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Barragem de Botuverá será diferente de estrutura que rompeu em Brumadinho e seguirá lei aprovada após tragédia

Estrutura estará envolta em diversos requisitos de prevenção e especialistas a classificam como uma barragem segura

O jornal O Município apresenta a série especial “Barragem de Botuverá: o dossiê”. Reportagens exclusivas são publicadas em omunicipio.com.br e na edição impressa, cada uma dedicada a explorar, em profundidade, um aspecto específico da obra e seus impactos na sociedade. O objetivo é oferecer ao leitor uma visão ampla e detalhada de uma das construções mais aguardadas da região.

A futura barragem de Botuverá não terá semelhança alguma com a barragem que rompeu em Brumadinho (MG), em janeiro de 2019. A estrutura em Botuverá será destinada ao combate a cheias e enchentes do rio Itajaí-Mirim, diferente da barragem de mineração que resultou em 272 mortes na cidade mineira.

A barragem será construída no bairro Barra da Areia e terá capacidade de armazenar até 20 milhões de metros cúbicos de água. Serão mais de 40 metros de altura, aproximadamente 140 metros de comprimento e duas comportas. É considerada uma barragem de médio porte.

A estrutura ficará em um vale encaixado e terá as laterais ancoradas em morros. Na prática, serão executados furos nas rochas e realizadas injeções com caldas de cimento para fixar a estrutura.

Toda parte de operação da barragem ficará a cargo da Secretaria de Proteção e Defesa Civil de Santa Catarina. As atuais barragens do governo do estado passam por automatização das operações, começando por Ituporanga, no Alto Vale.

De acordo com Douglas Meinchein, diretor de Obras Preventivas e Projetos Especiais da Defesa Civil do estado, a barragem de Botuverá já será construída com esta estrutura automatizada. Porém, o fechamento das comportas ocorrerá somente em períodos de chuva.

“Como a barragem será somente para conter cheias, o nível do reservatório permanecerá baixo em dias normais. Em dias específicos, quando as condições climáticas exigirem, a barragem será operada e o nível do reservatório subirá com o fechamento das comportas”, afirma.

A partir da assinatura da ordem de serviço, a barragem será construída dentro de dois anos. São esperados em torno de 300 trabalhadores, conforme estimativa divulgada pela Defesa Civil catarinense.

Capacidade de armazenamento de água da barragem de Botuverá. Foto: Governo de SC/Reprodução

Diferenças entre Botuverá e Brumadinho


Em 2019, o Brasil acompanhou o rompimento da barragem da Mina Córrego do Feijão, em Brumadinho. A tragédia resultou em 272 mortes. Trata-se de um dos maiores desastres ambientais registrados no mundo.

João Carlos Santos da Rocha, geólogo da Secretaria de Meio Ambiente de Sergipe, diz que a futura barragem de Botuverá e a barragem que rompeu em Brumadinho são “completamente diferentes”.

A barragem de Brumadinho, assim como a barragem de Fundão, que rompeu em Mariana (MG) em novembro de 2015 e deixou 19 mortos, são estruturas que armazenam rejeitos, e não água de rios, como será a barragem de Botuverá.

“As barragens mineiras não deveriam nem ter sido construídas. A barragem enche de rejeito e, para cima do rejeito, é construída uma outra barragem. São feitas barragens em degrau, uma em cima da outra. Este tipo de barragem é apoiada no rejeito que esperam que já esteja compactado. Porém, elas ficam muito saturadas, cheias de água junto com o rejeito", diz João Carlos.

A água, por si só, empurra a estrutura de uma barragem de contenção de cheias com força. Já o rejeito a empurra com muito mais força. No caso, a barragem de Brumadinho não resistiu ao impacto somado à quantidade de água e se dissolveu.

De acordo com João Carlos, o formato de construção da barragem de Botuverá garante níveis de segurança elevados aos moradores do entorno. O concreto rolado, material utilizado para construção da estrutura, é altamente resistente.

“É impossível falar que uma barragem é 100% segura. Nada é 100% seguro. Se você for atravessar a rua, não há garantia de que chegará ao outro lado. Porém, com inspeções regulares, monitoramentos e projeto e construção bem executados, podemos considerar uma obra segura, como um edifício”, comenta.

Douglas Meinchein afirma que ocorrerá um monitoramento constante durante o processo de construção da barragem de Botuverá. A legislação exigirá também que a execução da obra e a operação da estrutura estejam amparadas por um rol de critérios de segurança.

“Toda concepção de projeto para executar a barragem possui coeficientes de segurança bem elevados. Há acompanhamento técnico durante toda a execução da obra. Uma série de requisitos precisa ser obedecida para oferecer segurança. É uma barragem segura”, diz Douglas.

Brumadinho após rompimento da barragem da Mina Córrego do Feijão. Foto: Isác Nóbrega/Presidência da República

Segurança reforçada por lei


A lei federal 14.066, de 30 de setembro de 2020, estabelece a Política Nacional de Segurança de Barragens. Trata-se, na verdade, de uma edição de uma legislação que existe desde de 2010. O texto foi ajustado passados quase dois anos da tragédia de Brumadinho.

Uma série de critérios de segurança foi estabelecida para barragens especificamente de contenção de cheias. No caso das barragens de mineração, como de Mariana e Brumadinho, a segurança é determinada a partir de outras normas.

O especialista da Secretaria de Meio Ambiente de Sergipe afirma que a barragem de Botuverá estará envolta de uma lei criteriosa a ser seguida. O texto prevê até um plano de ação em casos de emergências.

