O Conselheiro que deu o nome a Brusque

Conheça a história do homem que deu nome ao município no artigo de Paulo Kons

O Conselheiro que deu o nome a Brusque

Conheça a história do homem que deu nome ao município no artigo de Paulo Kons

Na comemoração dos 138 anos de Brusque, consolidou-se uma antiga aspiração: a cidade recebeu os restos mortais do Conselheiro Imperial Dr. Francisco Carlos de Araújo Brusque e familiares. De Pelotas, Rio Grande do Sul, na qualidade de presidente da Comissão Organizadora do Translado, conduzimos os despojos até o quartel da então 1ª. Companhia de Polícia Militar sediada em Brusque, no dia 31 de julho de 1998. 

Às 20 horas do dia 3 de agosto, solene recepção na Prefeitura. No dia 4, após participar do desfile que reuniu e emocionou milhares de brusquenses, a urna foi conduzida com honras militares para a Igreja Matriz São Luiz Gonzaga, onde foi oficiado solene culto ecumênico, às 16 horas. Após a liturgia, os restos mortais foram depositados no monumento anexo à Casa de Brusque. 

Após dez anos de nossos contatos e articulações, o júbilo da comunidade brusquense, não somente por Araújo Brusque ter dado o nome ao Município, mas, sobretudo pelo desprendimento pessoal, dignidade e honradez com os quais ocupou a presidência da província de Santa Catarina e os mais elevados cargos do Império brasileiro. Neste 4 de agosto de 2012, vamos conhecer melhor Araújo Brusque e sua família.  

De BRUSCHI para BRUSQUE

Filho do Coronel Francisco Vicente Brusque e Delphina Carlota de Araújo Ribeiro Brusque, Araújo Brusque nasceu em 24 de maio de 1822 em Porto Alegre, capitania de São Pedro do Rio Grande. Seu avô, Nicolau Bruschi (somente em 1846 adotou-se, no Brasil, a grafia Brusque) era um nobre florentino que se instalara em Portugal no ano de 1762 e se casara com Ana Joaquina Vieira de Aguiar e Almada. Exerceu o elevado cargo de Mordomo-mor do Paço Real português. 

A transferência da Família Real portuguesa para o Brasil, em 1807/8, determinara a separação dos Bruschi. Nicolau, que permanecera em Portugal como administrador e intendente geral dos bens da Família Real, conservara em sua companhia a esposa e os filhos José Luís e Maria Amália. Os dois outros filhos, João e Francisco Vicente (pai de Araújo Brusque), militares, acompanharam a Real Família no seu êxodo para o Brasil. 

Francisco Vicente, após ocupar vários postos da hierarquia militar, é nomeado Ajudante de Ordens do Governador da Capitania de São Pedro do Rio Grande, em 1814. Após ser promovido para a patente de Coronel de Milícias efetivo em 1818, casou-se com Delphina Carlota de Araújo Ribeiro. 

Araújo Brusque passou sua infância com a família em Porto Alegre. Aos 18 anos, matriculou-se na Academia de Direito de São Paulo, onde obteve o grau de bacharel, em 17 de novembro do ano de 1845. Regressando para sua Província, foi eleito para a Assembleia Legislativa Provincial nas legislaturas de 1849, 1854 e 1856. Foi nomeado auditor de guerra, em 1851, pelo Governo imperial e obteve, no ano seguinte, a medalha de ouro do mérito militar e as honras do posto de Coronel do Exército Imperial. 

Em 1859, foi nomeado presidente da Província de Santa Catarina. Por sua iniciativa a Colônia Itajahy, que originou o município de Brusque, foi instalada em 4 de agosto de 1860. Após presidir a província do Grão Pará, foi nomeado Conselheiro do Imperador e ministro da Marinha e da Guerra. Não compactuando com práticas lesivas ao bem comum e ao interesse nacional, abandonou a corte imperial e instalou-se com a família em Pelotas, onde passou a exercer a advocacia. Católico praticante, Araújo Brusque era casado com Cecília Amália de Azevedo Brusque e teve como filhos Francisco Carlos, José, Arthur, Raphael, Emma, Heráclito, Cecília e Francisca. Faleceu repentinamente, em 23 de setembro de 1886. 

Presidente da Província

Para presidir a Província de Santa Catarina, Brusque foi nomeado, em 6 de setembro de 1859, com o texto “Francisco Carlos de Araújo Brusque – EU, o Imperador Constitucional e Defensor Perpétuo do Brasil, vos envio muito saudar. Tendo atenção ao vosso distinto merecimento e patriotismo, HEI por bem Nomear-vos Presidente da Província de Santa Catharina”. Prossegue o documento: “E vós, depois de prestardes o juramento nos termos da Carta de Lei de 3 de outubro de 1834, entrareis no exercício do dito cargo, e fareis manter a religiosa observância das Leis, para liberdade, segurança e prosperidade dos povos da Província, transmitindo à respectiva Secretaria d’ Estado os esclarecimentos exigidos na Circular de 11 de março de 1.848, no Palácio do Rio de Janeiro, em seis de setembro de mil oitocentos e cinquenta e nove, trigésimo oitavo da Independência e do Império. IMPERADOR”. 

