mudanças Climáticas de 2015 (COP21). O curta apresenta casos de sucesso da agricultura sintrópica. “É o vídeo instigador de todo agrofloresteiro, é ali que dá o ‘start”, explica Jefferson.

A partir dali, vieram várias ideias, os cursos, a troca de conhecimentos com outros agricultores que utilizam o mesmo sistema. O livro “Agroflorestando o mundo de facão a trator” foi fundamental nos estudos de Jefferson, que chegou a fazer um curso também com o autor, Nelson Eduardo Corrêa Neto.

Em um pequeno canteiro no quintal de sua casa, Jefferson começou a testar os princípios da agrofloresta, iniciando pequenas plantações, e ficou extremamente satisfeito com a colheita e os resultados. Desde agosto de 2017, ele planta no terreno onde está localizada a Vivenda.

A agrofloresta brusquense
No pouco tempo em que está plantando na Vivenda Árvore da Vida, Jefferson já colheu alface dos mais variados tipos, além de agrião, rúcula, repolho, brócolis e outras hortaliças. Hoje também planta berinjela, alho-poró, hortelã, cebolinha, salsinha, laranja, tangerina, ingá, banana, ameixa, batata yacon, milho asteca, mandioca e eucalipto. Tudo em um canteiro de apenas 300m², mas que deve ser expandido em breve.

A ideia é transformar o terreno em uma grande agrofloresta e também fazer as colheitas serem a única fonte de alimentação da família. Jefferson tem uma esposa, Deise, e duas filhas, Alice, de 7 anos, e Beatriz, de 5.

Um dos princípios básicos do sistema agroflorestal é criar um solo que tenha qualidades próximas ao solo de uma floresta típica, repleta de nutrientes. A terra é remexida, corrigida com quantidades mínimas de calcário. São adicionados sulfatos minerais e cobertura de matéria orgânica. É desta forma que a vida retorna ao solo, com a presença de minhocas, fungos e outros seres vivos. O processo de poda das plantas também é importante, porque serve para criar matéria orgânica e manter a qualidade do solo.

Diferentes plantas são cultivadas juntas e extraídas de acordo com as características de cada uma delas. Afinal, em uma floresta as plantas também estão juntas. “A bananeira é fundamental numa agrofloresta. É uma mãezinha. Rebrota rapidamente, retém água, e faz sombra para as plantas mais próximas”, explica Jefferson, mostrando a árvore cercada por outras plantas menores.

Mesmo com o cultivo simultâneo, é necessário haver um rodízio de culturas. De acordo com Jefferson, é preciso ter um planejamento dos próximos quatro meses para poder manter uma rotatividade.

Tigre vive livremente pela agrofloresta, acompanhando os trabalhos | Foto: João Vítor Roberge

Trabalho diário
A Vivenda Árvore da Vida também acolhe voluntários que pretendem trabalhar e experimentar o sistema agroflorestal. Oito já passaram pelo local, ajudando nas plantações em funções específicas e recebendo suas partes das colheitas, dependendo do acordo. Desta vez, quem estava era o engenheiro agrônomo Gustavo Berlaver, de 30 anos.

“Sempre gostamos de receber gente, porque além de agregar na mão de obra, existe uma troca de conhecimentos muito boa. Eles trazem novas ideias, novas visões. Em uma conversa, podemos ter uma grande ideia”, explica Jefferson, que mantém constante contato com outros agrofloresteiros espalhados pelo estado.

Os voluntários também faziam pães de fermentação natural, com trigo integral comprado fora da Vivenda. Para o futuro, Jefferson pretende cultivar trigo orgânico e retornar com a produção de pão.

O dia a dia da agrofloresta começa com Jefferson saindo de sua casa, localizada a poucos metros da vivenda, e subindo com seu carro até o morro. Ali, há uma espécie de alojamento, com cozinha, quarto de casal, quarto com quatro beliches, oficina e banheiro seco, todos com água potável de um poço artesiano e com energia elétrica.

Faceiro naquele ambiente está Tigre, um lindo e magricelo vira-lata com pelagem alaranjada e preta, justificando seu nome. “Ele era muito mais magro quando achamos ele”, brinca Jefferson. “Mas é bom que ele fique aqui em cima, lá embaixo, na nossa casa, temos outro cachorro e os dois não se gostam, vivem brigando”.

De manhã cedo, a prioridade é o canteiro agroflorestal, para que as plantações fiquem limpas e bem cuidadas. Na sexta-feira os trabalhos são embalados ao som de reggae. Depois, começam os trabalhos de organização do alojamento, da estrada de acesso e do espaço geral.

Jefferson conta que as últimas chuvas que assustaram a população nas regiões centrais de Brusque não afetaram as plantações. O problema neste caso é a estrada de acesso, que precisa de manutenção. Antes da vivenda, ela ficou fechada pela vegetação durante dez anos.

Pode-se desmatar, desde que se saiba o que plantar, como plantar, com recuperação de solo, trazendo água de volta e restituindo o ambiente de floresta. “O principal objetivo é reestruturação do solo, criando florestas com alimento”, pontua o agrofloresteiro.

Recentemente, as colheitas da agrofloresta começaram a ser vendidas, em feiras independentes e itinerantes, com locais e horários anunciados através de Facebook e Whatsapp. Com as primeiras vendas, os custos com o canteiro foram cobertos.

Diversos tipos de planta são cultivados juntos, em equilíbrio com suas características | Foto: João Vítor Roberge

Bioconstrução: outro lado da vivenda
Jefferson também pretende investir na bioconstrução, uma técnica em que todos os processos, desde concepção até ocupação, visam o mínimo impacto ambiental.

Entre os materiais, estão areia, barro, pedras, madeiras e bambus, além da reutilização e reciclagem de materiais. As principais vantagens são a economia na construção, a ausência de umidade e a temperatura amena constante. Um curso de bioconstrução será realizado na Vivenda Árvore da Vida nos dias 21 e 22 de abril.

Os planos de Jefferson incluem a bioconstrução de um galinheiro, para expandir a vivenda também para a pecuária sustentável.

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