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Por que uma barragem? Enchentes motivaram início das conversas por construção de estrutura em Botuverá

Estudos de agência japonesa definiram área no bairro Barra da Areia como ideal para receber estrutura

O jornal O Município apresenta a série especial “Barragem de Botuverá: o dossiê”. Ao longo dos próximos meses, reportagens exclusivas serão publicadas em omunicipio.com.br e na edição impressa, cada uma dedicada a explorar, em profundidade, um aspecto específico da obra e seus impactos na sociedade. O objetivo é oferecer ao leitor uma visão ampla e detalhada de uma das construções mais aguardadas da região.

As enchentes que atingiram Brusque e região nos anos de 1984, 2008 e 2011 fizeram com que os olhos se voltassem a soluções para mitigar os estragos causados pela força do rio Itajaí-Mirim. Neste contexto, passou a ser cogitada a construção de uma barragem para conter o rio.

O assunto surgiu aos poucos e foi ganhando força a cada estrago causado por eventos climáticos. Anos se passaram e a barragem ainda não existe. No entanto, os trâmites para início da construção estão em andamento.

A barragem contou com ferrenhos defensores ao longo dos anos, comprometidos em apoiar a alternativa para reduzir os transtornos ocasionados pelo clima. A insistência no tema foi fundamental para que a barragem não caísse no esquecimento.

Nos anos 80, em razão da catástrofe climática que atingiu Santa Catarina, o governo do estado solicitou uma missão à Jica, a Agência de Cooperação Internacional do Japão. A entidade veio ao Brasil e realizou estudos em toda a bacia hidrográfica do rio Itajaí, incluindo a sub-bacia do Itajaí-Mirim, que corta os municípios de Vidal Ramos, Botuverá, Brusque e Itajaí. Também foram analisados os afluentes e ribeirões que afetam outras cidades, como Guabiruba.

Arquivo O Município
Arquivo O Município
Ciro Groh/Arquivo O Município
Arquivo de Érico Zendron
Arquivo de Érico Zendron

 

Enchentes de 1984, 2008 e 2011 em Brusque.

Na ocasião, os japoneses sugeriram uma série de obras, como canais extravasores e retificação de leitos de rios, além das barragens. De acordo com Carlos Alberto Rockenbach, especialista em recursos hídricos, nesta ocasião foi levantada a sugestão para construção de uma barragem no Itajaí-Mirim.

“Um local de melhor escolha seria na transição de uma área maior para uma área mais concentrada, que é justamente entre Vidal Ramos e Botuverá. Naquele momento, não ficou definido o local, mas ficou definido que deveria haver um ponto de barramento entre os municípios, para amortecer o impacto das enchentes”, conta.

Apesar do estudo dos japoneses, as décadas de 1980 e 1990 se passaram, sem tanta ênfase destinada à retirada do projeto do papel.

Em 2008, quando o Vale do Itajaí enfrentou uma nova enchente que deixou rastros de destruição, o assunto voltou à pauta. Naquela época, o governo catarinense novamente acionou a Jica. Estudos atualizados foram entregues em 2010.

Carlos trabalhava na Diretoria de Recursos Hídricos da antiga Secretaria de Desenvolvimento Econômico Sustentável de SC. Ele acompanhou os japoneses na nova missão em terras catarinenses e, por ter conhecimento da bacia hidrográfica do Itajaí, auxiliou nos trabalhos.

Local definido


Um ano após a atualização dos estudos pela Jica, uma outra enchente atingiu Brusque e região. “O evento climático de 2011 novamente impactou e chamou a atenção. Os novos estudos da Jica eram muito recentes. Naquela missão foi estabelecido os locais de barramento”.

Quando os japoneses chegaram em Botuverá, foi identificado, na região do bairro Barra da Areia, um local em que havia ombreiras, ou seja, um vale que permitia a construção de uma barragem com reservatório.

Entretanto, depois foi observado que a consistência de rochas não era suficiente para ancorar as laterais da barragem. O ponto adequado foi encontrado 150 metros acima.

Vitor Souza/O Município
Vitor Souza/O Município
Vitor Souza/O Município
Vitor Souza/O Município
Vitor Souza/O Município

Carlos Alberto Rockenbach é especialista em recursos hídricos.

Governador chama prefeito


O governador de Santa Catarina à época, Raimundo Colombo, convidou o então prefeito de Botuverá, José Luiz Colombi, o Nene, para uma reunião em Florianópolis. O governo municipal apoiou o projeto do governo catarinense.

