“Não estou preparado para assumir um cargo de tamanha importância”, diz Ingo Fischer

Ingo Fischer fala dos motivos que o fizeram retirar sua candidatura a prefeito de Brusque; com decisão, Roberto Prudêncio é candidato único

“Não estou preparado para assumir um cargo de tamanha importância”, diz Ingo Fischer

Ingo Fischer fala dos motivos que o fizeram retirar sua candidatura a prefeito de Brusque; com decisão, Roberto Prudêncio é candidato único

A três dias da eleição indireta que definirá o novo prefeito e vice de Brusque, o cenário eleitoral do município deu mais uma volta. Os então candidatos aos cargos, Ingo Fischer e Juarez Piva – ambos do Partido Progressista (PP) -, alegando a ilegalidade da alteração na lei orgânica do município, aprovada em segunda votação na tarde de ontem [leia a reportagem na página 6], decidiram retirar as suas candidaturas ao pleito.

Com isso, a eleição desta quinta-feira, 30, contará com apenas uma chapa: a do prefeito interino Roberto Prudêncio Neto (PSD) e de Danilo Rezini (PMDB). Basta agora que a candidatura que restou obtenha a maioria absoluta – oito votos – em primeira votação, para ser eleita para comandar a cidade nos próximos 19 meses.

Durante o fim de semana, rumores já davam conta da possível desistência dos candidatos progressistas. O presidente da sigla, Evandro de Farias, o Farinha, afirma que a retirada da candidatura foi um consenso do partido. “Não concordamos com essas mudanças no meio do jogo. Temos um grande nome dentro do partido que é o seu Ingo Fischer, e não queremos deixar ele sujeito a todas essas articulações. Achamos melhor deixar tudo como está, e posteriormente apresentar a nossa proposta para a população decidir”, diz.

O presidente do Partido dos Trabalhadores (PT), Felipe Belotto, lamenta a decisão tomada pelos progressistas. “A cidade fica sem opção nesta eleição indireta”, diz.

Para ele, a decisão do PP pode ser considerada precipitada. “Acredito que o partido era legítimo, inclusive, para questionar judicialmente essa proposta de emenda que está acontecendo na Câmara. É uma pena que isso aconteceu”.

O PT apoiou desde o início as candidaturas de Fischer e Piva, que, inclusive, tinham a garantia de quatro votos vindos dos vereadores petistas. No entanto, Belotto ressalta que o partido não foi consultado sobre a desistência. “Tivemos alguns interlocutores que foram comunicados sobre essa possível decisão, mas não foi uma coisa decidida conjuntamente, não fomos ouvidos a respeito disso”.

Com o novo cenário, Belotto afirma que os vereadores que compõem a bancada petista na Câmara de Vereadores, devem seguir a orientação do partido e anular o voto na quinta-feira.

Sell: “Com o ato ele acerta dois alvos”

O doutor em Sociologia Política e professor da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), Carlos Sell, analisou a reviravolta no cenário politico brusquense.

Para ele, a decisão do PP de retirar as candidaturas pode estar fundamentada em dois motivos. “Em primeiro lugar, a candidatura tinha difíceis chances de vencer, dado o posicionamento dos vereadores. É uma forma de evitar a derrota. Em segundo lugar, a eleição indireta é fortemente criticada pela população que vê nesse mecanismo uma forma de cassar seu direito de votar. Ao retirar sua candidatura e colocar todo o processo de escolha sob suspeita legal, Ingo Fischer abre caminho para aprofundar ainda mais o déficit de legitimidade do futuro prefeito interino que, além de não ter respaldo popular, não terá passado nem sequer por uma disputa com outro candidato”.

Sell acredita ainda que com o ato, Fischer acerta dois alvos. “Ele preserva seu nome e fere com um golpe de legitimidade o seu adversário. No conjunto, tal decisão vai tumultuar ainda mais o ambiente político e acirrar os ânimos da cidade que está profundamente dividida”.

Fischer: “Fui assediado, por não dizer pressionado para que colocasse meu nome à disposição”

Foi por meio de uma nota de esclarecimento enviada à imprensa na tarde de ontem que Ingo Fischer explicou os motivos que o levaram a retirar a sua candidatura ao cargo de prefeito de Brusque.

O empresário afirma que sofreu pressões para por seu nome à disposição do partido e disputar a eleição indireta. “Como o prazo para a realização de registro de chapas era exíguo, fui assediado, por não dizer pressionado para que colocasse meu nome à disposição e disputasse esta eleição para cumprir um mandato tampão de um ano e oito meses”, diz a nota.

