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A essência e os acessórios

A norte-americana Lizzie Velasques, que tem um vídeo muito acessado na internet, é uma daquelas pessoas que nos tiram do lugar comum. Lizzie é portadora de uma doença rara, que afeta sua aparência e não a deixa ganhar peso. Na infância, provocava sustos nas outras crianças e sofria bullying. Seus pais disseram- lhe que ela não era diferente de ninguém, que era apenas um pouco menor, e que ela deveria enfrentar a situação e mostrar a todos quem ela realmente era. Essa foi a senha para a mudança de atitude que fez toda a diferença em sua vida. Como ela pergunta em seu vídeo: “afinal, o que define uma pessoa”? Lizzie fala da frustração de querer que sua aparência mudasse, mas ressalta a atitude dos que estavam ao seu redor, que não deixavam que ela se definisse pela síndrome que portava.
Lizzie não deixou que os que a chamavam de “monstro” a definissem. Uma coisa são as opiniões que os outros podem ter a respeito de alguém. Outra coisa é o modo como esse alguém vê e define a si mesmo.
Num mundo dominado pela aparência e pela frivolidade, somos sempre tentados a nos definirmos a partir dos padrões dos outros. Se fôssemos medir o tempo e a energia que muita gente gasta em preocupação com sua aparência física ou com os padrões sociais que pensa que deveria ter, ficaríamos surpresos com a disparidade entre essas preocupações vãs e desnecessárias e a pouca importância que se dá ao que realmente é importante. No vocabulário de Aristóteles, o que define uma coisa é sua essência. Os demais atributos que ela possui são “acidentes”, acessórios, penduricalhos, que podem ter uma ou outra função importante, mas que não são essenciais.
Se assim é, fica difícil imaginar que o ser humano seja mesmo um animal racional, pois a preocupação com o desenvolvimento do intelecto e do espírito, que nos diferenciam dos animais inferiores, está longe de ser prioridade. Ao contrário, gastamos tempo e recursos sem fim em busca de objetivos secundários, enquanto deixamos nossa essência à míngua. Problemas físicos e de aparência, como os de Lizzie, são muito raros, mas muito mais raras são as pessoas que demonstram uma fração da força de caráter dela.
O desapreço que temos pelo intelecto e pela espiritualidade, comparados ao apego exagerado ao corpo e seus prazeres, nos colocam no limiar da irracionalidade.
A pergunta de Lizzie nos instiga. Como me defino? O que orienta minha vida e para onde estou caminhando?
Se os espelhos refletissem nossa vida interior, talvez fôssemos tomados de terror todas as manhãs.