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75 anos da morte do Cônsul Carlos Renaux: conheça a trajetória de um dos moradores mais ilustres de Brusque

Morte do criador da primeira indústria têxtil parou Brusque em 28 de janeiro de 1945

No dia 28 de janeiro de 1945, há exatos 75 anos, Brusque perdia cônsul Carlos Renaux. Ele faleceu em sua casa, a Villa Goucky, aos 82 anos, em decorrência de acidose colapso cardíaca, deixando toda a cidade em luto.

Em documento cedido pelo trineto do cônsul, Vitor Renaux Hering, ao Centro Universitário de Brusque (Unifebe), consta que antes de morrer, o cônsul pediu para ser colocado em sua poltrona e, então, bastante sereno, disse em alemão: ‘Meine stunde ist gekomen’, que significa: “Minha hora chegou”.

Sua morte foi comunicada por uma irmã da Divina Providência às 10h30 daquele domingo,  28 de janeiro.

A morte da pessoa mais ilustre de Brusque gerou uma grande comoção. O historiador Paulo Vendelino Kons, organizador de homenagem ao cônsul nesta terça-feira, conta que o prefeito da época, Rodolfo Gerlach, decretou luto oficial e feriado municipal por ocasião da data.

O criador da primeira fábrica de Brusque foi sepultado no cemitério luterano, ao lado da primeira esposa, Selma Wagner Renaux. O corpo do cônsul foi transportado da Vila Goucky, na avenida Primeiro de Maio, até o cemitério luterano pela caleça de Rodolfo Pruner, na tarde de segunda-feira, 29 de janeiro. Mais de 10 mil pessoas participaram do velório e sepultamento, inclusive as mais importantes autoridades estaduais na época: o interventor federal Nereu Ramos e o arcebispo metropolitano Dom Joaquim Domingues de Oliveira, acompanhado do clero católico.

O pastor Lindolfo Weingaertner, na época com 21 anos, foi trazido de Ibirama pela família Renaux para realizar o sepultamento do patriarca, pois naquela ocasião, não havia nenhum pastor luterano em Brusque que pudesse presidir a cerimônia.

Cortejo fúnebre do Cônsul Carlos Renaux reuniu milhares de pessoas em Brusque | Foto: Brusque Memória/Arquivo Família Renaux


“Eles tinham que ter um pastor brasileiro capaz de falar o vernáculo. Então, altas horas da noite (de domingo), vieram me procurar em Ibirama, uma das comunidades de lá. Disseram: “Olha, pastor Lindolfo… nós viemos sequestrá-lo. O senhor tem que nos acompanhar, não há outro jeito. Precisa fazer o sepultamento do Cônsul Carlos Renaux, amanhã”, lembrou o pastor (falecido em 2018) em entrevista à historiadora Maria Luiza Renaux, bisneta do cônsul (falecida em 2017).

“Quando a caleça de Rodolfo Pruner passava em frente à Igreja Matriz São Luís Gonzaga, os sinos do templo católico soaram, emocionando a multidão. Era tão grande o número de pessoas que vieram dar seu último adeus ao Cônsul Renaux, que quando a caleça chegou à Igreja Luterana, a multidão se estendia até a ponte Coronel Vidal Ramos Júnior (atual ponte estaiada)”, destaca Kons.

O legado do Cônsul

Passados 75 anos de seu falecimento, a figura do Cônsul Carlos Renaux ainda é muito presente em Brusque.

“Ainda hoje o Cônsul Renaux é admirado pela sua preocupação social, marcada pelas vultuosas doações para obras hospitalares, religiosas, desportivas, educacionais e culturais”, afirma o historiador Paulo Kons.

Cartão postal de agradecimento a Carlos Renaux, ressaltando a importância e grandeza da Maternidade que levava o seu nome | Foto: Brusque Memória/Sociedade Amigos de Brusque


Destacam-se a construção do Hospital Arquidiocesano Cônsul Carlos Renaux (ex-Santa Casa de Misericórdia), Maternidade Cônsul Carlos Renaux, Santuário de Azambuja e a reforma da Igreja Luterana no Centro.

Denomina o Clube Atlético Carlos Renaux (ex-Sport Club Brusquense), a avenida central de Brusque e o Estádio Cônsul Carlos Renaux, do Clube Esportivo Paysandu. Além de dezenas de outras organizações, uma das principais instituições de ensino de Brusque, também lhe presta homenagem: o Colégio Cônsul Carlos Renaux.

De Loerrach a Brusque

Carl Christian nasceu na cidade de Loerrach, no Grão Ducado de Baden, sul da atual Alemanha, em 11 de março de 1862. De uma família de classe média, ele tinha escolaridade equivalente ao atual ensino médio e treinamento como aprendiz no Banco Hipotecário de Loerrach. Emigrou para o Brasil em 1882.

De acordo com o historiador Paulo Kons, Carlos Renaux chegou com carta de recomendação a importantes firmas do Rio de Janeiro, mas não conseguiu uma colocação adequada ao chegar ao Brasil. Por isso, seguiu para Santa Catarina a bordo do “Rio Appa”. Ele desembarcou em Blumenau, onde conseguiu emprego de caixeiro no negócio de Theodor Lueders, em Salto Weissbach.