Segundo ele, vereadores, empresários e pessoas comuns manifestaram apoio à sua candidatura, então resolveu aceitar. “Acabei por aceitar o convite para encabeçar a chapa indicada pelo meu partido PP, uma vez que vários vereadores da oposição, de forma voluntária, garantiam que estariam aliados conosco, mesmo porque estávamos abertos a oferecer candidatura à vice-prefeito a essas pessoas e que eles resolvessem entre si qual o nome de consenso”.

No entanto, após o anúncio de sua candidatura, Fischer afirma que os fatos foram diferentes do que se anunciava. “Em poucos dias comecei a sentir que a conversa ia mudando, desculpas iam surgindo, com argumentações totalmente despropositais, como também propostas que se eu aceitasse, não seria digno de ser prefeito de uma cidade com a importância econômica de Brusque. Confesso que não estava e não estou preparado para assumir um cargo de tamanha importância, sendo refém de pessoas que colocam seus interesses pessoais muito acima do coletivo. Fiquei impressionado com o desprezo demonstrado pelas necessidades da população”.

A nota expressa ainda a opinião do empresário sobre a vontade da maioria dos vereadores em alterar a lei orgânica do município e tornar a votação aberta, e também os rumores de que estaria trocando cargos por votos. “Esta atitude demonstra claramente o clima de desconfiança um nos outros, dentro de um determinado grupo de pessoas. O ambiente que se formou, e os acertos para lotear cargos na prefeitura, ao estilo governo federal, pouco importando a qualificação das pessoas, realmente não coaduna com o que entendo por ética e senso de responsabilidade. Chegaram a alegar que se a eleição não fosse aberta, eu iria pagar pelos votos necessários para minha eleição. Além de desrespeitar a todos, este grupo também demonstrou que, por serem expert neste lamaçal, acham que também sou. Respondo que meus recursos são destinados a prover minha família e ao desenvolvimento de nossa empresa [Irmãos Fischer], que hoje é a maior empregadora e a maior arrecadadora de impostos do município de Brusque”.

Fischer afirma que retira seu nome do pleito pelo mandato tampão “aguardando uma reforma política que torne um pouco mais decente as disputas eleitorais no Brasil, para aí sim, expor meus projetos diante de 70 mil eleitores que irão decidir se mereço ou não, comandar os destinos no nosso município pelo tempo que a lei determina. O que não posso é colocar meu nome e minha história sob o julgo de pessoas cujo caráter e interesses não condizem com os meus”.

Ele encerra a nota pedindo a compreensão da população. “Espero de coração, que as pessoas de bem compreendam as minhas razões. Se um dia tiver a oportunidade poderei de cabeça erguida, olhar nos olhos de cada um e respeitosamente pedir seu voto. Por hora, continuarei a não medir esforços em trabalhar para gerar mais empregos e garantir assim um futuro melhor para todos que aqui depositam as suas esperanças”.

Piva: “Saímos antes porque não concordamos com a mudança no edital”

Após protocolar o registro de desistência de sua candidatura, o advogado Juarez Piva, então candidato a vice-prefeito, concedeu uma entrevista ao Município Dia a Dia.
Segundo ele, a principal motivação para a desistência foi a mudança das regras da eleição. “Nós vivemos num estado democrático de direito, e num estado democrático de direito, uma das coisas primordiais é o respeito à lei. Nós não somos nem contra, nem a favor de voto aberto ou secreto. Agora, se publica um edital e uma resolução administrativa como a Câmara publicou, dizendo que a regra do jogo era aquela, inclusive com voto secreto, por que a mudança agora?”, questiona.

Para ele, a alteração na lei orgânica – que autoriza o voto aberto na eleição de quinta-feira – deveria ter sido feita antes da publicação do edital com as regras sobre a eleição. “Eles publicaram o edital com as regras do pleito, e a própria Câmara se encarregou de não cumprir o edital por ela publicado. Se nós continuássemos nisso, estaríamos dando legitimidade a um ato ilegítimo, por isso, desistimos”.

O advogado nega que a chapa formada por ele e Fischer teria mais chances se o voto se mantivesse secreto. “Para nós, era indiferente se o voto seria aberto ou secreto, o que queríamos eram regras claras e cumpridas até o final”.
Piva afirma ainda que a retirada da candidatura antes da segunda votação da emenda à lei orgânica foi estratégica. “Não esperamos, justamente, para mostrar que para nós, era indiferente o voto aberto ou secreto. O que pesou foi a mudança nas regras do jogo. A Câmara que não respeita o seu edital, gera uma questão de falta de credibilidade jurídica. Não tínhamos mais garantia jurídica do processo, por isso, saímos antes da decisão”.

