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Escassez de pediatras é desafio para prefeituras da região de Brusque

Há poucos especialistas para o volume da demanda de atendimentos

Embora seja a segunda especialidade mais representativa do país, a pediatria precisa avançar na região de Brusque. Prefeituras relatam dificuldades em contratar profissionais, enquanto que na rede particular há demanda excessiva de pais em busca de atendimento para crianças e adolescentes.

De acordo com a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), há cerca de 285 mil pediatras no país atualmente. É a segunda maior especialidade, porém, a sua distribuição é bastante desigual, o que faz com que haja escassez em algumas regiões do Brasil.

Em Brusque e nos quatro municípios do entorno faltam pediatras. Sem conseguir ter esses especialistas, a população acaba atendida por clínicos gerais, que, quando necessário, encaminham o paciente para o hospital de referência.

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O secretário de Saúde de Brusque, Humberto Fornari, diz que a realidade da falta de pediatras na rede ainda não bateu à porta, mas tem um motivo: a Unidade de Pronto Atendimento (UPA) 24 Horas.

A ideia da Secretaria de Saúde é criar dentro da UPA o pronto atendimento em pediatria. Hoje, não existe este serviço na rede municipal.

Fornari diz que por enquanto não sentiu a falta de pediatras, mas também não procurou. Como médico e secretário, ele conhece o cenário nos municípios, que, em geral, sofrem para contar com essa especialidade.

Atualmente, as crianças são atendidas por clínicos nas Unidades Básicas de Saúde (UBS). Quando precisam de atendimento específico, são direcionadas ao Hospital Azambuja.

A prefeitura contratou algumas horas mensais de sobreaviso na especialidade dentro do convênio fechado com a instituição. No Azambuja, segundo o secretário, a dificuldade em contar com pediatras já é realidade.

“Vemos dentro do Hospital Azambuja, parceiro com sobreaviso em pediatria, que eles têm essa dificuldade em manter os plantões da especialidade”, comenta Fornari.

Segundo ele, enquanto a UPA não fica pronta, a prefeitura pretende, neste primeiro trimestre, passar a ter uma pediatra dentro da policlínica do município.

Modelo semelhante ao de Brusque foi adotado pela Prefeitura de São João Batista. O poder público municipal incluiu no contrato com o Instituto Vidas, que administra o Hospital Monsenhor José Locks, a pediatria.

A Secretaria de Saúde do município afirma que esta foi a melhor saída encontrada pela prefeitura. O convênio com o Instituto Vidas já é uma solução criativa buscada pelo poder público, na medida em que o hospital é custoso e exige atenção constante.

Em São João, as crianças e adolescentes são atendidos nos postos de saúde. Quando precisam, vão ao hospital, assim como ocorre em Brusque.

Nova Trento é outro município que sofre com a falta de pediatras. O secretário de Saúde do município, Maxiliano de Oliveira, diz que há apenas um profissional desta especialidade na rede.

O pediatra se reveza atendendo metade do tempo no ambulatório, metade em sobreavisos no Hospital Nossa Senhora da Imaculada Conceição. Segundo Oliveira, o ideal seria contar com mais um médico especialista, mas é difícil contratá-lo.

A secretária de Saúde de Guabiruba, Patrícia Heiderscheidt, afirma que o cenário é complicado. “Temos muita dificuldade na contratação. O último foi o Dr. Mateus, que trabalhou conosco em 2017, depois, não conseguimos mais contratar”.

Botuverá já desistiu de contratar pediatra e partiu para uma alternativa. A secretária Marcia Cansian explica que as crianças são atendidas nos postos de saúde por clínicos gerais.

“Eles são encaminhados apenas quando tem necessidade de intervenção hospitalar ou internação. A nossa referência é Azambuja ou o hospital infantil em Florianópolis”, diz Marcia.

Além disso, os profissionais do município usam as teleconsultorias, disponibilizadas pelo estado, com especialistas da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS).

Baixa remuneração torna especialidade menos atraente

Os secretários e especialistas apontam que o principal motivo para a redução no número de pediatras disponíveis é que a especialidade não é rentável como as outras.

Um pediatra não realiza procedimentos, por exemplo, como um gastroenterologista, que faz endoscopias. Sem isso, ele não tem rendimentos além do pagamento mensal.

Essa realidade é percebida pelos jovens na universidade, o que faz muitos desistirem da pediatria. De acordo com a SBP, cerca de 10% dos formandos optam por pediatria, taxa que não consegue repor nem suprir a demanda.

Após seis anos de Medicina, os médicos ainda precisam passar por até três anos de residência médica (tipo de especialização) para serem considerados pediatras.

Profissão exigente
Silvio David Monarim é pediatra desde 1984. Natural do Paraná, trabalha em Brusque desde novembro de 1990.

Silvio Monarim é pediatra em Brusque desde 1990 | Foto: Marcos Borges

Ele conta que quando fez Medicina a pediatria era uma das especialidades mais procuradas. “Ao longo dos anos passou a ter desinteresse porque a especialidade é eminentemente clínica. Então, do ponto de vista financeiro, ela deixa de ser interessante”, comenta.

Entretanto, o pediatra, que atende pela Unimed e faz plantões no Hospital Azambuja, diz que a realidade já está mudando. Os planos de saúde remuneram melhor as consultas da especialidade. É uma tentativa de atrair mais médicos.

Além disso, a especialidade é bastante complexa. “A grande dificuldade da pediatria é que, assim como toda a medicina, é complexa, porque lida não com um paciente, no mínimo dois ou três. Tem que ter todo um cuidado para explicar tudo. O paciente não fala. Então é mais complexa”, avalia o presidente da regional de Brusque do Sindicato dos Médicos do Estado de Santa Catarina (Simesc), Humberto Teruo Eto.

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Monarim, com a experiência de mais de três décadas, diz que os chamados de pais são comuns e aleatórios. “Os pais são muito exigentes. Para eles, a doença do filho é a coisa mais importante. Às vezes, fora de hora os pais ligam e exigem uma presença mais contínua do pediatra”.

A demanda por pediatras é grande fora da rede pública. Monarim diz que existe espaço para mais médicos porque há muita procura. Segundo a Unimed Brusque, há 11 pediatras cooperados.

Após quase 35 anos na profissão, Monarim afirma que a pediatria é gratificante e se sente realizado. “O lado financeiro tem que ser consequência, não objetivo. Se você trabalha bem, vai receber bem em qualquer especialidade e profissão”.