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O que os venezuelanos em Brusque pensam sobre a captura de Nicolás Maduro

Imigrantes venezuelanos deixaram terra natal por causa de crise provocada pelo regime chavista, que hoje colapsa

Venezuelanos que deixaram o país em busca de uma vida digna em Brusque celebram a queda de Nicolás Maduro. A captura do líder chavista pelos Estados Unidos representa, para eles, o início do fim do regime que os obrigou a abandonar a terra natal.

Maduro foi capturado por agentes estadunidenses no dia 3 de janeiro, em Caracas, capital da Venezuela. Ele é acusado pelos EUA de narcoterrorismo e tráfico de drogas. O presidente Donald Trump anunciou que os Estados Unidos vão governar a Venezuela por um período transitório.

Além disso, empresas estadunidenses vão explorar o petróleo venezuelano. O país conta com a maior reserva do mundo. Para os venezuelanos que vivem em Brusque, ainda há muito o que mudar no país. Eles defendem o controle provisório dos EUA para que seja possível uma transição de poder.

A professora Nesbith María Acosta mora há um ano em Brusque. Porém, já fazem oito anos que ela cruzou a fronteira entre o Brasil e a Venezuela em Pacaraima (RR). Ela deixou o país vivendo em meio à crise, com um salário de professora equivalente a 3 dólares mensais, e com problemas de saúde.

Quando jovem, em 1992, Nesbith passou a ser crítica a Hugo Chávez, quando o então tenente-coronel que viria a implantar um regime ditatorial na Venezuela tentou aplicar um golpe de Estado fracassado. Mais tarde, em 1998, Chávez foi eleito presidente.

Maduro chegou ao poder em 2013, após a morte do precursor do chavismo. Liderou a Venezuela com mão de ferro, promovendo intensa repressão a opositores. Mesmo com capacidade de produzir riquezas, já que a Venezuela possui a maior reserva de petróleo do mundo, o regime de Maduro forçou muitos a emigrar por causa da crise econômica e a violência.

“Isso que aconteceu na Venezuela (captura é Maduro) é um pouco de justiça. Está começando. Uma transição na Venezuela vai demorar. O país está contaminado. Sabemos do controle que o governo tem em cada setor. É inacreditável”, diz Nesbith.

Para a professora, a administração da Venezuela pelos EUA realmente será provisória. Ela defende que a líder da oposição e vencedora do Nobel da Paz, María Corina Machado, seja nomeada presidente. Entretanto, reconhece que o chavismo ainda vive sem Maduro e que María Corina não conseguiria governar hoje por falta de apoio.

“O governo está totalmente infectado. É como se fosse uma praga. Ainda vai demorar para a Venezuela mudar. Graças a Deus que isso (captura) aconteceu. Muitos pensam que os EUA não respeitaram a soberania, mas a Venezuela não possui soberania. Todos são donos da Venezuela, menos os venezuelanos”.

Nesbith Acosta gostaria que María Corina Machado, vencedora do prêmio Nobel da Paz, fosse presidente da Venezuela no futuro | Foto: Sophia Ribeiro/O Município

Uma vida sob o chavismo


O barbeiro Keibel Gonzales deixou a Venezuela ainda quando adolescente, pela fronteira com a Colômbia. Ele passou por Peru e Equador antes de pisar em solo brasileiro. O caçula de oito irmãos arriscou a vida em busca de seus sonhos, impossíveis de concretizar em meio à crise venezuelana.

Hoje com 26 anos, Keibel praticamente viveu toda sua vida sob o regime chavista, que dura 25 anos. No Brasil, ele mora há cerca de sete anos, sendo três em Brusque. Há um mês, saiu de Santa Catarina e se mudou para Castelo (ES), onde segue a vida em busca dos sonhos.

Para ele, o fim da ditadura de Nicolás Maduro era um desejo dos venezuelanos. O chavismo está em declínio com a captura do principal líder, mas o Exército venezuelano e outros nomes, como a presidente interina Delcy Rodríguez e o ministro do Interior, Diosdado Cabello, considerado o número 2 do chavismo, entre outros, sustentam o regime.

“Nós queríamos que a queda de Maduro acontecesse. O venezuelano orava por isso. A minha mãe morreu no momento mais doloroso da Venezuela. Eles (regime) não estavam nem aí para as pessoas. A queda de Maduro foi a maior justiça da história”, afirma.

O ditador Nicolás Maduro após ser capturado pelos Estados Unidos | Foto: @realDonaldTrump/Truth Social

O futuro no país é incerto. Keibel tem dúvidas sobre quem de fato irá administrar a Venezuela. Ele não se opõe a uma gestão dos Estados Unidos, como contrapartida ao fim do regime chavista. Porém, nega que a Venezuela tenha “tirado” o petróleo dos EUA, conforme reitera Donald Trump.

“Eu tenho uma dúvida muito grande sobre o futuro. Os Estados Unidos são um país potente. Trump falou sobre o petróleo da Venezuela, e sou alegre por um lado, mas confuso por outro. Estou um pouco assustado. Porém, se os EUA quiserem administrar a Venezuela, se for de forma positiva, não vejo problema”.

Lembranças dos tempos difíceis


Quando Sandra Fuentes recebeu um telefonema da irmã informando que Caracas estava sendo bombardeada e que Maduro foi capturado, um filme passou pela cabeça. Ela lembrou dos tempos em que passou fome na Venezuela, em meio à crise provocada pela ditadura. Logo, ajoelhou e orou em agradecimento pela prisão do líder-mor.

A professora de espanhol vive no Brasil desde 2017, passando inicialmente por Roraima, e hoje mora em Brusque. Sandra é apaixonada pela cidade catarinense. Em 2023, concedeu entrevista à série documental Sotaques de Brusque, produzida pelo jornal O Município, e contou sua história.

“Meu filho fazia faculdade na Venezuela e saía para protestar. Meu coração de mãe ficava louco. Era a vida do meu filho nas ruas. Lá, eles matam as pessoas que protestam. Mataram muitos estudantes”, relembra.

Sandra Fuentes é professora de espanhol em Brusque | Foto: Tiago Schumacher/Especial

Sandra diz que “a luta ainda não acabou”, e defende uma nova intervenção dos Estados Unidos para captura de outros líderes chavistas. Ela cita, por exemplo, que defende a prisão de Delcy Rodrigues, presidente interina da Venezuela, chavista aliada de Maduro.

“Quando eu vi que ele estava preso, fiquei de joelhos e agradeci a Deus. Eu fiquei feliz. Maduro tem sangue inocente nas mãos. Os amigos do meu filho hoje estão no céu, porque foram mortos”, relata.


Assista agora mesmo!


Você sabia? "Parabéns pra você" cantado em Brusque é único no mundo e surpreende quem é de fora:


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