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Concentração e dispersão

Em física, podemos diferenciar duas forças produzidas por um movimento circular. Quando o movimento “puxa” o corpo para o centro, dizemos que a força está concentrando, é força centrípeta. Mas em vários movimentos circulares a energia é desviada para fora do centro. Nesse caso, a força resultante é chamada de centrífuga, ou seja, está fugindo […]

Em física, podemos diferenciar duas forças produzidas por um movimento circular. Quando o movimento “puxa” o corpo para o centro, dizemos que a força está concentrando, é força centrípeta. Mas em vários movimentos circulares a energia é desviada para fora do centro. Nesse caso, a força resultante é chamada de centrífuga, ou seja, está fugindo do centro. Mas por que você se interessaria por isso, se não vai prestar vestibular ou fazer a prova do Enem?

Podemos aplicar às varias instâncias da nossa vida esse jogo de forças, que concentra e desconcentra. Todos temos um centro, de onde emana e para onde deve verter nossa energia, nossa disposição, nossas capacidades. Na literatura, na filosofia e na teologia, costumamos chamar esse centro de “coração”.

Se pensássemos apenas fisiologicamente, talvez o centro devesse ser simbolizado pelo cérebro. Mas não somos apenas seres viventes e pensantes. O “coração” é um símbolo mais adequado, pois nele podemos “concentrar” nossa inteligência, nossos talentos, emoções, anseios e expectativas, inclusive no que se refere àquilo que vai além da nossa existência biopsíquica e nos coloca no nível espiritual.

Um ser humano perfeito é quem tem todas essas instâncias de seu ser integradas e em harmonia, todas voltadas para o mesmo centro. Ou seja, precisamos ter o coração no devido lugar. Caso contrário, não adianta ser um gênio intelectual, exibir uma estética corporal invejável, ser um prodígio de habilidades físicas ou um técnico extremamente competente em alguma área.

Há muitas pessoas que se dão bem em uma ou duas das instâncias da vida, mas não conseguem alcançar as outras e colocá-las no mesmo centro de comando. No movimento circular da existência, há muita força centrífuga tirando nossa concentração, tirando o foco dos nossos objetivos, sabotando nossos esforços.

A educação de um ser humano deve ter em vista a necessidade de gerar hábitos que o conectem ao centro. O que vemos predominar, no entanto, são hábitos cada vez mais centrífugos. É cada vez mais difícil que a pessoa esteja realmente centrada no que está fazendo.

Quando está em aula, a cabeça e o coração estão no trabalho ou no lazer. Quando trabalha, pensa no conteúdo da aula que não conseguiu entender porque estava pensando no trabalho ou respondendo a alguma mensagem aleatória e dispersiva em alguma rede social.

Quando está longe dos amigos, pensa em estar com eles. Quando está com eles, dispersa-se em múltiplos outros contatos através do celular. Nas festas, a música alta e o álcool impedem o convívio entre as pessoas, que estão fisicamente reunidas mas espiritualmente dispersas.

Nossa cultura virou uma imensa máquina de dispersão, o que tem afetado a qualidade de tudo o que fazemos. Daí a imensa dificuldade de encontrar profissionais de alta qualificação e serviços primorosos. Essa capacidade se dispersou nas baladas, nos botecos e nas inúmeras outras forças centrífugas que afetaram o vivente durante sua formação.

O nível intelectual tem caído a padrões grotescos e os relacionamentos estão cada vez mais superficiais e vazios. Precisamos nos dar conta desse desastre civilizatório e procurar movimentos centrípetos que possam reconstruir nosso coração centrifugado e disperso.