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O aumento dos suicídios no Brasil

A cena acontece em Caupenne d’Armagnac, um pequeno povoado ao sul da França perto da fronteira com Espanha. Josiane sobe ao escritório do seu marido Luis e o encontra sem vida, tinha se matado com um tiro na têmpora esquerda, era 19 de maio de 1994.

Luis Ocaña de apenas 48 anos de idade, era um ex-ciclista, famoso por ter vencido inúmeras corridas profissionais e principalmente o Tour de France de 1973.

Após abandonar sua vida de atleta se dedicava à fabricação de vinhos espumantes e outras bebidas licorosas na sua propriedade ao sul da França.

No dia anterior ao incidente Luis telefonou para sua mãe e sua irmã sem dar nenhum sinal do que estava prestes a cometer, já para seu amigo Juan falou a verdade, ia se matar. Juan não deu muita importância porque era a enésima vez que Luis dizia o mesmo.

Sua morte impactou o mundo do esporte e também do jornalismo esportivo, já que Luis nos últimos anos atuava como comentarista de radio, TV e jornais impressos.

Ninguém conseguia entender como uma pessoa de “sucesso” teria a motivação para acabar com sua própria vida.

Lembremos que estávamos numa época anterior às redes sociais, a própria internet engatinhava, quase ninguém conhecia a realidade vivida por Luis.

Recentemente foram anunciadas as taxas de suicídios acontecidas em 2022 em vários países e regiões do mundo incluindo Brasil.

O aumento do número de suicídios em todo o continente americano é alarmante, Guyana tem a altíssima cifra de 65 suicídios por 100.000 habitantes/ano, é o país líder mundial em suicídios.

América do Norte tem 14,1 suicídios por 100.000 habitantes/ano enquanto os países andinos têm a taxa mais baixa, 3,9 suicídios por 100.000 habitantes/ano.
A Organização Pan-americana da Saúde atribui esta disparidade às diferenças socioculturais entre as sociedades mas do que a fatores socioeconômicos.

Comparado ao ano 2021 houve um aumento de 11,8% no número de suicídios em 2022 no Brasil. Foram notificados 16.262 registros, uma média de 44 suicídios por dia. Proporcionalmente tivemos 8 suicídios por 100.000 habitantes por ano.

O Estado de Santa Catarina, embora esteja em segundo lugar no índice de desenvolvimento humano (IDH) entre todos os estados da União tem também a segunda maior taxa de suicídios que em 2016 era de 8,62 óbitos por 100.000 habitantes, superado apenas por Rio Grande do Sul.

Pesquisadores acreditam que o aumento de desemprego e a precarização das condições de trabalho determinados pela pandemia associados ao deterioro da saúde mental da população, decorrentes do isolamento social e do luto por perda de familiares e amigos ajudam a explicar este aumento.

Sabemos que o suicídio é geralmente o resultado de uma conjunção de fatores, quando se reúnem uma série de elementos a pessoa pode tomar a decisão de tirar a própria vida.
Para poder enfrentar como sociedade o suicídio devemos enfrentar o tabu de falar sobre o mesmo, de nada adianta esconder a poeira embaixo do tapete.

A OMS tem alertado a todos os países que são necessárias ações concretas para poder diminuir as taxas de suicídio, isso passa por aumentar a oferta pública de atendimento em saúde mental com a identificação precoce, avaliações periódicas, tratamento medicamentoso e psicológico e o seguimento de todas as pessoas afetadas por pensamentos e comportamento suicidas.

A educação através dos meios de comunicação informando de maneira responsável sobre o suicídio é mais uma ferramenta nessa luta.

Devemos lembrar que a maioria dos suicídios são precedidos de alguns sinais como falar que tem vontade de morrer, sentir-se culpado, sentir uma grande vergonha ou pensar que está sendo uma carga para seus familiares.

Muitas vezes o potencial suicida relata que sente um vazio, com uma tristeza profunda, não tem esperanças de melhorar, alguns sentem uma ansiedade insuportável.

Familiares e amigos devem ficar atentos também às mudanças súbitas de comportamento, tendências ao isolamento, despedir-se sem motivos, desprender-se de objetos importantes, providenciar de forma impulsiva um testamento, começar a consumir drogas ou bebidas alcoólicas com muita frequência, dormir demasiado ou muito pouco.

Sabemos que devem coincidir uma série de fatores para que um suicídio aconteça, é como se fosse a tormenta perfeita, por este motivo a primeira recomendação para as pessoas com ideações suicidas é que além de procurar ajuda, seja de profissionais da saúde, seja de familiares e amigos, devem resistir a esses pensamentos porque em questão de horas ou de um dia essa conjunção de fatores haverá desaparecido, o momento crítico passa e haverá formas de mitigar todas as outras circunstâncias que levaram a essa crise.

Pode parecer paradoxal mas podemos afirmar que não é verdade que um suicida tenha desprezo pela vida ou não goste de viver, na grande maioria de casos o problema é que eles tem a sensação de que não conseguem gerir sua vida e sendo assim a vida se torna um sofrimento.

Embora cada suicídio tenha suas particularidades, não podemos esquecer que uma grande maioria são precedidos de transtornos depressivos que devem ser tratados e no caso de depressões severas o acompanhamento deve ser meticuloso.

Outro tabu a ser desvendado é a ideia de que os suicidas são pessoas infelizes ou tristes quando na verdade muitos deles são pessoas com muita intensidade emocional que não conseguem viver uma vida digamos rotineira.

Estudos mostram por exemplo que os escritores têm um risco 50% maior do que a população geral de cometer suicídios, a lista de escritores que cometeram suicídios é longa, Virginia Wolf, Hemingway, Stefan Zweig, Jack London, Alfonsina Storni, Iessienin, Maiakovski, Sylvia Plath,Camilo Castelo Branco, Pedro Nava, etc.

Luis Ocaña não era escritor, é verdade, era um sujeito de temperamento explosivo, não suportou a falência da sua vinícola, as crises de seu casamento, a fraqueza provocada por uma hepatite crônica o esquecimento de suas conquistas esportivas e, como era teimoso, nunca procurou ajuda psiquiátrica.

Pessoas com pensamentos suicidas devem procurar urgentemente ajuda médica e/ou psicológica, podem também ligar para o número 188 do CVV (Centro de Valorização da Vida) e podem também ter atendimento online no web site: mapasaudemental.com.br
Já dizia Albert Camus: “Não há mais que um problema filosófico verdadeiramente sério: o suicídio”