Câmara de Brusque discute prática de autolesão entre crianças e adolescentes

Evento foi proposto conjuntamente pelos vereadores Marcos Deichmann e Gerson Morelli, o Keka

Câmara de Brusque discute prática de autolesão entre crianças e adolescentes

Evento foi proposto conjuntamente pelos vereadores Marcos Deichmann e Gerson Morelli, o Keka

A Câmara de Brusque recebeu na noite desta quinta-feira, 9, o psicanalista clínico Mário Augusto Eccher, para abordar a prática da autolesão e da automutilação entre crianças e adolescentes, bem como a influência e os perigos a que eles estão sujeitos ao acessarem conteúdos impróprios na internet – temáticas centrais da audiência pública realizada no plenário do poder Legislativo.

O evento foi proposto a partir da junção de requerimentos de autoria do vereador Gerson Morelli, o Keka (PSB), e Marcos Deichmann (Patriota).

Eccher trouxe ao Legislativo informações e estatísticas para contextualizar sua abordagem, na qual discorreu sobre as prováveis causas da autolesão, também chamada de cutting, na expressão em inglês, as formas de identificar o problema e como lidar com a vítima. “Temos crianças extremamente inteligentes, que falam alguns idiomas, fazem uso da tecnologia melhor do que os adultos, mas são extremamente frágeis emocionalmente”, afirmou.

Furar-se com agulhas, canetas, pontas de compasso, de lapiseira e de pregos, cortar-se com estilete ou cacos de vidro, queimar a pele com cigarros, arrancar cabelos, bater ou esmurrar a si mesmo e roer as unhas até sangrar são algumas das formas de autolesão.

Em Brusque, segundo Eccher, ao menos 64 crianças foram identificadas como vítimas do distúrbio por meio de um projeto que abrangeu 19 escolas da rede pública municipal de ensino. “Uma única escola registrou que não possuía nenhum caso, mas na semana seguinte ligaram urgente por causa de uma tentativa de suicídio”, contou o psicanalista.

Numa pesquisa realizada em duas unidades escolares do município, foram entregues questionários a 155 estudantes com idade entre 11 e 16 anos. Desse grupo, 21 alunos responderam que praticavam o cutting, um em cada sete, e outros 36 declararam já haver se autolesionado.

Se somados os dois resultados, a média de estudantes que se autolesionam será de um para cada três. Só 21 indicaram ter pedido ajuda diante da situação. No mesmo levantamento, 127 alunos disseram conhecer alguém que se autolesiona.

Echer traduziu o cutting como um “corte na dor”. A autolesão funcionaria como a materialização da dor emocional através de uma dor física, para aliviar a sofrimento que muitas vezes não se consegue expressar, seja por falta de diálogo, oportunidades ou por não saber lidar com os sentimentos.

“Uma vez que a dor emocional não é tão simples de ser cuidada ou acessada, a ferida provocada pela autolesão pode ser vista, tocada, tratada com medicamentos, promovendo a sensação de controle e alívio”.

Os sinais da autolesão
Comportamentos comuns em quem se autolesiona vão do desinteresse por atividades de que antes gostava à queda no rendimento escolar, isolamento social, uso de roupas de manga longa em dias quentes, cortes frequentes nos braços e pernas, agressividade, irritabilidade, agitação psicomotora, alteração no apetite, sonolência, desatenção e desenhar pessoas cortadas ou sangrando.

Quando a criança ou adolescente passa a não mais esconder as feridas, é porque está pedindo socorro: “Nesses casos, a pessoa pode ser mal compreendida, ridicularizada, menosprezada. Interpretada como alguém rebelde ou que quer chamar a atenção. Porém, o comportamento autolesivo frequentemente está associado a quadros depressivos e isolamento social. Exibir os ferimentos pode ser a única maneira que ela encontra para expressar seus sentimentos e pedir ajuda”, esclarece Eccher.

Saídas para o problema
Após a apresentação, também se manifestaram o tenente-coronel do 18º Batalhão de Polícia Militar, Otávio Manoel Ferreira Filho, a psicóloga Jaqueline Vieira, servidora da Secretaria de Educação de Brusque, e o secretário de Saúde do município, Humberto Fornari – cada qual expondo seus pontos de vista a respeito da problemática em foco.

Demais pessoas da comunidade que acompanhavam a audiência pública também expressaram suas opiniões. Conselho Tutelar, Corpo de Bombeiros e Unifebe estavam entre as entidades representadas.

Professor na rede particular de ensino, Keka defendeu a promoção, por parte do poder público, de atividades esportivas, culturais e de lazer – em prol da formação de uma juventude saudável.

“Venho cobrando do prefeito Jonas Paegle e do vice-prefeito, Ari Vequi, a prevenção, através de espaços culturais, esportivos, do trabalho com escolinhas [de prática esportiva]. Ao invés de aumentarem, esses espaços estão diminuindo. Esses são os caminhos pelos quais vamos tirar a criança da rua, do vazio. Sinto muita falta disso”.

Deichmann, presidente da audiência pública, ressaltou a urgência de adesão da comunidade – especialmente de mães e pais – à discussão em pauta.

“A responsabilidade maior pelas crianças e adolescentes é dos pais. Participo da vida escolar e familiar dos meus filhos e vejo o quanto isso é importante, ainda mais com a abertura informacional proporcionada pela internet. Temos que estar ainda mais presentes na educação deles”, argumentou.

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