Voto diluído, cidade sem voz: especialistas avaliam por que Brusque não elege deputados desde 2014
No último pleito, em 2022, região teve 16 candidatos, que receberam, em média, apenas 5,7 mil votos cada
As articulações para as eleições de 2026 já começaram e, mais uma vez, Brusque deve ter diversos candidatos a deputados estaduais e federais. Desde 2014, nenhum representante da região se elege, o que, de acordo com especialistas, prejudica a cidade na articulação política e captação de recursos.
Danilo Moritz, ex-prefeito de Brusque e colunista do jornal O Município, que atua no assessoramento de campanhas eleitorais desde 1988, avalia que, quando é lançado um nome politicamente forte da região, quase sempre a votação local é bem expressiva.
Na eleição de 1994, Serafim Venzon, que era vice-prefeito, candidatou-se a deputado federal pelo PDT e fez 18.077 votos na região, 59,1% dos votos válidos, enquanto Ciro Roza, ex-prefeito, na época no PFL, fez 15.220, 47,5% dos votos válidos para deputado estadual – ambos se elegeram. Em 1998, Serafim Venzon fez 59,2% dos votos e se reelegeu. Ciro Roza fez 51% dos votos e também se reelegeu. Em 2002, Paulo Eccel (PT) fez 40% dos votos e, em 2006, Dagomar Carneiro (PDT) fez 30%. Ambos se elegeram.
Segundo Danilo, que lançou em 2022 um livro que traz história e bastidores de todas as eleições em Brusque, historicamente, o eleitor brusquense quase sempre votou em candidatos com ligação com a região nas eleições de deputado. Como exemplo, ele lembra que, em 1954, os candidatos Braz Joaquim Alves (PTB) e Mário Olinger (UDN) conquistaram juntos 88% dos votos da região e ambos se elegeram. Em 1958, os três candidatos de Brusque, Brás Joaquim Alves (PTB), Mário Olinger (UDN) e Raul Schaeffer (PSD), fizeram 90% dos votos. Os dois primeiros se reelegeram.
Na última eleição, em 2022, a maioria dos candidatos de Brusque e região conquistaram grande parte de suas votações em casa. Entre os estaduais, Marcos Habitzreuter (DC), com 97%, e Dr. Jonas (Patri), com 88,28%, foram os que tiveram a maior porcentagem de votos oriundos dos três municípios da região (Brusque, Guabiruba e Botuverá). Já entre os federais, Professor Rogério dos Santos (Republicanos), com 83,5%, e Alessandro Simas (PP), com 79,19%, são os dois primeiros.
Proliferação de siglas
Na avaliação de Danilo, a partir da eleição de 2010, houve mudanças no cenário. Ele elenca a proliferação das siglas partidárias e consequente aumento das candidaturas, o desgaste dos nomes que foram eleitos em eleições anteriores e a ausência de novas lideranças carismáticas e com forte apelo popular.
Na última eleição em que um representante de Brusque se elegeu, em 2014, eram seis candidatos a deputado estadual, que somaram quase 75,9 mil votos, e dois para federal, que totalizaram 31,9 mil votos.
Nesta eleição, Serafim Venzon se elegeu deputado estadual pelo PSDB, com mais de 50,2 mil votos. Ele ressalta que os votos de Brusque e da região sempre foram fundamentais para suas campanhas.
“Esses votos são insuficientes para eleger um deputado estadual ou federal, ainda assim, são imprescindíveis, porque é aqui que se consegue concentrar uma base forte. Fora da cidade, o voto é mais difícil, porque o eleitor tende a priorizar candidatos da própria região”, destaca.
Já em 2018, foram dez candidatos a deputado estadual, que somaram pouco menos 87,6 mil votos, e mais sete a deputado federal, com 42,4 mil votos.
