Polícia Civil de Brusque é comunicada sobre adolescente que joga Baleia Azul

Jovens são instigados a cumprir desafios que envolvem automutilação

  • Por Daiane Benso
  • 6:30
  • Atualizado às 15:47

Polícia Civil de Brusque é comunicada sobre adolescente que joga Baleia Azul

Jovens são instigados a cumprir desafios que envolvem automutilação

  • Por Daiane Benso
  • 6:30
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Um jogo online que instiga adolescentes a realizar desafios de automutilação tem causado preocupação em todo o mundo. Por mais irracional e ilógico que pareça, o Baleia Azul – Blue Whale – tem atraído milhares de jovens a testar seus medos assistindo filmes de terror, furando mãos com agulhas, além de outras propostas que culminam com o último e mais derradeiro desafio: cometer o suicídio.

O jogo mortal é organizado por um “mentor” em grupos fechados do Facebook e WhatsApp e aparentemente começou a ser praticado na Rússia, por meio de um grupo conhecido como F57. O Baleia Azul tem chamado tanto atenção que há informações de que cerca de 130 jovens tenham cometido o suicídio em 2015 na Europa.

No Brasil houve a confirmação de que um adolescente de 13 anos, de Nova Iguaçu (RJ), se matou depois de participar do desafio. Em Santa Catarina, outro jovem de 15 anos tentou o suicídio duas vezes, conforme relato de sua mãe nas redes sociais.

Caso em Brusque
No começo desta semana um caso de um adolescente envolvido com o jogo foi comunicado à Delegacia de Proteção à Criança, ao Adolescente, à Mulher e ao Idoso (Dpcami). O delegado Ricardo Marcelo Casarolli conta que na tarde de segunda-feira, 17, duas adolescentes foram até o local para falar que o primo estava participando do desafio. Não chegou-se a registrar boletim de ocorrência e a família do jovem foi comunicada, afirmando que estava ciente e já tinha tomado providências. A idade e endereço do jovem não foram revelados.

O delegado diz que a melhor forma dos pais evitarem possíveis problemas futuros é “blindando” o acesso dos filhos aos meios de comunicação digital. “Sabemos que é como deixar de viver, mas é preciso que os pais bloqueiem todo e qualquer tipo de acesso à internet e estejam atentos aos sinais dos filhos. Por mais ilógico e irracional que sejam estes desafios é preciso todo o cuidado neste momento”.

Casarolli explica que este tipo de prática se enquadra no artigo 122 do Código Penal, em que há indução e instigação ou auxílio a suicídio e que estes crimes são mais difíceis de investigar do que os “físicos”. Criadores e administradores do jogo, além de qualquer pessoa que convide ou compartilhe o jogo pode ser punida. A pena prevista de reclusão é de dois a seis anos, podendo ser duplicada caso a vítima seja menor de 18 anos.

Denúncias sobre o jogo e seus possíveis usuários podem ser feitas na Dpcami. O ideal é que sejam lavados o nome das páginas do Facebook e de grupos do WhatsApp, além da impressão das conversas.

Fragilidade emocional
“A pessoa que procura um jogo destes é porque está fragilizada emocionalmente”, alerta o coordenador do curso de Psicologia do Centro Universitário de Brusque (Unifebe), Ademir Bernardino da Silva.

Ele diz que um jovem saudável, que tem boas relações familiares, não entrará em um jogo deste porte, e caso decida conhecer, será por curiosidade, não deixando-se influenciar pelos desafios. Silva afirma que todo o ser humano precisa se sentir pertencente a algo e que o adolescente muitas vezes se sente incompreendido, já que esse é um momento de transição e instabilidade emocional.

“O que pode fazer com que um jovem queira participar de um jogo como o Baleia Azul é ter a sensação de não pertencimento. Fazendo parte de um grupo secreto, em que ele é potencializado, seduzido, ele se sente pertencente e acha sentido na vida, e esse caminho vai lhe conduzindo, podendo levá-lo a cometer o suicídio”, afirma o coordenador.

A psicóloga da Dpcami, Vanessa Laner Garcia Costa, diz que há registros de suicídio todos os dias, porém, por questões éticas não são divulgados. “Ainda é um assunto tabu, mas as pessoas não têm noção do quanto é presente no dia a dia. O jogo traz o assunto morte de outra forma, autorizando-se a falar sobre o suicídio no meio digital”, constata.

Laços afetivos
Para a psicóloga, o jogo não tem o poder de fazer com que o jovem cometa o suicídio, já que na sua visão, a pessoa que procura por essa ferramenta está buscando uma válvula de escape. “Quem acessa ao jogo também busca em outros sites ou grupos algo que estimule ao suicídio. A culpa não é do jogo e sim das relações familiares, hoje dominadas pelos meios digitais. Hoje, em uma mesa de jantar, não há troca de afeto, cada um está envolvido pelos seus aparelhos celulares, há um distanciamento enorme”.

Vanessa orienta que os pais estejam perto dos seus filhos e monitorem a rotina deles em meio à internet, para que os laços não sejam perdidos. O coordenador de Psicologia da Unifebe também alerta que os pais precisam estar atento aos pequenos sinais do comportamento dos filhos, observando se está mais afastado ou deprimido.

“Proibir o uso da internet não é o melhor caminho, pois pode despertar mais curiosidade. É preciso verificar quais páginas são acessadas e quais grupos o adolescente participa. Além disso, é preciso sentir se o filho realmente se sente pertencente à família e também exigir a presença dele junto ao seu grupo familiar”.

Silva também diz que a escola tem um papel preponderante na detecção de qualquer comportamento estranho do adolescente. Segundo ele, é preciso observar o olhar do aluno e qualquer tipo de isolamento ou instabilidade emocional.

Educação
Oficialmente a Agência de Desenvolvimento Regional (ADR) de Brusque não recebeu nenhuma notificação da Secretaria de Educação de Santa Catarina sobre o jogo. No entanto, a direção das escolas já estão atentas ao assunto e trabalhando na conscientização dos alunos. Os responsáveis pela Secretaria de Educação de Brusque foram procurados para comentar o assunto, mas não foram localizados até o fechamento desta edição.

O Jogo
Baleia Azul é um jogo em que o competidor precisa completar 50 tarefas, sendo a última, tirar a própria vida. Uma vez iniciada a competição, ditada por um “curador”, não é possível voltar atrás – quem tentar desistir sofrem ameaças, que se estendem aos familiares. Dentre os desafios estão ações como escrever com uma navalha o nome do “#F57” na palma da mão, cortar o próprio lábio e desenhar uma baleia em seu corpo com uma faca.

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