O advogado diz que a decisão de retirar a candidatura foi pensada e amadurecida com muito cuidado. “Quando eles vieram com essa modificação, foi uma coisa tão estúpida que nós precisamos de tempo para pensar o que fazer. O Ingo pensou, eu pensei, ficamos amadurecendo a ideia, e por fim, decidimos”.

Questionado se a decisão tardia não tirou a chance de outra liderança dentro do PP colocar seu nome à disposição para ir à disputa até o final, Piva afirma que “houve um consenso dentro do partido, em nome dessas duas pessoas que estavam encabeçando a chapa. Até foi oferecido a outras pessoas dentro do partido, eu, por exemplo, me vinculei em cima do dia 10 de abril porque a minha condição de vice estava aberta. Se tivesse alguém dentro do partido que quisesse mesmo ser candidato, a minha vaga seria destinada a essa pessoa, mas não apareceu ninguém”, declara.

Piva também garante que a decisão não foi uma manobra para facilitar a eleição de Prudêncio. “Não olhamos desta maneira. Não é uma questão de entregar a eleição. O que pesou muito na nossa consciência foi: mantemos a candidatura e damos respaldo a esse ato ilegal que aí está ou vamos demonstrar que estamos insatisfeitos com a mudança da regra do jogo e que não queremos dar legitimidade a um ato ilegítimo”.
Relação com Jean Pirola

Piva comentou ainda a relação do partido com o presidente em exercício da Câmara, e membro do PP, vereador Jean Pirola – que na convenção do partido foi um dos poucos a se mostrar insatisfeito com as candidaturas de Fischer e Piva.

De acordo com ele, há um conflito dentro da sigla e o futuro do vereador dentro do partido depende apenas de sua vontade. “Não contávamos com o voto dele, porque a sua posição sempre foi muito clara. Agora, vamos ver o que acontece daqui pra frente, se ele vai continuar conosco, ou se vai procurar uma via própria. Ninguém está querendo expulsá-lo do partido porque aí não seria um ato democrático. Temos que respeitar a vontade dele, mas essa é a realidade. Ficou uma situação de conflito. Eu até procurei ele na época, quando sai de vice, e perguntei se ele poderia me ajudar, ele nem perguntou no que consistiria essa ajuda, não quis saber”.

Candidatura em 2016

Piva afirma que o seu nome e de Ingo Fischer estão cotados pelo partido para disputar a eleição de 2016. Para ele, a dupla tem um cenário favorável pela frente. “Pretendemos porque a pesquisa que foi realizada e publicada pelo jornal Município Dia a Dia, nos mostra que a nossa candidatura é amplamente favorável. De um lado, vemos alguém que está exercendo o cargo de prefeito, está na mídia, o vice concorreu a deputado, era presidente do Brusque Futebol Clube, então é muito conhecido. E de outro, um empresário e um advogado que vivem dentro de quatro paredes, e mesmo assim, conseguimos um índice muito interessante, o que demonstra que com o apoio do partido, essa chapa tem possibilidade de ganhar uma eleição direta”.

O advogado acredita ainda que a desistência das candidaturas agora não deve refletir negativamente na imagem de uma provável candidatura da dupla no próximo ano. “É uma questão eminentemente jurídica, e além de tudo, ética. Hoje, o eleitor não se sente prestigiado, o político ou alguém com aspiração a um cargo público tem que demonstrar que vem com uma proposta diferente, não podemos ser iguais, queríamos ser diferentes, por isso, a desistência”.

Processo eleitoral continua o mesmo

O presidente do Legislativo, vereador Jean Pirola, afirma que o processo eleitoral continua igual, mesmo com a desistência de uma das duas chapas concorrentes. Segundo ele, Roberto Prudêncio Neto ainda terá os 30 minutos destinados a expor suas propostas antes da votação. O candidato também permanece com o direito de levar seus convidados para assistir a votação no plenário. A população poderá assistir a votação pelo telão que será instalado no lado de fora da Câmara de Vereadores.

Pirola explica ainda que o número de votos necessários para dar a vitória à chapa única também não se altera. “Em primeira votação, eles precisam da maioria absoluta, ou seja, o total de oito votos para se eleger. Se ele não atingir oito votos, vai para o segundo turno, e então se elege com maioria simples, ou seja, basta apenas um voto para se eleger”.

O presidente da Câmara ressalta ainda que a eleição poderá ser adiada apenas se não houver quórum na votação. “A abertura da sessão tem que ter, no mínimo, dez vereadores. Enquanto não chegar o décimo vereador, a sessão não começa. Se não tiver o décimo vereador, sou obrigado a marcar uma nova data para a eleição”.

 

 

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