Há mais de uma década neurocientistas estão tentando desenvolver uma vacina contra a doença de Alzheimer. Atualmente existem ao menos três estudos que estão em fase clínica 3 e as expectativas são altas. Essas vacinas visam eliminar a proteína beta- amiloide, uma das substâncias que se acumula em grande quantidade no cérebro das pessoas com Alzheimer.
É provável que diminuindo o acúmulo dessa substância no cérebro a doença possa ser controlada ou desacelerar sua habitual progressão. Se os resultados positivos se confirmarem é provável que essa vacina possa ser eficaz quando aplicada precocemente na população com fatores de risco para Alzheimer e dessa forma evitar o aparecimento desse mal.
Não há dúvidas que seria um dos grandes avanços da medicina do século XXI.
Se temos a certeza que a ciência avança, mesmo a passos lentos, olhamos com bastante ceticismo a forma em que esses avanços estão sendo recebidos por uma parcela da população. As vacinas tem sido atacadas com frequência cada vez maior por grupos organizados.
Houve na semana passada uma marcha contra as vacinas em Pomerode, encabeçada por algumas autoridades. Embora a motivação seria uma manifestação contra a vacinação obrigatória para Covid-19 em crianças, não podemos esquecer que esses movimentos acabam atingindo a credibilidade das vacinas como um todo.
É por causa disso que logo após a pandemia a população brasileira passou de uma cobertura vacinal maior a 90% a uma cobertura perto de 60%. Um nível tão baixo que coloca a população em risco do retorno de doenças que estavam controladas.
Na minha infância, doenças hoje controladas pelas vacinas, eram muito frequentes. Sarampo, coqueluche, caxumba, poliomielite, catapora e varíola eram o dia a dia dos médicos. Sofri de varíola na primeira infância, todos meus irmãos também. Dá para imaginar o desespero das mães ao ver seus filhos vítimas de uma doença que matava um de cada quatro acometidos.
Ver mães com crianças presentes numa marcha contra as vacinas me leva a pensar que algo de muito errado está acontecendo. Não posso considerar isso normal quando durante meus tempos de escola tive colegas cadeirantes devido a sequelas da poliomielite.
Os movimentos antivacina não são inócuos. A poliomielite é uma doença que poderia estar extinta desde 2007, esse era o projeto da OMS. Isso não foi possível porque após o atentado terrorista das torres gêmeas em 2001 disseminou-se uma onda de sentimentos antivacinas na África.
Circularam notícias falsas dizendo que a vacina era uma arma secreta para eliminar muçulmanos. Será que esses movimentos são apenas o fruto da falta de conhecimento sobre a evolução da ciência e a ignorância em reconhecer que a vacinação é um tratamento que beneficia a toda uma coletividade.
Não consiste num tratamento apenas individual. Quem toma uma vacina está protegendo os seus semelhantes, é também um ato solidário e de empatia. Talvez duas qualidades muito em falta nos dias atuais.
O município vizinho teve seu dia de “Revolta da Vacina”, a conhecida rebelião da população do Rio de Janeiro em 1904 contra a vacinação obrigatória contra a varíola implementada pelo sanitarista Osvaldo Cruz, no governo do então presidente Rodrigues Alves.
Não precisamos dizer quem tinha razão e quem venceu esse embate, basta lembrar que durante um novo surto de varíola em 1909 a população exigiu as vacinas e fez fila para se vacinar voluntariamente.
Oswaldo Cruz é nome de rua em todas as capitais, nome de renomado instituto científico, nome de cidade e é respeitado pela ciência brasileira e mundial. Ninguém lembra sequer o nome de uma das autoridades ou personagens que na época tentaram negar sua capacidade e manchar sua reputação.
Há um provérbio do povo nativo norte-americano Dakota que calça como uma luva para essa turma negacionista da ciência e antivacinas: “Quando descobres que estás montando um cavalo morto, a melhor estratégia é desmontar”.