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Veja vídeo utilizado como uma das provas no segundo inquérito por importunação sexual contra padre Vicente, em Brusque

Reportagem também teve acesso à justificativa apresentada por ele no primeiro caso

O caso envolvendo o padre Vicente de Paula Neto avançou para uma fase decisiva na esfera criminal em Brusque e teve novos desdobramentos nos últimos dias, com destaque para a manhã desta quarta-feira, 4.

O jornal O Município, com informações do Jornal Razão, apurou novos detalhes da investigação.

A reportagem teve acesso inédito ao vídeo (assista ao fim da matéria) apontado como principal prova no caso que envolve um adolescente de 17 anos, além da justificativa detalhada apresentada pelo padre em relação ao primeiro episódio de importunação sexual a ele atribuído. O caso em questão envolve um jovem de 19 anos.

Conforme apuração exclusiva da reportagem já divulgada na terça-feira, 3, a Polícia Civil concluiu dois inquéritos e o Ministério Público de Santa Catarina (MP-SC) ofereceu denúncia formal pelos dois episódios. Os fatos teriam ocorrido em dias consecutivos, dentro do mesmo supermercado.

O caso agora aguarda análise do Poder Judiciário, que irá decidir sobre o recebimento da denúncia e o eventual prosseguimento da ação penal.

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A investigação ganhou repercussão pública em dezembro de 2025, quando a Delegacia de Polícia Civil da Comarca de Brusque confirmou o indiciamento do religioso em uma das ocorrências.

A partir disso, novos relatos, documentos e imagens permitiram a identificação de um segundo episódio, registrado no dia anterior.

Com base no conjunto de provas, a Polícia Civil reuniu os fatos em um único procedimento e concluiu pelo indiciamento do padre por duas condutas previstas no artigo 215-A do Código Penal, que tipifica o crime de importunação sexual.

Para organizar e contextualizar as informações, o jornal O Município elaborou uma cronologia detalhada do caso.

Como a investigação começou

As investigações tiveram início após o registro de um boletim de ocorrência relacionado a um jovem de 19 anos que trabalhava como atendente de uma loja localizada no interior de um supermercado no bairro Santa Rita.

De acordo com o jovem, o padre entrou no estabelecimento onde ele trabalha como atendente e permaneceu no interior da loja por cerca de oito minutos. O episódio foi registrado em 1º de outubro de 2025.

Desde a chegada, o comportamento chamou a atenção do denunciante, que afirmou ter visto o religioso, por diversas vezes, passar a mão e apertar por cima da calça, na região do pênis.

O atendente contou que, inicialmente, a conversa parecia comum, mas logo passou a gerar desconforto. Segundo ele, o padre manuseava um dos produtos da loja e fazia comentários que, somados aos gestos na região íntima por cima da calça e ao fato de encarar o funcionário, foram considerados “estranhos”.

“Ele ficava apertando o produto e dizia como era gostoso apertar. Em certo momento, enquanto mexia no órgão genital, ele perguntou que horas eu ia sair da loja. Questionei, de forma assustada, o motivo da pergunta e, então, ele desconversou, dizendo que queria saber que horas a loja fechava”.

O atendente afirmou que não conseguiu reagir no momento. “Ele me encarava o tempo todo e rapidamente fiquei muito apavorado. Não sabia o que fazer. Fiquei paralisado, tremendo, com ânsia de vômito”.

O jovem afirmou que só conseguiu registrar o boletim de ocorrência algumas horas depois, quando conseguiu se acalmar. Ele enviou o documento ao jornal para a conferência.

A partir desse registro, a Polícia Civil instaurou inquérito e passou a reunir provas, incluindo imagens de câmeras de segurança, depoimentos de funcionários, informações internas do supermercado e o interrogatório do padre.

Em depoimento, o padre negou qualquer intenção sexual. Ele afirmou que sofre de problemas dermatológicos, com crises de coceira intensa, especialmente na região íntima, e que os movimentos registrados nas imagens teriam sido reflexo desse desconforto físico, agravado pelo uso de medicamentos. Também declarou que se sentiu observado com desconfiança no local, o que teria aumentado seu constrangimento.

A Polícia Civil, porém, entendeu que as imagens indicariam gestos repetidos, direcionados à vítima e acompanhados de olhares fixos, o que afastaria a tese de um comportamento meramente casual ou involuntário.