“Hoje, com todas as facilidades criadas pelas redes sociais, aliadas aos interesses das benesses que o poder político oferece e a ambição pessoal de neófitos na política, não é difícil para os partidos conseguir candidatos para a soma de votos de suas legendas. Na eleição de 2018, entre todos, não houve nenhuma nova liderança expressiva e candidatos já desgastados”, avalia Danilo Moritz.
"A diluição de votos é o voto da derrota"
Na última eleição geral, em 2022, foram nove candidatos a deputado estadual, que somaram mais de 52,8 mil votos, e sete a deputado federal, totalizando pouco mais de 39,7 mil votos.
Na visão de Serafim, é preciso focar em candidaturas viáveis, apesar das boas intenções dos candidatos. “Quando muita gente boa se candidata, o voto se espalha e ninguém ganha. Todos os candidatos são pessoas de bem, com boa intenção, mas a pergunta principal precisa ser: quem tem viabilidade real de ganhar? Não se trata de escolher o melhor ou o pior, mas o mais viável. Se cada partido lança um candidato, todo mundo perde e a cidade continua sem representante”.
Ele lembra que, em 2022, o ex-prefeito de Brusque, Jonas Paegle, foi o candidato mais votado do seu partido, o Patriota, mas ficou de fora porque a sigla não alcançou o quociente eleitoral. “Às vezes, falta muito pouco. A diluição dos votos é o voto da derrota”.
Interesses partidários
Danilo avalia que, para a eleição de deputados estaduais, os maiores partidos, caso não haja um candidato com grande densidade eleitoral, pressionam para que as lideranças municipais apoiem candidatos que precisam aumentar o território eleitoral.
Já as siglas menores pressionam para que o diretório municipal lance um candidato para aumentar os votos de legenda e possibilitar a eleição de candidatos que estão no topo da lista da legenda.
Já para a Câmara Federal a pressão vem para o apoio aos candidatos que o partido tem na lista de prioridades. Ele destaca, ainda, que é preciso observar que existem forças sociais cada vez mais fortes, como é o caso das igrejas evangélicas, que vêm aumentando a cada eleição, suas bancadas.
“Nas eleições para deputado estadual e federal sempre haverá articulação envolvendo os diretórios estaduais dos partidos e os interesses regionais. As principais causas para Brusque ficar sem deputados, sobretudo na Assembleia Legislativa (Alesc), está na qualidade e quantidade dos candidatos, em função da quantidade de siglas partidárias, e ausência de lideranças carismáticas e com forte densidade eleitoral”.
Prejuízos para a região
Serafim lembra que as cidades sem representantes da Alesc e na Câmara de Deputados perdem articulação política e recursos.
“Quando fui deputado, destinei recursos para obras importantes em Brusque, como a Beira Rio, o terminal de ônibus, passarelas, a duplicação da Antônio Heil. Muitas dessas conquistas só aconteceram porque havia representação política atuante”. Ele lembra, ainda, que Brusque teve mais de um representante em diversos períodos em décadas recentes – além dele, de Ciro Roza e Dagomar Carneiro, também Dado Cherem, que construiu sua carreira política em Balneário Camboriú, mas é natural de Brusque, cumpriram mandatos simultaneamente em diferentes legislaturas.
Na visão do ex-deputado, que também foi secretário de Estado de Assistência Social, Trabalho e Habitação entre 2011 e 2012, a questão da infraestrutura depende muito de ter um representantes da região. Ele destaca ainda que, quando o voto se concentra, o deputado eleito fica altamente comprometido com a região.
“Brusque é uma das cidades mais importantes de Santa Catarina, tanto economicamente quanto em população. Vai crescer ainda mais pela localização estratégica, próxima do porto, aeroporto e da BR-101. Por isso, precisa voltar a ter representação estadual e federal. Quem for eleito não será deputado só de Brusque, mas certamente terá um olhar especial para cá. É isso que faz a diferença no longo prazo. Muitas coisas ficam para trás quando não há representação. Não dá para fazer tudo, claro, porque o orçamento do estado é disputado por todas as regiões. Mas quem tem deputado sempre consegue avançar mais do que quem não tem”.