Em seguida deslocou-se para Gaspar, onde Luiz Altenburg, seu novo empregador e um dos principais comerciantes de Blumenau, tinha uma filial. Em Gaspar, casou em 1884 com Selma Wagner, filha do pioneiro Pedro Wagner, que participou da fundação da primeira colônia alemã de Santa Catarina e do primeiro assentamento ocorrido em Gaspar, em 1835.

Prefeito de Brusque e Constituinte

Após o casamento, Renaux percebeu possibilidades de desenvolvimento no recém-criado município de São Luiz Gonzaga (Brusque), onde assumiu o cargo de gerente da filial de Asseburg & Willerding, atuante no comércio de exportação de produtos coloniais, em Itajaí. Um ano depois, adquiriu a filial que estava gerenciando. 

Interventor federal Nereu Ramos cumprimentando Carlos Renaux em sua visita a Brusque, em 19 de agosto de 1939

Em 1890, nomeado pelo governo estadual, presidiu o Conselho Municipal. Foi escolhido para o cargo de Superintendente (prefeito) em várias gestões. Renaux era republicano e a derrubada do Regime Monárquico, em 15 de novembro de 1889, constituiu-se em fator determinante para a sua entrada bem-sucedida na política.

“A proclamação da República deixou algumas figuras importantes da política em situação difícil, abrindo espaço para novas lideranças, habilitadas pela naturalização concedida pela novel Constituição brasileira. Partidário de Lauro Müller e Felipe Schmidt, Carlos Renaux foi eleito para compor a Assembleia Constituinte de Santa Catarina, em 1891”, lembra Paulo Kons.

Fábrica Renaux

Kons explica que Renaux se associou ao agricultor e comerciante Augusto Klappoth e a Paul Hoepcke, também comerciante, com atuação em Nossa Senhora do Desterro (atual Florianópolis), para fundar a Fábrica de Tecidos Carlos Renaux, em 11 de março de 1892, data em que completou 30 anos.

O slogan do primeiro Centenário de Brusque, de autoria do padre e cientista Raulino Reitz, “Brusque, Berço da Fiação Catarinense”, foi inspirado no fato de a Fábrica Renaux, no ano de 1900, ser a primeira indústria a instalar uma fiação em Santa Catarina.

Kons também lembra que a chegada de tecelões provenientes da região têxtil de Lodz, na Polônia, foi decisiva para a implantação do ramo têxtil em Brusque, pois eles detinham o conhecimento do ofício de transformar fios de algodão em tecido.

“A fábrica cresceu rapidamente e se tornou uma das mais importantes do estado. Em Brusque, era um orgulho para qualquer família ter alguém trabalhando na fábrica Renaux”, destaca Kons.

Ao transferir-se para a Europa em 1919, um ano antes, em 1918, Carlos Renaux transformou sua firma em sociedade anônima, cujo diretor presidente passou a ser seu filho mais velho Otto Reginaldo Renaux.

Durante décadas, a Fábrica Renaux foi considerada uma potência têxtil. Em 2013, após um período de muitas dificuldades, foi decretada sua falência. E em 2017, os bens foram adquiridos pela Havan.

 A família Renaux

Carlos Renaux casou três vezes: com Selma Wagner; Hanna Maria von Schoenenbeck e Maria Luiza Auguste Linaerts (Goucky). Com Selma Wagner teve os filhos Wilhelm Max, Sophia Renaux Bauer, Maria Bueckmann, Otto Reginaldo, Oscar, Carlos Júlio, Paulo Guilherme, Luís, Carlos Júnior, Guilherme e Selma Gommersbach.

Vivem os netos Ruth Ivonne Renaux Deeke, filha de Guilherme Renaux (Willy) e Alma Melcop Renaux, e Gerd Albert Walter Gommersbach, filho de Albert Gommersbach e de Selma Renaux Gommersbach.

Família de Carlos Renaux na escadaria ao fundo da Villa Ida | Foto: Brusque Memória

Ida a Europa e retorno a Brusque

Nomeado Cônsul pelo presidente do Brasil, Carlos Renaux se estabeleceu em 1919, em Harnhem (Holanda) e, em março de 1922, mudou-se para Baden-Baden. Retornou ao Brasil em 1932.

Segundo relata a historiadora Maria Luiza Renaux, bisneta do Cônsul, “Carlos Renaux estabelecera-se na Holanda por causa da doença de Hanna (sua segunda esposa que vivera em Brusque de novembro de 1912 a dezembro de 1917) e onde “havia fartura e vivia-se barato” por causa do dinheiro brasileiro valorizado em plena guerra. Depois, os impostos muito altos – “aumentavam anualmente” – fez com que se mudasse para Baden-Baden, onde, inclusive, “o clima era melhor para sua saúde”.

Hanna morreu em dezembro de 1919 e Carlos casou-se com a holandesa Maria Luiza Auguste Linaerts.

De acordo com a reitora da Unifebe e colunista de O Município, Rosemari Glatz, em 1932, Carlos Renaux decidiu voltar definitivamente para o Brasil. Quando ainda morava em Baden-Baden, contratou o engenheiro alemão Eugen Rombach para projetar sua residência em Brusque.

A construção da Villa Goucky, como foi denominada em homenagem a terceira esposa, levou cerca de quatro anos para ser concluída.

Em 1937, aos 75 anos, se retirou definitivamente da direção das empresas. Dois anos depois, em junho de 1939, perdeu sua esposa Auguste e, desde então, viveu sozinho na Villa Goucky, até completar 82 anos de idade.