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Coronavírus, tempo de recordar

Recordar é viver, diz a velha marchinha carnavalesca. Parece que o compositor-filósofo da festa de momo está certo. Neste tempo de coronavirus, tem sido frequente voltar o nosso pensamento ao passado. E a gripe espanhola, que há 100 anos castigou a humanidade, tem sido lembrada com frequência. Maior epidemia que a humanidade enfrentou, causou um […]

Recordar é viver, diz a velha marchinha carnavalesca. Parece que o compositor-filósofo da festa de momo está certo. Neste tempo de coronavirus, tem sido frequente voltar o nosso pensamento ao passado. E a gripe espanhola, que há 100 anos castigou a humanidade, tem sido lembrada com frequência. Maior epidemia que a humanidade enfrentou, causou um número de vítimas fatais tão gigantesco quanto desencontrado, com estimativas que se situam em torno de 50 milhões de mortos. Número certo, jamais saberemos.

Para chegar ao Brasil, a gripe espanhola cruzou o Atlântico, viajando nos pulmões infeccionados dos passageiros e tripulantes de um navio inglês, a terminou a viagem a fatídica no Rio de Janeiro. Pouco mais de uma semana e a grande epidemia começou a mostrar as suas tenebrosas garras de febre asfixiante e morte. Em Florianópolis, não foi diferente. A gripe chegou até com data marcada, 6 de outubro de 1918. Veio a bordo do navio Itajubá, com 38 doentes contaminados pelo terrível vírus. No mesmo Itajubá ou em outros navios, a gripe desembarcou também em São Francisco, Itajaí e Laguna.

Depois, a peste viajou em carroças ou montada a cavalo para cidades próximas do litoral. Não se sabe quantos morreram em Santa Catarina ou na nossa região, muito menos em Brusque, naquele fatídico ano de 1918. Em Florianópolis, mais de 10 mil pessoas teriam sido infectadas pela gripe e mais de 130 seriam as mortes. Como hoje, o vírus gripal faz ferver de febre. Porém, leva muito mais gente para a cama do que para o cemitério. Mas, como queremos vida e saúde, o espectro da peste rondando sobre nossas cabeças é o suficiente para nos deixar aterrorizados.

Neste tempo de quarentena, isolados em nossas casas, o que pode nos ajudar é que, agora, temos tempo para lembrar que a humanidade já sobreviveu a epidemias muito mais violentas e mortais. Foi o caso da espanhola, também chamada de peste da guerra. Veio para cumprir a sua apocalíptica missão de disseminar o sofrimento, a doença e a morte. Depois, silenciosamente, retornou ao mundo das trevas porque o eros, que aleita o impulso para a vida, é mais forte.

Então, dos escombros deixados pela primeira guerra mundial e do sofrimento causado pelos milhões de mortos devorados pela grande epidemia, a humanidade surgiu mais forte para continuar a sua interminável caminhada cósmica sobre esta terra que um dia, dizem, nos foi prometida para ser um vale de alegrias e prazeres, mas também de dor sofrimento e morte.

Afinal, a humanidade não vai ser derrotada por um minúsculo vírus, uma nisca insignificante do RNA, que precisa de uma célula alheia para se reproduzir, conforme me explicou uma amiga professora de Biologia. É verdade que esse parasita virulento tem a capacidade de matar o seu hospedeiro, que pode ser qualquer um de nós, os mais velhos em primeiro lugar, prioridade que até esse sinistro e microscópico serial killer parece respeitar.

De qualquer forma, sinto que recordar é viver, sim. Viver para enfrentar e vencer a ameaça da atual epidemia gripal. Com certeza, venceremos mais este tempo de provação vindo dos desígnios da natureza e dos mistérios que se escondem num campo ainda impetrável da biologia humana. Então, passado esse tempo de medo e confinamento, a humanidade retomará a sua caminhada cósmica.