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Cemitério municipal de Brusque está próximo do limite de capacidade

Prefeitura tenta driblar falta de recursos e tirar do papel projeto de verticalização do Parque da Saudade

Cemitério municipal de Brusque está próximo do limite de capacidade

Prefeitura tenta driblar falta de recursos e tirar do papel projeto de verticalização do Parque da Saudade

Segundo a Prefeitura de Brusque, o cemitério municipal Parque da Saudade, localizado na rua Bulcão Viana, está próximo do limite da sua capacidade de recebimento de novas sepulturas, e um novo projeto precisa ser pensado para evitar a superlotação.

Conforme o coordenador do cemitério, Robison Luis Koschnick, a capacidade deve se esgotar “em alguns anos”. “Realmente, não vai levar muito tempo e não vai ter mais espaço para colocar sepulturas”, afirma.

Isso se deve à alta taxa mensal de sepultamentos no Parque da Saudade. Enquanto na maioria dos cemitérios de Brusque consultados pela reportagem são realizados de dois a 15 sepultamentos mensais, no cemitério municipal a média é de 30 a 35.

Na prática, são entre 360 e 420 sepultamentos por ano. O cemitério municipal, portanto, absorve a maior fatia de sepultamentos do município, considerando as estatísticas de registro civil do IBGE, as quais indicaram a ocorrência de 682 óbitos em Brusque no ano de 2015, conforme o último relatório divulgado.

Não se pode precisar o tempo, mas não vai muitos anos. Temos sepulturas para 30 dias, e aí vamos fazendo mais”, explica o coordenador. Atualmente, novas sepulturas estão em construção, na última área que ainda resta para isso.

A gestão do cemitério trabalha sempre com 30 dias de antecedência: ou seja, é necessário construir mensalmente. Visivelmente, há poucos espaços vagos no Parque da Saudade.

Em uma visita, o coordenador levou-nos à parte mais aos fundos do cemitério, onde há um último descampado que pode ser utilizado para implantação de túmulos. Trata-se, porém, de espaço pequeno, que também se esgotará em alguns anos.

Em último caso, pode se usar ainda as partes dos canteiros gramados que separam as estradinhas que cortam o cemitério, mas também se tratam de espaços reduzidos.

A necessidade de ampliação da capacidade do cemitério municipal está no radar da prefeitura pelo menos desde 2014, durante o governo Paulo Eccel.

Naquele ano, foi montado pelo Instituto Brusquense de Planejamento (Ibplan) um projeto básico para ampliação de capacidade, por meio da sua verticalização. Segundo o prefeito Jonas Paegle, esse projeto não chegou a ser discutido por nenhuma das gestões que o antecederam.

Ele afirma, em ofício no qual responde questionamento do vereador Leonardo Schmitz (DEM), que levar à prática esses estudos de ampliação depende de disponibilidade financeira do município, por se tratar de um empreendimento de alto custo.

O assunto vem sendo discutido desde a gestão de 2014, sem, contudo, ter sido apontada uma solução conclusiva”, diz o prefeito, no documento enviado à Câmara.

Paegle explica que, pelo fato de que a atual área do cemitério está quase no limite de sua ocupação, isso deve se tornar uma das prioridades na agenda do governo. Porém, prioridade não quer dizer urgência.

Questionada sobre datas para levar o projeto a cabo, a Secretaria de Comunicação diz que não há previsão. Por e-mail, informou que o atual projeto se trata de um estudo prévio, e que a prefeitura precisará contratar um projeto executivo.


Novo projeto prevê 790 jazigos adicionais

O projeto elaborado pelo Ibplan, ao qual O Município teve acesso, sugere a ampliação vertical do Parque da Saudade, por meio de construção de 790 novos jazigos – sendo 525 lóculos (gavetas) na primeira etapa, e mais 256 lóculos na segunda etapa, além de um ossário com capacidade para 318 urnas.

Para elaborar o projeto, o Ibplan se inspirou em modelos já existentes, como o cemitério vertical de Curitiba, o qual possui seus lóculos dispostos em galerias dentro de prédios.

Nesse modelo, o defunto não tem contato com o solo. Também foi usado como base do projeto o cemitério vertical de Joinville, o que mais se aproxima do modelo proposto para Brusque.

Os lóculos (gavetas) do cemitério vertical de Curitiba, que servem de modelo para o projeto de Brusque | Foto: Divulgação

Isso porque, conforme o projeto, a ideia é ter um cemitério vertical a céu aberto, como o da cidade do norte catarinense, com estrutura em concreto armado impermeabilizado, e gavetas de um metro de largura por 55 centímetros de altura, e 2,45 metros de profundidade. O teto da estrutura, conforme o modelo, seria ajardinado.

Para que tudo isso saia do papel, entretanto, é preciso um alto volume de recursos. O orçamento da primeira etapa da obra, de acordo com planilhas do Ibplan, era estimado em R$ 538,3 mil em outubro de 2014, conforme tabela de preços da época. Não foi informado, no documento obtido por O Município, o orçamento prévio da segunda etapa do projeto.

O valor arrecadado pela prefeitura com as taxas do cemitério é insuficiente para bancar o projeto de ampliação. Em 2017, até agosto, foram R$ 97,8 mil. No entanto, esse montante varia bastante: em 2016, por exemplo, só foi arrecadado R$ 18,4 mil.