Assumiu a administração da Província, solenemente, em 21 de outubro de 1859, após uma década de administração do seu antecessor, João José Coutinho. Apesar das desavenças políticas internas entre os partidários do Partido Liberal e do Conservador, Brusque teve boa acolhida no início de sua gestão. Convém salientar que Brusque era membro do Partido Liberal, mas fora indicado para o cargo por um Ministério Conservador, liderado por Ângelo Muniz da Silva Ferraz.

Na sua gestão, além da Colônia Itajahy (Brusque), foram instaladas as colônias de Teresópolis e Angelina, todas em 1860, o que acentua o caráter empreendedor do Presidente Brusque. 

Barão de Teffé

Em 1992 recebi de Francisco José Brusque, neto de Araújo, cópia fotostática de uma carta do Barão de Teffé, analisando os acontecimentos por ele presenciados em 24 de julho de 1860, na Canhoneira Belmonte: o primeiro grupo de imigrantes que viria a instalar a colônia Itajahy, em 4 de agosto, foi transportado pela canhoneira de Nossa Senhora do Desterro (Florianópolis) a Itajaí. Schneéburg e os oficiais da marinha procuram homenagear o presidente Brusque, dando seu nome a nova colônia. O Barão de Teffé, em carta dirigida ao almirante Raphael Brusque, informou que Araújo Brusque recusou terminantemente. Mas, a insistência de Schneéburg suplantou a determinação do presidente Brusque. Apesar de oficialmente denominada Colônia Itajahy, o barão grafava ‘Itajahy-Brusque’ ou ‘Brusque’, isoladamente.  

Com a criação da Colônia Imperial Príncipe Dom Pedro – com sede na confluência do ribeirão Águas Claras com o rio Itajaí Mirim, tendo por território a margem direita de Brusque, Botuverá, Nova Trento e Krecker (São João Batista), por 98 imigrantes vindos dos Estados Unidos e liderados pelo inglês dr. Barzillar Cottle –, a região de Brusque passou a contar com uma segunda colônia. 

Com a unificação administrativa das colônias, ocorrida em 6 de dezembro de 1869, a denominação foi alterada para Colônias Itajahy e Príncipe Dom Pedro. Alçadas à categoria de Freguesia (paróquia) em 31 de julho de 1873, a denominação foi alterada para São Luiz Gonzaga. Criado o Município, em 23 de março de 1881, manteve-se a denominação São Luiz.

Depois de proclamada a República, em 17 de janeiro de 1890, o governador Lauro Severiano Müller alterou a denominação para Brusque, em reconhecimento à honradez, justeza e desprendimento pessoal do Conselheiro e motivado, também, pelo fato de a região ser conhecida por Brusque.


Província do Grão-Pará 

Em 20 de março de 1861, atendendo a apelos do Imperador, Araújo Brusque concordou em assumir a Presidência da Província do Grão-Pará. Deixou Santa Catarina, acompanhado de sua família, em 22 de abril do mesmo ano. 

Na Província do Grão-Pará, além de implementar melhoria na infraestrutura pública, dedicou-se ao estudo de hábitos e costumes das tribos indígenas. O trabalho de Brusque resultou na evangelização, proteção e na fundação de uma aldeia com os índios Tambés, que se encontravam dispersos, com a denominação Santa Leopoldina. 

Propiciou bases para o desenvolvimento econômico e social dessa aldeia. Incentivou, também, os núcleos da aldeia de Araraudena. Foi durante sua gestão que os vapores de guerra peruanos Morona e Pastaza tentaram violar a soberania brasileira no Grão-Pará. Brusque respondeu com enérgico protesto e com as armas.

Brusque e Dom Pedro II

Após deixar a Presidência do Grão-Pará, assumiu o Ministério da Marinha, durante a Guerra do Paraguai. Exerceu, em caráter interino, a função de Ministro da Guerra do Império. Araújo Brusque foi um dos colaboradores de maior proximidade com o Imperador Pedro II, sendo seu Conselheiro, até 1875, quando eticamente indignado com práticas políticas vigentes, transfere-se da Capital do Império para a cidade de Pelotas.

Entre outras honrarias, o Conselheiro Brusque foi condecorado com o Oficialato da Ordem da Rosa, Hábito de Cristo e Gran Cruz do Leão Neerlandez. Segundo depoimento do pesquisador Pedro Ingo Zimmermman, os descendentes da Família Imperial brasileira ainda conservam na memória o Conselheiro Brusque.