Descoberta do segundo caso

Durante as diligências do primeiro caso, os investigadores identificaram indícios de um segundo episódio, com características semelhantes, ocorrido no dia anterior. Desta vez, o caso envolveu um adolescente de 17 anos, que trabalhava como caixa do próprio supermercado.

Segundo o inquérito, por volta das 12h35 daquele 30 de setembro, o padre se dirigiu ao caixa onde o adolescente atendia.

Segundo imagens de uma câmera de segurança, o padre realizou gestos de cunho sexual enquanto caminhava pelo supermercado, tanto no trajeto até o caixa quanto no momento do pagamento e após concluir as compras.

As imagens indicam comportamento semelhante ao registrado no dia seguinte, com movimentos por cima da região do pênis e olhares direcionados de forma contínua ao adolescente.

Após efetuar o pagamento das compras que fez, ele passou por trás do jovem. Em depoimento, o adolescente relatou que, durante o atendimento, o padre perguntou seu nome e a que horas encerraria o expediente, previsto para cerca de 30 minutos depois.

As semelhanças no estilo de abordagem, com perguntas de cunho pessoal somadas ao ato de colocar a mão na região íntima por mais de uma vez, praticamente idêntico ao utilizado no primeiro caso, chamaram a atenção dos investigadores.

De acordo com o relato, as perguntas não ocorreram de forma casual e causaram estranhamento imediato, especialmente por estarem associadas aos gestos observados nas imagens.

Ainda conforme a investigação, após finalizar as compras, o padre saiu olhando para trás (momento pode ser visto nas imagens) em direção ao adolescente e não deixou o local imediatamente.

Quando o adolescente saiu para "bater o ponto" no intervalo, percebeu que o mesmo homem permanecia do lado de fora do supermercado, "aparentemente o aguardando". A situação gerou medo e desconforto, levando o jovem a evitar qualquer aproximação.

O adolescente relatou o ocorrido a uma colega de trabalho, que o acolheu diante do estado de nervosismo apresentado.

A responsável legal informou à Polícia Civil que o filho contou os fatos no mesmo dia, ao chegar em casa. Inicialmente, a família optou por aguardar, mas decidiu procurar as autoridades após tomar conhecimento do primeiro caso investigado.

Nesse segundo episódio, diferentemente do primeiro, não consta nos autos uma justificativa apresentada pelo padre especificamente sobre os gestos atribuídos a ele.

Versão do padre no primeiro caso

Durante o depoimento prestado à Polícia Civil no âmbito da apuração do primeiro caso, o padre apresentou uma versão detalhada dos fatos e negou qualquer conduta de cunho sexual.

Segundo as informações a que a reportagem teve acesso, o padre afirmou que não se recordava do conteúdo específico das imagens citadas na investigação e relatou que, na data mencionada, esteve no local por motivos pessoais.

Segundo o depoimento, o religioso disse que costuma passar pelo supermercado quando retorna de Curitiba, principalmente para comprar produtos sem lactose, devido à intolerância alimentar.

Ainda de acordo com o padre, além de buscar produtos específicos, ele entrou na loja de artigos variados localizada dentro do supermercado com o objetivo de verificar o preço de um item de pelúcia que pretendia comprar como presente para a afilhada.

Ele relatou que já havia visto o objeto em outras ocasiões e que acabou adquirindo o produto naquele dia.

No depoimento, o religioso disse ter se sentido constrangido durante a permanência no local. Segundo ele, teve a impressão de estar sendo observado com desconfiança pelo atendente, como se houvesse receio de que pudesse furtar algum item.

Atribuiu essa percepção à forma como estava vestido, com capa preta por causa do frio e da chuva, além do uso de óculos escuros, que afirmou utilizar de forma constante por necessidade visual.

O padre negou ter feito qualquer ameaça, intimidação verbal ou abordagem de natureza sexual. Relatou que se limitou a perguntar o preço do item, se havia outras opções semelhantes e a fazer questionamentos comuns relacionados à compra. Disse ainda que não se lembra do rosto do atendente e que ficou surpreso ao tomar conhecimento da acusação.

Sobre os registros em vídeo que, segundo a investigação, indicariam gestos obscenos, o religioso afirmou não se recordar de qualquer comportamento dessa natureza.

Reconheceu que poderia ter tocado partes do próprio corpo de forma ocasional, mas atribuiu isso a um quadro de problemas dermatológicos, com coceira intensa, agravado pelo uso de medicamentos, como antifúngicos aplicados em diferentes regiões do corpo.

Segundo ele, não houve qualquer intenção de cunho sexual nesses gestos.

