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Brusque só teve uma família acolhedora

Serviço é uma forma de evitar que crianças e adolescentes sejam encaminhados a abrigos institucionais até resolverem sua situação

Apesar de estar em vigor desde 2012 em Brusque, até agora, o Serviço de Acolhimento em Família Acolhedora no município só teve a participação de uma família. O casal, que preferiu não se identificar, foi o responsável por cuidar de um bebê por cerca de três meses – até que a sua adoção fosse definida pelo juiz da Vara da Família, Infância e Juventude da comarca de Brusque.

A secretária de Assistência Social de Brusque, Mirella Zucco Muller, explica que a família acolhedora é uma forma de evitar que crianças e adolescentes sejam encaminhados a abrigos institucionais. “Não somos contra as instituições, mas sabemos que como essas crianças e adolescentes já tem toda uma situação difícil por estar saindo do núcleo familiar, é preciso de um apoio particular, e nesse sentido, existe a proposta deste serviço que é nacional. É uma forma de atender as crianças e adolescentes com mais atenção”, explica.

Podem ser encaminhadas às famílias acolhedoras, crianças e adolescentes – de 0 a 18 anos – que foram afastadas da família biológica e também aqueles que foram entregues à adoção. “A experiência que tivemos em Brusque foi de uma criança que foi para a adoção. Crianças que precisam ser retiradas da família para fazer um trabalho ainda não tivemos no município, até porque optamos, enquanto política de assistência social, o mínimo possível destituir da guarda dos pais, e fazer um trabalho para fortalecer os vínculos familiares, evitando o rompimento. Nesse período transitório, achamos muito importante que a criança fique com uma família, ao invés de um abrigo”.

As famílias acolhedoras podem ficar por no máximo dois anos com a criança e, para isso, recebem R$ 788 – um salário mínimo – para auxiliar nas despesas da família. “Existe uma reavaliação feita pelo juiz da comarca a cada seis meses com essa família, e nós aqui da Secretaria de Assistência Social fazemos o acompanhamento mensal da família acolhedora”, diz.

De acordo com Mirella, o principal motivo para que o serviço ainda não tenha se fortalecido em Brusque, é o receio do apego emocional com a criança. “Encontramos barreiras, principalmente no medo das famílias de se apegarem às crianças, e depois sofrerem quando precisam entregá-las à adoção ou para a família biológica. Mas o que devemos levar em conta é a importância desse desprendimento, da família saber que vai ficar com a criança por um período, mas que depois disso ela estará bem, ou voltando para o seio familiar ou para a adoção”.

A secretária destaca que o número de abrigados em instituição no município é pequeno, mas mesmo assim, é importante a ampliação na participação no serviço. “Hoje temos uma criança e dois adolescentes abrigados. Nosso maior desafio é conseguir mais famílias, mesmo que não tenhamos uma demanda grande. Mas, se surgir uma necessidade, que possamos ter mais famílias dispostas a ficar com a criança ou adolescente neste período”, diz.
Sem nada em troca

O primeiro casal a fazer parte da família acolhedora em Brusque aprovou a experiência. Eles decidiram participar do serviço por acharem que iniciativas como esta podem refletir em benefícios para a sociedade. “Após ficarmos sabendo do projeto, amadurecemos a ideia através de muito diálogo. A vontade de acolher uma criança foi ao encontro da possibilidade real de promover ajuda. Certamente não foi uma decisão fácil, sabíamos desde o começo que mudaríamos nossa rotina em prol da criança e isso implicaria em muitas coisas. Decidimos acolher pensando no bem que poderíamos promover e com a esperança que nada no mundo material poderia ser maior ou melhor que a experiência do acolhimento possibilitaria para a criança e para nós”, diz.

Os acolhedores também destacam que a experiência de cuidar da criança foi única. “Cada dia ao lado da criança foi um prazer. Sentimos muito amor e carinho, nos dedicamos à situação sem nunca esquecer que a criança não era nossa e nem poderia ser. O apoio dos amigos e principalmente da família foi fundamental. Toda família se envolveu e desprendeu-se do sentimento de medo dando lugar ao sentimento do amor assim que conheceram a criança”.

O casal também lembra que o medo do apego à criança sempre esteve presente, mas nunca foi mais forte do que o desejo de ver o menino bem. “Sabíamos desde o começo que o nosso maior desafio seria a questão emocional. Todo tempo conversávamos sobre isso e tivemos sempre em mente que seria um período que a criança passaria com a gente, e por mais que soubéssemos que faria muita falta a presença dela, a prioridade era fazer o bem a ela.

Desejamos todo o tempo que ela fosse adotada por uma família linda e cheia de amor. Sentimos vontade de tê-lo com a gente sempre, mas fomos firmes e mantivemos nosso papel de família que acolhe, fizemos uma escolha e aceitamos a condição de amá-lo e cuidá-lo sem esperar nada em troca. Continuamos pensando da mesma maneira após ele ter sido adotado”.
Requisitos

Para se tornar uma família acolhedora é preciso ter mais de 21 anos, residir em Brusque, não apresentar problemas psiquiátricos, dependência química e não estar respondendo processo judicial. É necessário ainda ter aceitação de todo o grupo familiar com a proposta do acolhimento.

Mirella ressalta que a família não pode ter interesse em adoção e precisa ter disponibilidade e interesse em oferecer proteção e amor a crianças e adolescentes e também de participar do processo de habilitação das atividades. “Quem tem interesse em acolher pode nos procurar para se cadastrar. Todos passam por entrevistas, capacitações e conhecem outras famílias acolhedoras”.

Desde o cadastro até o acolhimento a família acolhedora é acompanhada por técnicos da Secretaria de Assistência Social.