Na intimidade da Família Brusque

O Conselheiro Araújo Brusque, além de proeminente estadista, marcando a história brasileira através da dignidade, honradez e desprendimento com que exerceu os mais altos cargos do Império, soube ser exemplo dignificante como esposo e pai. Documentos, que comprovam esta dimensão do Conselheiro, são guardados como verdadeiras relíquias pela Família Brusque.

Em 28 de outubro de 1874, quando a esposa Cecília completava 40 anos, Araújo Brusque ofereceu-lhe, em nome dos seis filhos que o casal já possuía (nasceriam, depois, mais duas meninas, uma em dezembro seguinte e a outra em 1877), um lindo e perfumado álbum, com capa de sândalo, artisticamente esculturada, com a dedicatória: “À nossa cara Mãe – ‘O homem não deve existir só’ – dice Deos na Bíblia, e creou a mulher. Porém se esta mulher tivesse sido o que Sócrates queria que fosse, em tudo semelhante ao homem, dotado absolutamente das mesmas qualidades, partilhando os mesmos exercícios, os mesmos deveres, com tal companhia o homem teria ainda ficado só. Que esta solidão a dois tenha sido evitada, não duvidamos. Porém a obra da civilização, a obra fecunda havia precisamente enriquecer o homem e a mulher, com uma multidão de oposições e de contrastes, que os tem unido, separando-os. Aqui, pois, o homem precisa na mulher não é uma sombra que lhe duplique a vida, é um ser que o complete. Eis a razão do casamento. Complemento da vida de nosso Pae, e primeiro elo da cadeia de nossa existência. Somos seis, que comemoramos hoje mais um aniversário natalício, saudamos o dia em que veio ao mundo a mulher que nos deu seu ser, pedindo a Deos que a conserve para nosso amparo e consolo de nosso Pae.” Assinam: Francisco Carlos (15 anos), José (12), Arthur (11), e o próprio pai por Raphael (4), Emma (3) e Heráclito (1 ano).

Em julho de 1886, dois meses antes da súbita morte do Conselheiro Brusque, a filha Emma completava 15 anos. Brusque presenteou a filha com um quadro de Nossa Senhora do Carmo, em cujo verso escreveu: “Emma! Crê querida filha, que te rodearão perigos na vereda que seguires por entre a multidão das paixões que cercam a vida por toda a parte, nos festins da mocidade, nos encargos de família e nos exemplos que ficam à beira do sepulcro … À Maria, Mãe de Deos, entrega tua alma, na peregrinação por este mundo. Ama a Deos, ama a virtude. Lembrança de teo Pae”.

Uma espécie de premonição estava consubstanciada na sentença “… nos exemplos que ficam à beira do sepulcro”. O Conselheiro Brusque falecia dois meses após. Mas sua vida, sua dignidade, seu amor, estavam indelevelmente gravados nas almas de seus filhos, tão jovens, mas com caráter forjado na têmpera do bem. Faleceu pobre o Dr. Francisco Carlos de Araújo Brusque, Conselheiro Imperial. 

Deixou, porém, imensurável riqueza de lições para o Brasil, como homem público de visão, de talento, de realizações, todos exercidos com o máximo de capacidade, dinamismo e honradez. Sua família, toda ela impregnada de sua diretriz firme e ao mesmo tempo transbordante de amor, herdou as vigorosas sementes plantadas nos jovens corações de seus filhos que, embora enfrentando sérias dificuldades financeiras, mas com determinação, ajuda mútua, solidariedade para custear as despesas com a educação dos mais jovens, conseguiu alçar patamar singular nas áreas do Direito, Medicina, Farmacêutica, Marinha, Odontologia e outras. 

De estatura pequena, magro, olhos pretos e vivos, cabelos escuros ao tempo de estudante, mas que se tornaram brancos já aos 40 anos, o Conselheiro Francisco Carlos de Araújo Brusque continua a marcar a geração presente e as vindouras.

*Paulo Vendelino Kons, 43, historiador e assessor cultural do Instituto Aldo Krieger – IAK. Articulou a vinda dos restos mortais do Conselheiro Brusque e presidiu a Comissão Organizadora do Traslado (Decreto nº 4083/98).

Fontes: 1. Arquivo de Francisco José Brusque de Moraes (neto do Conselheiro, falecido em 24/12/94) e depoimento de sua esposa, dona Hermínia Couto de Moraes, representante   da  Família Brusque nas gestões do traslado do Conselheiro Francisco Carlos de Araújo Brusque e familiares de Pelotas (RS) para Brusque (SC);
               2. Arquivo do Instituto Histórico e Geográfico de Pelotas;
               3. Arquivo da Casa de Brusque e depoimentos de Ayres Gevaerd.
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