O depoimento também registra que o padre não frequenta o supermercado com regularidade, passando pelo local de forma esporádica, geralmente uma ou duas vezes por mês, quando retorna de Curitiba.

Na data dos fatos, segundo ele, a permanência foi maior do que o habitual em razão de um atraso na estrada e da necessidade de aguardar um contato para remarcar compromissos.

À época do depoimento, a Polícia Civil ainda não havia identificado o segundo episódio, que teria ocorrido no dia anterior.

A constatação posterior de que o padre esteve praticamente no mesmo local em dois dias consecutivos, apesar de relatar que frequenta o espaço apenas esporadicamente, chamou a atenção dos investigadores e passou a integrar a análise do caso.

Conclusão da Polícia Civil

Após a reunião dos dois episódios em um único inquérito, a Delegacia de Polícia Civil da Comarca (DPCO), responsável pela apuração do caso envolvendo o jovem de 19 anos, e a Delegacia de Proteção à Criança, ao Adolescente, à Mulher e ao Idoso (DPCAMI) de Brusque, que investigou a ocorrência envolvendo o adolescente de 17 anos, concluíram que há indícios suficientes de autoria e materialidade em ambos os casos.

Diante da semelhança entre os relatos, as ocorrências passaram a ser analisadas de forma conjunta. A avaliação levou em conta não apenas as imagens, mas também o contexto dos fatos e o teor das conversas, consideradas fora do habitual, mantidas inicialmente com os dois jovens.

A apuração permitiu aos investigadores identificar um padrão de conduta. Com isso, os episódios foram reunidos em um único procedimento e resultaram no indiciamento do padre pelo crime de importunação sexual, cuja pena prevista pode chegar a cinco anos de prisão.

No relatório final, a polícia destacou a convergência de informações quanto à presença do investigado nos locais e datas dos fatos, além da repetição do comportamento, com gestos semelhantes, olhares direcionados e perguntas sobre os horários de saída das vítimas.

O documento também apontou que a versão apresentada pelo padre, baseada em problemas de saúde, não afasta, em tese, o dolo. Segundo os investigadores, a conclusão considera a repetição das condutas, a duração dos episódios e a associação com perguntas consideradas invasivas.

Com isso, a DPCO, que apurou a primeira denúncia, determinou o indiciamento do padre por dois crimes de importunação sexual e encaminhou o inquérito ao Ministério Público de Santa Catarina (MP-SC). A pena prevista para esse tipo de crime pode chegar a cinco anos de prisão.

Atualmente, nenhum dos dois jovens trabalha nos locais onde atuavam na época dos fatos.

Ministério Público oferece denúncia

Após receber o inquérito, o MP-SC, antes de oferecer a denúncia, propôs ao investigado um acordo de não persecução penal, mecanismo legal que permite evitar o prosseguimento da ação penal mediante o cumprimento de condições. O benefício, no entanto, foi recusado.

Diante da negativa, o órgão apresentou denúncia à Vara Criminal da Comarca de Brusque. O promotor destacou as imagens de câmeras de segurança como prova central e sustentou que os atos teriam sido praticados sem consentimento, com a finalidade de satisfazer a lascívia própria.

Situação atual

Desde o início da apuração do primeiro caso, em dezembro de 2025, o jornal O Município publicou uma série de reportagens exclusivas sobre o assunto.

As matérias trataram da identificação do padre, de manifestações da Comunidade Bethânia, onde ele atuava como coordenador, e do posicionamento da Diocese de Guarapuava.

De forma cautelar, a diocese determinou a proibição temporária do exercício público do ministério sagrado por parte de Vicente. Ele também foi afastado da Comunidade Bethânia, onde ocupava um cargo de coordenação havia vários anos.

Na prática, a medida impede o religioso de celebrar missas, administrar sacramentos, presidir cerimônias religiosas, realizar pregações ou atuar oficialmente como padre em atividades públicas ou institucionais.

Com o oferecimento da denúncia, o processo foi encaminhado ao juiz responsável, que irá decidir sobre o recebimento da ação penal. Caso a denúncia seja aceita, será marcada audiência de instrução e julgamento, com a oitiva das partes, das testemunhas e a análise das provas.

Ao final, caberá ao Judiciário decidir pela absolvição ou condenação.

Até o momento, o padre não se manifestou publicamente após o oferecimento da denúncia.

O jornal O Município reforça que o espaço segue aberto para manifestação das partes citadas.

Assista ao vídeo utilizado no segundo inquérito