Tarja preta é o nome popular para os medicamentos ansiolíticos e hipnóticos da categoria dos benzodiazepínicos (entre eles bromazepam, clonazepam, alprazolam e diazepam são nomes genéricos bem conhecidos pela população). Há outros medicamentos também tarja preta que estão fora do escopo deste artigo, como alguns analgésicos opioides, os estimulantes e os anorexígenos.

Nas últimas décadas o consumo de benzodiazepínicos (BDZ) tem aumentado no mundo e de forma mais preocupante ainda no Brasil, atualmente ocupam o terceiro lugar entre os medicamentos mais vendidos no país.

Antes da pandemia se vendiam mais de 60 milhões de caixas de BDZ ao ano. Não temos dados recentes, porém todo indica que seu uso deve ter aumentado significativamente, o isolamento social, o aumento do desemprego, as perdas familiares e a crise socioeconômica são fatores que aumentam os quadros ansiosos e depressivos e portanto aumentam também o uso de ansiolíticos, antidepressivos e outros psicotrópicos.

Nas últimas décadas o consumo de BDZ tem crescido progressivamente, devemos lembrar que o principal motivo pode ser atribuído à tendência de medicalização da sociedade, a medicalização do sofrimento. É comum que médicos recebam pacientes que estão utilizando doses altas de benzodiazepínicos, se automedicando e sem fazer acompanhamento médico; esses pacientes, além de não estar solucionando o problema original, sofrem as consequências do uso inapropriado desses medicamentos, como são a dependência química e os efeitos colaterais que prejudicam seu desempenho cognitivo.

É um problema sério de saúde pública. Vivemos num país onde grande parte da população tem dificuldades em fazer acompanhamento médico periódico e prolongado e, com certeza, esse é um dos motivos pelo qual o paciente de forma equivocada opta pela automedicação e o uso crônico de medicamentos tarja preta.

Os benzodiazepínicos têm sua utilidade no tratamento das crises ansiosas e de pânico, seu uso deve ser sempre temporário, o uso por vários meses leva a dependência e ao desenvolvimento de tolerância (necessidade de aumentar as dosagens com o passar do tempo).

Os BDZ atuam a nível do sistema gabaérgico, que é o sistema inibitório (tipo um freio) do sistema nervoso central, a preocupação com seu uso acontece porque dificilmente eles vão agir somente nas regiões cerebrais associadas com o controle das emoções e ansiedade, geralmente eles agem também em regiões que são necessárias para a atenção, memória, habilidades visuoespaciais, raciocínio, controle motor entre outras.

No geral eles também têm efeito como relaxantes musculares e diminuem a performance psicomotora, daí que uma das consequências mais sérias do seu uso crônico sejam as fraturas por quedas, principalmente em idosos usuários de benzodiazepínicos.

Por causa de seus efeitos colaterais o uso prolongado deve ser evitado ou, na pior das hipóteses, diminuído. O erro mais frequente que os pacientes cometem após iniciar um tratamento para um quadro depressivo-ansioso com um antidepressivo e um benzodiazepínico é o fato de que após algumas semanas ou meses, ao sentirem uma melhora nos seus sintomas, suspendem espontaneamente o uso do antidepressivo e optam por manter o uso do “tarja preta”. Assim de forma voluntária e talvez por desconhecimento dos riscos se transformam em dependentes de benzodiazepínicos.

Na prática, um dos melhores parâmetros de que um tratamento para o tratamento do transtorno depressivo-ansioso está dando certo é o fato de que a diminuição progressiva do BDZ não causa nenhuma piora dos sintomas.

Com muita frequência os pacientes usuários de BDZ perguntam se é verdade que seu uso crônico pode provocar Doença de Alzheimer. No momento não podemos afirmar que os benzodiazepínicos provoquem Doença de Alzheimer, embora alguns estudos encontraram maior incidência desta doença em idosos usuários de BDZ em relação a idosos não usuários.

Ao mesmo tempo devemos lembrar que sintomas como ansiedade, depressão e insônia, que frequentemente levam ao uso de BDZ, podem ser também sintomas iniciais de um quadro de demência, isto pode provocar um desvio ao analisar os resultados em termos de causa-efeito.

O que sim está comprovado é que usuários idosos de BDZ têm um risco maior de declínio cognitivo que seus pares não usuários ou que usam apenas esporadicamente este tipo de medicação. Há também evidências mostrando deterioro do desempenho cognitivo em pacientes com demência que começam a fazer uso de um benzodiazepínico.

Os benzodiazepínicos devem ser usados sempre por prescrição médica, de forma temporária ou episódica e na menor dose possível. Seu uso crônico tem mais desvantagens que vantagens.

Infelizmente vivemos num mundo cada vez mais competitivo, mais estressante, menos tolerante, onde as pessoas procuram soluções rápidas para seus males. Parece não haver mais tempo para o autoconhecimento, para reconhecer que não somos tão importantes como acreditamos e para aceitar que na maioria das ocasiões é melhor adotar uma rotina de vida menos estressante e mais saudável do que ter que iniciar o uso de drogas psicotrópicas.