Na prática, para o combate a cheias e enchentes, a barragem será mais útil para Brusque e Itajaí, municípios que vêm na sequência de Botuverá, a “cidade-sede” da barragem.

Quando o assunto ganhou corpo, a informação de que a barragem seria construída em Botuverá gerou até certo “ciúme”. Durante evento de inauguração de obra do governo do estado no Alto Vale, Nene conversou com o prefeito de Presidente Nereu, que estava incomodado por Botuverá ser a cidade escolhida para receber a barragem.

“O prefeito me cobrou, disse que eu estava ‘roubando’ a barragem de Presidente Nereu. Ele ficou muito irritado”, relembra Nene, aos risos. Na ocasião, o prefeito do município vizinho tinha interesse no potencial turístico e econômico que a barragem poderia gerar à cidade.

Uma outra lembrança na memória do ex-prefeito Nene é a reunião com os moradores que vivem na região da barragem. Na ocasião, representantes da Defesa Civil de SC se reuniram com os proprietários de terras que seriam desapropriadas para dar espaço à estrutura.

“O governador me pediu para reunir as pessoas que seriam indenizadas. Fizemos um encontro na escolinha da Areia. Veio o secretário de Defesa Civil de SC, Milton Hobus. Todos os proprietários estavam. Eu dei a minha palavra que estaria ao lado deles para que fossem indenizados e não perdessem as terras”.

Vitor Souza/O Município
Vitor Souza/O Município
Vitor Souza/O Município
Vitor Souza/O Município
Vitor Souza/O Município

Nene Colombi, ex-prefeito de Botuverá defensor da construção da barragem.

Primeiro registro no jornal


Consulta ao acervo de O Município mostra que a primeira menção à barragem de Botuverá no jornal foi feita em 16 de setembro de 2011, poucos dias após uma enchente. Na ocasião, o então vereador Eduardo Hoffmann defendeu a construção da estrutura entre Botuverá e Vidal Ramos.

A reportagem entrevistou políticos em cargos na época: todos os vereadores de Brusque, o deputado estadual Ciro Roza, o secretário de estado de Assistência Social, Serafim Venzon, e o secretário-adjunto de Desenvolvimento Regional, Jones Bosio.

A intenção da reportagem era saber quais as propostas do poder público para mitigar tragédias climáticas futuras. A população também foi ouvida. Somente o vereador Eduardo e o aposentado José Francisco de Souza, morador do bairro Jardim Maluche, defenderam diretamente a construção da barragem.

“Após a enchente, fui cobrado para encontrar soluções para casos futuros. Eu saí com o então deputado Ciro Roza para verificar os estragos. No carro, conversamos sobre a barragem. O Ciro se comprometeu a conversar com o governador Raimundo Colombo sobre o assunto”.

Vitor Souza/O Município
Vitor Souza/O Município
Vitor Souza/O Município
Vitor Souza/O Município
Vitor Souza/O Município

Eduardo Hoffmann foi o primeiro vereador a falar sobre a barragem de Botuverá ao jornal O Município.


Matéria do jornal O Município na edição de 16 de setembro de 2011.

Envolvimento da Acibr


A Associação Empresarial de Brusque (Acibr) sempre esteve envolvida nas discussões sobre a barragem de Botuverá. Presidente da entidade à época, Halisson Habitzreuter considera a construção da estrutura como uma bandeira permanente da Acibr.

Ao longo dos anos, a entidade teve papel de cobrar políticos referente ao assunto. Foram inúmeras reuniões com prefeitos, deputados, senadores e governadores, na intenção de viabilizar a obra e mantê-la no planejamento do poder público.

“Sempre realizamos uma pressão política para fazer a barragem acontecer. Precisamos manter uma vigilância. A barragem é fundamental para o desenvolvimento econômico e social da região”, defende o ex-presidente, que atuou ativamente nas cobranças pela obra.

Halisson afirma que a defesa da construção da barragem de Botuverá foi uma unanimidade dentro e fora da associação empresarial. Nas reuniões com políticos, todos concordavam e buscavam opções para conseguir tirar a obra do papel, apesar de não ter desfecho até hoje.

“Sempre que tivemos reuniões itinerantes em Botuverá, a barragem foi pauta. Sempre que trouxemos os prefeitos, todos concordavam que era necessária e importante. Deputados e senadores sempre defenderam. A ideia sempre foi muito bem aceita. Isso me marcou”.

Vitor Souza/O Município
Vitor Souza/O Município
Vitor Souza/O Município
Vitor Souza/O Município
Vitor Souza/O Município

Halisson Habitzreuter atuou ativamente na defesa da barragem de Botuverá durante período como presidente da Acibr.