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Conversas Praianas — Inquilino de Temporada

Janeiro terminou e o pico da temporada na “Dubai brasileira” também já passou. Agora, a vida no Alvorada do Atlântico está mais tranquila, sem aquela agitação e o ambiente tumultuado do final e dos primeiros dias do ano, quando cadeiras e mesas eram disputadas a tapas. A tribo das mulheres voltou a se reunir para colocar as fofocas em dia. E o assunto não poderia ser outro, senão o ambiente tumultuado que tomou conta do condomínio em janeiro.

Infelizmente, tem sido assim nos últimos anos. Para aumentar a renda da família, alguns proprietários alugam os seus apartamentos a preço de ouro durante a temporada. Na virada do ano, então, com show pirotécnico e outras atrações, o preço do aluguel sobe às alturas dos espigões de concreto e vidro. Afinal, veranista que quer vista para o mar tem de pagar caro pelo privilégio de acordar de manhã, contemplar a imensidão oceânica perdendo-se na lonjura do horizonte e as ondas se esparramando sobre a areia da praia.

Se o preço assusta, dividem o aluguel para aliviar o bolso. Então, esses veranistas de poucos dias chegam em tribos de mais de uma dezena, para aproveitar ao máximo os prazeres praianos. E o condomínio vira uma bagunça. Quando não estão em pane, os elevadores demoram e passam lotados. O salão de festas está sempre ocupado para churrascadas e jantares, geralmente à moda centro-oeste, o eldorado dos grãos e ao som da música sertaneja.

Nas áreas comuns, a confusão é grande, com gente desconhecida perdida nos corredores à procura da porta da piscina, onde reina a maior confusão. O deque é uma verdadeira Babilônia, tomado por veranistas que não se conhecem e que se olham desconfiados, em busca de uma cadeira para se sentar. A piscina, então, transborda, fica lotada. É tanta gente, quase um banhista por metro quadrado, que ninguém se mexe, nem pode nadar, muito menos mergulhar.

Muitos condôminos se sentem prejudicados no seu direito de conviver em paz e tranquilidade. Dizem que compraram o seu apartamento para viver numa comunidade de pessoas conhecidas, amigas, com interesses comuns, como se formassem uma família. E reclamam da chegada dessas aves de arribação que não respeitam as regras condominiais e que só fazem baderna.

Numa assembleia do condomínio, as discussões sobre o assunto incendiaram a reunião. Quando o síndico explicou que não se podia proibir a presença de inquilinos de temporada nas áreas comuns, incluindo a piscina, alguns mais exaltados quiseram destituí-lo do cargo.

Os condôminos mais cordatos evitam reclamar do problema. Conformados, dizem que o barulho, a confusão e o ambiente congestionado são passageiros e que, passada a temporada, a vida no condomínio voltará à normalidade. Então, a partir de fevereiro, os problemas serão outros. De qualquer forma, a vida em condomínio, mesmo frente ao mar, nem sempre é um mar de rosas.