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Como barragem de Botuverá vai atrasar chegada da água do rio em Itajaí e reduzir impacto das enchentes

Brusque conta com barragem e Itajaí avança em outros projetos enquanto aguarda pela construção da estrutura

O jornal O Município apresenta a série especial “Barragem de Botuverá: o Dossiê”. Reportagens exclusivas são publicadas em omunicipio.com.br e na edição impressa, cada uma dedicada a explorar, em profundidade, um aspecto específico da obra e seus impactos na sociedade. O objetivo é oferecer ao leitor uma visão ampla e detalhada de uma das construções mais aguardadas da região.

A barragem de Botuverá, após construída e em operação, vai resultar em impactos visíveis no rio Itajaí-Mirim, principalmente em Brusque e Itajaí. As cidades sofrem com cheias frequentemente, e a estrutura promete frear o avanço da água sobre as ruas e residências.

Brusque conta com aproximadamente 150 mil habitantes, e Itajaí, com quase 300 mil. Desta forma, cerca de 450 mil moradores serão beneficiados pela barragem. Em breve, quem antes via a enchente bater à porta poderá suspirar aliviado, de acordo com as projeções oficiais.

A estrutura que será erguida no bairro Barra da Areia, em Botuverá, poderá segurar o nível da água em até 1,4 metro. A estimativa é da Secretaria de Proteção e Defesa Civil de Santa Catarina, que será responsável pela operação da barragem.

Ponto de construção da barragem de Botuverá, no bairro Barra da Areia | Foto: Vitor Souza/Arquivo O Município

Na prática, em períodos chuvosos com risco de o rio transbordar, as comportas da barragem serão fechadas. Com o trajeto bloqueado, a água do rio chegará “atrasada” em Brusque e Itajaí, evitando um impacto único de uma grande quantidade de água no leito do rio sobre as cidades.

De acordo com Edevilson Cugiki, chefe de operações e assistência da Defesa Civil de Brusque, a barragem vai conter o nível do rio com o fechamento das duas comportas da estrutura. Cugiki compara a enchente com uma onda.

“A enchente é como se fosse uma onda do mar. São bem semelhantes. Trata-se de uma curva [de água] acentuada, que atinge um pico e depois começa a baixar. O objetivo da operação da barragem é que este pico não seja tão alto”, analisa.

Brusque sempre conviveu com enchentes; registro de 1954, com estádio Augusto Bauer ao fundo | Foto: Acervo família de Jota Duarte

Quando o nível do rio começar a subir, uma comporta da barragem será fechada para impedir que a água continue avançando significativamente. Se necessário, será fechada a segunda comporta, para impedir ainda mais o aumento do nível do Itajaí-Mirim.

Há chance de a barragem verter, quando a água passa por cima do topo da estrutura e “vaza” pelo rio Itajaí-Mirim sentido Brusque. Mesmo com a barragem operando com o máximo de sua capacidade, a estrutura manterá o efeito que atenua o pico da onda de cheia.

Em 17 de novembro de 2023, Brusque foi impactada pela maior enchente da década e a terceira maior registrada na história da cidade. O nível do rio chegou a 8,96 metros, superando a marca da tragédia de 2008.

Pico do rio Itajaí-Mirim em Brusque na enchente de 2023 | Foto: Wendel Rudolfo/Arquivo O Município

A projeção de impedir o aumento do rio em até 1,4 metro pode não parecer o bastante para uma enchente de quase 9 metros. A impressão é que, na prática, a eficiência da barragem de Botuverá será mínima.

Entretanto, caso a enchente de 2023 acontecesse com a barragem em operação, o nível do rio poderia ter sido de aproximadamente 7,5 metros. O transtorno seria menor e menos residências seriam afetadas, poupando danos materiais. “Cada centímetro conta”, garante Cugiki.

Trecho do rio Itajaí-Mirim perto de sair da calha, em outubro de 2023 | Foto: Marcelo Reis/Arquivo O Município

Itajaí e seus rios


O coronel Onir Mocellin relembra que, em 2022, quando era deputado estadual, participou de uma audiência pública sobre a construção da barragem, realizada na Câmara de Itajaí. Ele conta que a estrutura sempre foi vista como uma obra necessária para a região.

Hoje em dia, Mocellin sabe disso ainda mais, já que exerce o cargo de coordenador da Defesa Civil de Itajaí. O município berço da foz do rio Itajaí-Mirim enfrenta diversos desafios quando o assunto é enchente.

Itajaí sofre constantemente com o avanço da água sobre a cidade, em razão de abrigar vários rios e ribeirões. Os principais são o rio Itajaí-Açu, o rio Itajaí-Mirim canal retificado e o rio Itajaí-Mirim canal antigo. O ribeirão do bairro Murta também causa impactos na região e no bairro Cordeiros em períodos de cheia.

Rio Itajaí-Açu, canal retificado do rio Itajaí-Mirim e canal antigo do rio Itajaí-Mirim | Foto: Google Maps/Reprodução

Após o ponto em que será construída a barragem, o rio Itajaí-Mirim avança por 70 quilômetros de forma quase paralela às rodovias Pedro Merizio e Antônio Heil. Próximo ao mar, desemboca no rio Itajaí-Açu, um dos principais de Santa Catarina. Logo em seguida, o Açu desemboca no mar entre Navegantes e a praia do Atalaia, em Itajaí.

O São Vicente é um dos bairros mais afetados de Itajaí quando os rios saem da calha. No mapa da cidade, é possível perceber que o bairro é como se fosse uma ilha, pois fica entre o canal retificado e o canal antigo do rio Itajaí-Mirim.

Enchente em Itajaí em 2008 | Foto: Prefeitura de Itajaí/Divulgação

Coronel Mocellin celebra que o edital de licitação para construção da barragem de Botuverá tenha sido publicado. O modelo do edital é uma novidade, pois prevê a atualização dos projetos da obra e a execução da estrutura em um único certame.

“A barragem pode reduzir em mais de 1 metro o nível da água em Itajaí. Nós estamos na foz do rio, então sofremos toda a consequência das chuvas no alto do Itajaí-Mirim e do Itajaí-Açu. A barragem dará um benefício muito grande para não trazer todo o volume de água em um único impacto”, avalia o coronel.

Itajaí espera pela barragem de Botuverá. Porém, a cidade tem outros desafios para conter de forma prática o avanço dos rios. Segundo Mocellin, há projetos para desassoreamento do Itajaí-Mirim, com possível aporte financeiro do Banco Mundial.

Água atinge ruas de Itajaí na região da igreja matriz, em 2008 | Foto: Prefeitura de Itajaí/Divulgação

A construção de comportas, para controlar a vazão da água, e de diques também está no planejamento. Além disso, a prefeitura considera construir um molhe na foz do rio Itajaí-Mirim, para evitar que o rio Itajaí-Açu e o efeito da maré represem a água no momento em que o Mirim desemboca no Açu.

“Aproximadamente 80% de Itajaí está a um metro do nível do mar. Como não há como tirar a cidade daqui, precisamos de obras que minimizem os efeitos das cheias”.

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