Analista de relações governamentais, Marcos Maestri avalia que a ausência de um representante direto significa, antes de tudo, perda de voz política e de capacidade de priorização. Hoje, os valores disponíveis por meio de emendas parlamentares são expressivos: cerca de R$ 20 milhões por deputado estadual e R$ 40 milhões por deputado federal, além das emendas de bancada, que podem alcançar cifras ainda maiores.
“Sem um deputado da região, Brusque perde espaço na definição dessas prioridades. Antigamente, os municípios buscavam recursos diretamente junto ao governo do estado ou aos ministérios, apresentando projetos. Hoje, essa porta de entrada mudou: a articulação passa, principalmente, pelos gabinetes dos deputados, que indicam as emendas e intermediam o acesso aos órgãos executivos”.
Além da questão orçamentária, Marcos ainda destaca a dimensão política e institucional. Demandas como aumento do efetivo policial, reforma de escolas estaduais ou recapeamento de rodovias ganham muito mais agilidade quando apresentadas por um parlamentar, que tem acesso permanente aos secretários de estado e maior capacidade de pressão política.
“Um deputado estadual atua como ponte direta entre o município e o governo do estado, que é responsável por áreas fundamentais como segurança pública, rodovias estaduais e ensino médio. Na prática, ter um representante faz diferença no tempo, no volume e na prioridade dos investimentos que chegam à cidade”, resume.
“Sem articulação, Brusque continuará ficando para trás”
Na opinião do ex-prefeito Danilo, é necessário que os diretórios municipais repensem sua estratégia política a médio e longo prazo.
“Os diretórios municipais, em geral, são muito fracos. Não há visão, pouca organização, não se promove eventos com os filiados. O individualismo e os interesses pessoais prevalecem”.
Na visão de Serafim, é muito difícil diminuir drasticamente o número de candidaturas, mas ele acredita que as forças políticas precisam se mobilizar em torno de um nome.
“Cada candidato tem partido, base e projeto próprio. O que dá para fazer é construir um discurso de viabilidade, convencer o eleitor a concentrar o voto onde há chance real de vitória”.
Marcos acredita que Brusque vive uma situação que é, ao mesmo tempo, um desafio e uma oportunidade. “A oportunidade está no fato de não haver um monopólio político regional, com deputados perpetuados por vários mandatos sem espaço para renovação. Isso abre caminho para novos nomes e projetos”, avalia.
Na visão dele, porém, o desafio é grande para superar a difícil barreira de votos necessária para a eleição. “Esse obstáculo é agravado por sucessivas eleições com muitos candidatos locais, frequentemente sem projeção estadual, o que leva o eleitor a concluir que aquele nome não tem chances reais e, por isso, acaba votando em candidatos de outras regiões que aparentam maior viabilidade”.
Danilo ainda acrescenta que muitas candidaturas são lançadas como estratégia partidária, com interesses pessoais de colocar o nome em destaque para o futuro, sem que haja reais chances de vitória.
“É o caso de vereadores que sonham em candidatura a prefeito ou vice e que enxergam na eleição de deputado a oportunidade de consolidar seu nome e sua liderança política. Ou também como um aprendizado para futuras eleições. Outra razão está na necessidade dos partidos conseguirem preencher a nominata de candidatos e os votos mínimos necessários para garantir a eleição de um ou dois candidatos. Esta é uma estratégia usada pelos partidos menores”.
Na avaliação de Marcos, esse tipo de postura fragmenta votos, enfraquece a cidade e tem prejudicado Brusque ao longo dos anos, impedindo a construção de um projeto eleitoral sólido e coletivo.
“Sem articulação, sem centralização de votos e sem um compromisso real com a eleição, Brusque continuará ficando para trás na representação política estadual e federal. O candidato a deputado que entra na disputa já pensando apenas na própria reeleição como vereador acaba fragmentando votos e prejudicando diretamente a cidade”.
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