Família de Brusque acolhe por dez meses criança que estava na fila de adoção

Integrantes do projeto Família Acolhedora podem ficar com os pequenos por, no máximo, dois anos

Família de Brusque acolhe por dez meses criança que estava na fila de adoção

Integrantes do projeto Família Acolhedora podem ficar com os pequenos por, no máximo, dois anos

Os personagens desse enredo são fictícios, mas a história é real e chega a emocionar quem se envolveu diretamente com a pequena Júlia. Com pouco mais de dois anos, ela chegou mal cuidada, com olhar inquieto e muitas incertezas ao Serviço de Família Acolhedora, iniciativa da Assistência Social da Prefeitura de Brusque.

Sua história não revelada, e até então desconhecida, é apenas mais uma entre centenas de crianças que sofrem ao relento, muitas vezes silenciosas em meio a uma família sem condições de dar o que o ser humano mais precisa nessa fase da vida.

Júlia, que chegou ao serviço com quase 3 anos, talvez, tenha sido uma exceção. Foi uma das poucas que conseguiram conhecer de perto o significado da palavra amor. Hoje, já nem parece mais a mesma. Cuidada, espontânea, demonstra um sorriso do tamanho do mundo, mundo esse que agora passa, literalmente, a recebê-la com muito amor e carinho.

Atualmente, Júlia ganhou uma família, aliás, uma não, duas. Adotada recentemente, dia a dia recebe o carinho e amor que jamais imaginava um dia ganhar. Ao mesmo tempo, levará para sempre duas madrinhas que lhe mostraram, logo cedo, e mesmo sem ela entender muito, o significado da palavra amor.

Essas histórias começaram a se cruzar ainda em 2015, quando Maria, uma das madrinhas, viu uma reportagem em um jornal local e se sentiu atraída pela ideia de acolher uma criança de forma provisória. “Aquilo me chamou a atenção, pois eu pensei: – Ao invés de adotar, por que não acolher”, diz Maria.

O interesse inicial aos poucos foi ganhando corpo e ganhou o apoio de outra madrinha, Joana. “Ela me falou sobre e também fiquei empolgada. Foi aí que iniciamos todo o processo”, explica. Processo esse que durou quase um ano. Foram dias e dias de curso, capacitação e entrevistas até que Júlia, definitivamente, ganhasse um lar. “Quando ela chegou, chegou toda fechada, amedrontada e com olhar desconfiado. Aos poucos ela foi se soltando, mas não abraçava, beijava. Com o tempo, sem forçar, isso foi acontecendo ao natural”, conta Maria.

O primeiro abraço veio apenas depois de três meses. O amor entre madrinhas e acolhida foi inevitável. “Foi uma transformação muito grande. A Júlia chegou até nós numa situação de vulnerabilidade, era uma criança de rua, uma criança que com quase três anos era cheia de olheiras, mãos machucadas. E ver toda essa mudança e a felicidade dela é algo que nos emociona muito”.

Diferente da adoção, o Serviço de Família Acolhedora é temporário, ou seja, uma família só pode acolher uma criança por, no máximo, dois anos, de acordo com o Estatuo da Criança e Adolescente (ECA). Depois de dez meses, Júlia se despediu das madrinhas. Hoje, ela foi adotada e ganhou uma nova família. A relação com as madrinhas, no entanto, seguirá eternizada, conforme comenta Joana. “Nos primeiros dias ficamos em clima de luto, como se ela tivesse morrido. Mas depois nos demos conta que ela estava bem, viva e feliz, que fizemos a nossa parte. Isso é o mais importante”.

Citando o britânico Mick Pease, uma das referências mundiais no assunto, Maria e Joana dizem que “amar é aprender a dizer adeus”. Atualmente, elas ainda acompanham os passos de Júlia no novo lar. O objetivo, agora, é fazer a diferença na vida de outra criança. “O lado positivo da família acolhedora é de que, ao invés de oferecer a sementinha do amor para uma pessoa, podemos oferecer para várias”, diz Joana, já na expectativa dos próximos acolhimentos.