O cemitério vertical de Joinville, com lóculos a céu aberto, é o que mais se aproxima do modelo previsto para Brusque | Foto: Divulgação

Esses valores referem-se às taxas de utilização do cemitério, que cobra R$ 500 para o sepultamento, R$ 150 pela renovação a cada cinco anos, e R$ 500 para exumações.

Nos últimos quatro anos, o valor total arrecadado com esses serviços foi de pouco mais R$ 200 mil, de acordo com dados informados no Portal de Transparência da prefeitura, o que seria insuficiente até para a folha de pagamento de quem lá trabalha.

Somente de salários e encargos de dois servidores – coordenador e vigia – a prefeitura gasta em média R$ 75 mil anuais, considerando os respectivos salários de R$ 4,2 mil e 1,5 mil dos funcionários.

Arrecadação do cemitério municipal

Ano Valor em R$
2017* 97.850,94
2016 18.440,00
2015 64.050,00
2014 20.470,00
2013 não informado
2012 6.130,00

*até agosto


Cemitérios católicos vivem situações diferentes

Se o cemitério municipal ficar lotado, outras opções são os cemitérios sob responsabilidade das igrejas – católica e luterana. A alta ocupação do Parque da Saudade é observada em alguns, mas não em todos os casos.

A administração do cemitério do bairro Santa Terezinha, por exemplo, já fez consultas à Prefeitura de Brusque com vistas a aumentar o espaço para construção de sepulturas.

No entanto, segundo a paróquia, por ora, não há nenhuma dificuldade relativa à falta de espaço para novos sepultamentos.

O caso mais confortável é o do cemitério do bairro Guarani, mantido pela Capela Sagrado Coração de Jesus. O responsável pelo local, Guilherme Dietrich, informa que o atual espaço pode ficar até quatro ou cinco vezes maior, para o recebimento de sepulturas, caso seja necessário.

Estamos fazendo a licença ambiental e também o projeto para ver quanto tempo a gente tem [de capacidade de sepultamentos]”, explica Dietrich. “A gente tem bastante terreno para aumentar, quatro ou cinco vezes o tamanho do cemitério”.

No local, ele explica, há alguns anos já são adotadas medidas para melhorar a sustentabilidade do aproveitamento do solo. As sepulturas simples, mais antigas, já não são mais construídas: todas são duplas, para que fiquem duas pessoas no mesmo túmulo.

Prática comum algum tempo atrás, a reserva de uma sepultura ao lado de outra para casais, por exemplo, também já não é mais praticada. Além disso, no cemitério do Guarani também é registrado uma baixa taxa de sepultamentos: em torno de um a dois mensais, segundo a administração.

Taxa de sepultamentos maior é registrada no cemitério do bairro Águas Claras, também mantido pela paróquia local. Lá, são em média 15 sepultamentos mensais – metade do cemitério municipal.

Conforme o coordenador do cemitério, Gilberto Cardeal, há somente cerca de 30% do espaço ainda não ocupado, o que motiva a necessidade de já se pensar em modificações para curto e médio prazo. Ele afirma que o espaço está sendo reorganizado para que não haja mais sepulturas simples, mas duplas, assim como no Guarani.

Então a gente está administrando para economizar, eu creio que dá para uns oito ou dez anos por aí”, afirma Cardeal, o qual ressalta que não há mais espaço para ampliação do cemitério. “Aí temos que ver como vamos fazer, reaproveitar, fazer outro tipo de gaveta”.


Cremação ainda é tabu no município

A Igreja Luterana de Brusque possui hoje, em seu cemitério, o único columbário da cidade – espaço destinado ao sepultamento de cinzas. Entretanto, o local, inaugurado há quase dois anos, tem sido pouco utilizado. Atualmente, das 176 urnas, somente quatro estão ocupadas.

A cremação é a alternativa mais viável para manter a sustentabilidade dos sepultamentos, segundo o pastor Cláudio Scheffer, da Igreja Luterana.

Ele explica que o cemitério da igreja está também próximo da capacidade máxima. Hoje, são 1074 sepulturas ocupadas, e apenas 57 sepulturas livres, com capacidade de expansão de mais 110.

O columbário para sepultamento de cinzas do cemitério da Igreja Luterana: em dois anos, apenas quatro das 176 urnas foram ocupadas | Foto: Juliana Eichwald/Arquivo O Município

Trata-se de um espaço centenário, que é exclusivo para os fiéis luteranos, mas que está próximo do esgotamento. “Na Europa esse é um problema que eles já resolveram”, afirma o pastor Cláudio. “Não acontece mais o sepultamento tradicional”.

Segundo ele, porém, há resistência das pessoas em aceitar a cremação como uma prática cristã, o que faz com que o sepultamento das cinzas ainda seja tabu no município, fato que contribui para a superlotação das sepulturas convencionais.

Para o pastor Cláudio, contudo, a cremação é um caminho sem volta, até porque, se os sepultamentos tradicionais continuarem no mesmo ritmo, em breve o lençol freático estará todo contaminado.

Ele afirma ainda que a cremação não fere a fé cristã. “O processo da volta ao pó da terra só é acelerado”, diz.

Enquanto isso, o sepultamento tradicional continua sendo a principal opção dos brusquenses. Tanto é que, segundo o Instituto Brusquense de Planejamento (Ibplan), sequer há qualquer consulta de viabilidade formalizada para implantação de crematório em Brusque, justamente pela baixa popularidade deste modelo de sepultamento.

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