A depender do dano potencial associado das barragens, são definidos os intervalos de tempo para realização de inspeções de segurança regulares. No caso da estrutura de Botuverá, conforme a Defesa Civil de SC, será feita uma inspeção por ano.

Há casos em que podem ser realizadas inspeções de segurança especiais. Elas ocorrerão quando algum problema específico atingir a barragem. Desta forma, especialistas estarão dispostos a realizar apurações detalhadas dos problemas causados.

Barragens sergipanas


João vê de forma positiva a restrição da barragem de Botuverá para combate às cheias, sem gerar energia. Como a estrutura não permanecerá no dia a dia com o reservatório cheio, a finalidade de combater a força do rio Itajaí-Mirim pode ser mais eficiente.

“Se a barragem fosse mantida sempre com o reservatório cheio, o risco de galgar em períodos chuvosos, quando a água passa por cima da barragem, seria maior. Com a estrutura com pouca água, este risco passa a ser menor”, analisa o especialista.

Os rios Poxim-Açu e Poxim-Mirim cruzam o estado de Sergipe. Eles possuem semelhanças com os rios Itajaí-Açu e Itajaí-Mirim, que cortam o Vale do Itajaí, em Santa Catarina.

João compara a futura barragem de Botuverá com a barragem Sindicalista Jaime Umbelino de Souza, conhecida como barragem do Poxim. Caso a água ultrapasse o limite da estrutura sergipana, o risco de rompimento é maior em comparação com a barragem de Botuverá.

“A barragem de Botuverá será construída com concreto rolado. É um material mais seguro do que se fosse uma barragem de terra. A nossa barragem, que fica em região acima de Aracaju, é de terra. Se a água sobrepor a estrutura, a barragem do Poxim pode ser erodida e haver o risco de uma grande inundação”, compara.

A barragem do Poxim fica na cidade de São Cristóvão (SE). Ela tem capacidade de armazenamento de 32 milhões de metros cúbicos, consideravelmente maior que a barragem de Botuverá.

O dano potencial associado é alto, e 100 mil pessoas poderiam ser atingidas com eventual rompimento. Não significa que a barragem do Poxim não seja segura, mas a estrutura exige inspeções de segurança a cada seis meses, diferente da de Botuverá, que será anual.

Barragem Sindicalista Jaime Umbelino de Souza, conhecida como barragem do Poxim, fica na cidade de São Cristóvão, na Grande Aracaju. Foto: Governo de Sergipe/Divulgação

Arquiteto chinês crítico a barragens


As barragens são alternativas para combater cheias e enchentes em meio às mudanças climáticas, já que a instabilidade do clima causa cada vez mais estragos. No entanto, há especialistas que defendem soluções naturais para segurar o avanço dos rios sobre as cidades, em contraponto às barragens.

O conceito de “cidades-esponja” é um modelo de prevenção. Os municípios que aderem a este formato possuem áreas verdes e sem construções em que a água pode extravasar livremente. São espaços naturais preparados justamente para receber a água.

Em Camboriú, está em trâmite a implantação do Parque Inundável Multiúso da Bacia do Rio Camboriú. A imensa área verde servirá como berço da água em períodos chuvosos. Além de mitigar as inundações no município e na vizinha Balneário Camboriú, fornecerá infraestrutura hídrica para abastecer as cidades.

Uma reportagem exibida pelo programa Fantástico, da TV Globo, em 31 de agosto, mostrou os projetos desenvolvidos por Kongjian Yu. O arquiteto chinês é considerado o criador das cidades-esponja. Ele é crítico ao modelo brasileiro de lidar com a água, incluindo as barragens.

Ao Fantástico, o arquiteto convidou para olhar para a água de outra maneira. As cidades-esponja, na verdade, são práticas ancestrais, que Yu adaptou com projetos para o mundo moderno.

“A nossa ideia é demolir tudo o que é cinza: paredes, concreto, comportas. A água não é inimiga”, diz Yu, que é professor da Universidade de Pequim e é visto como um dos maiores arquitetos do mundo.

O programa mostrou os parques desenvolvidos por Yu. As obras têm capacidade de controlar a força da água com o mínimo de intervenção. Por exemplo, a existência de árvores nos arredores dos rios serve para reter a água e diminuir a velocidade.

Ele transformou a vila histórica de Xixinan em um ponto de convivência direta entre os humanos e a água, que é “encorajada” a entrar dentro da cidade de forma lenta, garantindo o convívio harmonioso com os moradores.

“Este rio é caudaloso, mas, com o mínimo de intervenção, o mínimo de projeto, conseguimos acalmar o fluxo de água”, explica o arquiteto. Yu transformou a vila em um laboratório para seus alunos da Universidade de Pequim.

Kongjian Yu, o arquiteto chinês considerado criador do conceito de cidades-esponja, durante seminário na sede do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), no Rio de Janeiro, em junho de 2024. Foto: Tomaz Silva/Agência Brasil

Os projetos não se restringem às pequenas vilas. Em Xangai, as margens do rio Huangpu contam com áreas verdes. Sendo assim, a água tem espaço para transbordar em períodos chuvosos. As áreas verdes ficam alagadas, mas não a cidade.

“Eu vivo criticando a tecnologia moderna. Foi desenvolvida na Europa, em Portugal e na Itália, onde o clima é muito diferente. Quando é copiada para China ou Brasil, tudo dá errado. Todas as represas ou barragens se rompem (não funcionam adequadamente). Precisamos de soluções adaptadas para a natureza, precisamos de cidades-esponja”, frisa.

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