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Finados, açorianos e garapuvus em flor

Seguindo a tradição, no último sábado, fui aos cemitérios de Tijucas e de São Miguel, em Biguaçu, onde estão sepultados os meus pais e avós. De acordo com o milenar costume, que manda reverenciar os mortos com flores, levei crisântemos para colocar nos túmulos dos meus antepassados. Falando de flores, a viagem me permitiu contemplar […]

Seguindo a tradição, no último sábado, fui aos cemitérios de Tijucas e de São Miguel, em Biguaçu, onde estão sepultados os meus pais e avós. De acordo com o milenar costume, que manda reverenciar os mortos com flores, levei crisântemos para colocar nos túmulos dos meus antepassados. Falando de flores, a viagem me permitiu contemplar os garapuvus floridos.

A floração está no começo, mas as copas douradas já se destacam para formar um belo espetáculo floral, ao longo da nossa rodovia Antônio Heil e da BR-101. Por uns poucos dias, os viajantes dessas duas estradas poderão admirar essa beleza floral, que se renova a cada ano.

Vale a pena contemplar suas flores amarelas, magníficos telhados dourados, despontando do verde da Mata Atlântica para engalanar as encostas da Serra do Mar.

Em São Miguel, com sua igreja mais que bicentenária, lembrei do povo açoriano, que fundou essa antiga vila, em 1750. Meus antepassados vieram desse arquipélago, com suas ilhas perdidas na imensidão do Atlântico.

Nenhum cronista narrou a cena histórica da chegada dos primeiros açorianos, homens, mulheres e crianças, que desembarcaram na antiga Desterro, então, ilha de quase de ninguém, o governo português ainda na luta para povoar e consolidar o seu domínio sobre as terras situadas ao sul da imensa colônia-Brasil.

Só se sabe que eram mais de quatro centenas, 461 pessoas, afirmam os historiadores, daquela gente vinda do arquipélago português, em busca de terra para plantar, de mar para pescar e liberdade para viver. Sabe-se, também, que o dia do desembarque, depois da angustiante quarentena, foi o longínquo 22 de fevereiro de 1748.

Porém, não é preciso narrativa de cronista para imaginar o drama desses migrantes embarcados numa nau do sofrimento, numa viagem 12 dias de martírio, todos confinados num porão de incertezas, de medo, de fome e sede, de vida para os fortes e de morte para uma dúzia de desafortunados que a doença escolheu para jazerem eternamente nas águas do Atlântico, sem que jamais pudessem ver a sonhada terra brasileira da esperança.

Muitos desses açorianos pioneiros trouxeram da sua ilha natal a vocação para o mar. Aqui, foram pescadores das baías e enseadas do nosso litoral, de São Francisco a Laguna. Então, encontraram na frondosa árvore do garapuvu a madeira leve, impermeável, fácil de ser falquejada a enxó, ideal para a feitura da canoa de um pau só.

Durante mais de dois séculos, o garapuvu forneceu a matéria prima para a rústica embarcação da pescaria e, com certeza, a subsistência dessa gente de cor moura, que povoou o litoral catarinense.

Algumas dessas canoas ainda singram as águas das baías e enseadas do nosso mar. Felizmente, o garapuvu já não é mais cortado para virar canoa de um pau só. Agora, preservação florestal em primeiro lugar, os garapuvus crescem rápidos e livres na Mata Atlântica. E, cada ano, cobrem-se com um manto dourado para nos brindar com um espetáculo floral de extraordinária beleza.