João José Leal

Promotor de Justiça, professor aposentado e membro da Academia Catarinense de Letras - joaojoseleal@omunicipio.com.br

Amazônia das queimadas, fumaça e calor

João José Leal

Promotor de Justiça, professor aposentado e membro da Academia Catarinense de Letras - joaojoseleal@omunicipio.com.br

Amazônia das queimadas, fumaça e calor

João José Leal

Enquanto aqui no Sul o El Niño nos castigava com fortes ventos, ciclones, chuvas torrenciais e inundações de arrastar e destruir casas, esse mesmo terrível moleque das calamidades climáticas continua maltratando a gente do Norte do país com uma estiagem prolongada. As águas dos rios da Amazônia já baixaram mais de 14 metros e recuaram enormes distâncias das suas margens, numa seca nunca vista.

Na segunda semana deste mês, fiz uma viagem de barco pelo Rio Negro. Não vi somente as águas do Rio Negro muito abaixo do nível médio histórico. Como já escrevi, é uma curiosa seca, pois os rios Negro e Solimões continuam com muita água correndo nos seus leitos, tanta que a navegação de grandes embarcações ainda continua. Em terra firme, nenhum sinal de seca porque a paisagem continua verdejante. O que vi, portanto, foi uma seca diferente.

Enfrentei também um calor intenso, uma temperatura tórrida com os termômetros batendo nos 40 graus. A sensação era de uma fornalha a céu aberto. Poucas vezes na vida senti tanto calor.

Labaredas do fogo a queimar a mata distante, não vi. Mas, vi o efeito no ar poluído pela fumaça que viaja quilômetros de distâncias amazônicas para deixar a paisagem atmosférica esmaecida por uma névoa que leva os olhos às lágrimas. Explicaram-me que, de maio ao final de outubro, a estiagem se repete a cada ano na Amazônia. Agricultores e pecuaristas aproveitam o período de seca para queimar a vegetação, no preparo da terra para a semeadura e as pastagens. Muitos aproveitam para queimar a mata e se apossar da terra devastada.

Apesar da seca, do calor e do ar esfumaçado, valeu a pena navegar dia e noite, por quatro dias, na vastidão daquelas águas que parecem desconhecer a palavra seca. Naquela vasta região, a seca não passa de um período anual de estiagem mais ou menos prolongado que se revela no alargamento das praias, nos bancos de areia que se levantam acima das águas do grande rio e nas ilhas livres dos igapós que, com as suas águas, cobrem as árvores até a cintura.

Vi também um povo cheio de esperança, que confia na natureza muitas vezes maltratada por homens sem consciência ecológica, que queimam a floresta, poluem as águas e a atmosfera. Todos com os quais conversei mostraram-se certos de que virá o mês de novembro, o tempo das chuvas e das temperaturas menos escaldantes.

Então o calor intenso dará uma trégua, as queimadas se apagarão, as águas voltarão a bater na marca da média histórica e alagar os terrenos das palafitas. Os bancos de areia serão engolidos, as praias encolherão, os igarapés continuarão a serpentear em direção aos grandes rios e os igapós voltarão a inundar as ilhas com suas águas afogando até a copa os troncos das árvores.

E a Amazônia continuará sendo o imenso e quase infinito reino das águas, dos grandes peixes e das lendas que povoam a vastidão das florestas.

 

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