Sobre o serviço
O Serviço de Família Acolhedora existe desde 2012, mas a primeira família cadastrada só ocorreu em 2014, com outra em 2015 e mais uma em 2016. Todo o processo é acompanhado de perto pela equipe técnica da Assistência Social composta pela psicóloga Ionara Marques de Oliveira Ceron Riciatti e pela assistente social Cristiane dos Santos.

São elas as responsáveis por todo o processo para identificar que uma família tem condições de acolher uma criança. Posteriormente, acompanhar como está sendo a relação entre acolhido e a nova família e também auxiliar no processo de desligamento da criança. “A ideia é personalizar o acolhimento. Observar a evolução que essa criança teve desde que chegou até o momento da despedida que deve ser feita da forma menos traumática possível”, explica Cristiane. “É importante ressaltar que paralelo a isso trabalhamos para que a criança possa voltar ao seu lar de origem. No caso da Júlia não foi possível, pois não encontramos sua família”, observa Ionara.

As crianças que ficam disponíveis para o serviço geralmente estão no abrigo institucional. Atualmente existem três nesta situação. A secretaria de Assistência Social de Brusque, Mariana Martins da Silva, comenta que uma das grandes dificuldades do serviço de Família Acolhedora é encontrar perfis aptos para receber essa criança. “É feita uma triagem para ver se a família que tem interesse em acolher realmente se enquadra no perfil para ficar com aquela criança”, explica.

Ela afirma que a ideia é de que apenas uma criança possa ser acolhida por família. “Assim, estaremos oportunizando para essa criança uma atenção individualizada, com exceções quando se tratam de irmãos, que o ECA observa sobre os problemas de uma separação”, destaca.

Mais informações sobre o Serviço de Família Acolhedora podem ser obtidos pelo e-mail familia.acolhedora@brusque.sc.gov.br ou no telefone: 3251-1833 – (ramal 1871) pasta da Assistência Social.

Como funciona?
Para receber uma criança ou adolescente em acolhimento provisório não significa integrá-los como filho na família. O acolhimento em Família Acolhedora é feito por meio de um termo de guarda provisória, emitido pela autoridade judiciária. Já a adoção segue trâmites legais próprios e não privilegia a Família Acolhedora para um processo de adoção.

Quais são os requisitos?
Para se tornar uma família acolhedora são necessários alguns requisitos. Ter mais de 21 anos, residir em Brusque, não apresentar problemas psiquiátricos, dependência química e não estar respondendo a processo judicial. É necessário ainda ter aceitação de todo o grupo familiar com a proposta do acolhimento. Quem tem interesse em acolher pode procurar a Prefeitura de Brusque para se cadastrar. Todos passam por entrevistas, capacitações e conhecem outras famílias acolhedoras.

Quem são as Famílias Acolhedoras?
São famílias ou pessoas da comunidade de Brusque, habilitadas e acompanhadas pela equipe técnica do Serviço, que acolhem voluntariamente em suas casas crianças ou adolescentes, oferecendo-lhes cuidado, proteção integral e convivência familiar e comunitária. A família acolhedora assume papel de parceira no atendimento à criança ou adolescente e na preparação para seu retorno à família de origem ou encaminhamento à adoção.

Quem são as crianças ou adolescentes acolhidos?
São acolhidas crianças e adolescentes de 0 a 18 anos afastados do convívio familiar, por medida de proteção, pelo fato de a família estar temporariamente impossibilitada de cumprir suas funções de cuidado e proteção.

Quais as atribuições da Família Acolhedora?
A Família Acolhedora deve assumir os cuidados rotineiros com o acolhido (educação, saúde, lazer, entre outros) e contará com o apoio da equipe técnica do Serviço. Deve ainda contribuir na preservação do vínculo e a convivência entre irmãos e parentes.

Quanto tempo dura o acolhimento?
A duração do acolhimento varia de acordo com a situação apresentada, podendo durar de dias a meses. A duração de referência é de seis meses, podendo haver acolhimento mais prolongado, se criteriosamente avaliada a necessidade e determinado pelo Juizado da Infância e Juventude com a avaliação da Equipe Técnica.

Colabore com o município
Envie sua sugestão de pauta, informação ou denúncia para Redação colabore-municipio