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40 anos depois: a contenção de cheias no rio Itajaí-mirim

Um tema desagradável de governança é a contenção de cheias em Brusque, porque esquecemos a tragédia de 1984, na cota de 11m. Ouço lendas de que as cheias ocorrem de 100 em 100 anos; foi assim em 1911, na cota 9m. Vendo a COP 30, penso que a proteção de tragédias passa desacreditada, aqui está tudo bom, tem canal extravasor, alargamos as marginais do rio, fizemos galerias de macrodrenagem, optamos pela barragem de Botuverá! O risco existiria na cabeça dos que estudam a mudança climática, certo?

Resgato o 1º estudo científico de cheias em Brusque, o ‘Projeto FATEC-UFSM de contenção de enchentes no rio Itajaí-mirim’, assinado pelo Dep. Engenharia e Hidrologia de Santa Maria, em 1986. Foi encomendado pelo Pref. Celso Bonatelli com a finalidade de determinar a fragilidade no uso e ocupação do solo das cidades do Rio Itajaí Mirim, no qual foram levantadas 26 ações de equilíbrio do ecossistema pela infiltração de 50% das chuvas que levam a tragédias.

As cheias futuras teriam sua cota máxima sem perigo de afetar a população ribeirinha, dizem os engenheiros. As enchentes nascem na cabeceira do rio e a solução barata é a infiltração de águas no solo. O relatório do Eng. José Sales da Rocha identificou que, à jusante de Brusque – rio acima, o problema era o avançado desmatamento de encostas para o cultivo do fumo e a exploração do calcário. A vazão de águas havia aumentado de 173m3/seg em 1966 para 390m3/seg em 1984. E a cobertura vegetal de 65,8% em 1966 teria caído para 43,5% em 1984. O estudo revelou que as matas diminuíam 2% ao ano.

A economia regional mudou de lá para cá, mas Brusque continua a 4ª cidade brasileira com maior risco de desastres naturais, em 2023. A abertura do ‘canal extravasor’ entre as pontes Estaiada e Arthur Schlösser, embora içada em 2m para maior vasão, torna-se ineficaz na cota 8m. A última cheia atingiu 12m! Nem estação telemétrica existia na época! Nossas marginais do rio estão a provocar o aumento da velocidade de águas, com risco de tragédia como foi a do Rio Guadalupe, no Texas, em 2025, que matou 27 crianças no acampamento Camp Mystic Kerrville, tendo o rio subido 8m em apenas 45 min.

Aqui as margens do rio estão sem vegetação e várias encostas de morro a céu aberto. No círculo acadêmico, ouço botânico usar o termo ‘brusquerização’ para exemplificar como não desmontar os morros e aterrar baixadas em áreas próximas do rio. A ACAPRENA tem divulgado o modelo ‘cidade esponja’ contra cheias. Refere-se à cidade planejada para absorver, reter e reutilizar a água pluvial por meio de soluções baseadas na natureza, como áreas verdes, pavimentos permeáveis, e tanques de retenção de chuvas em condomínios.

E as barragens? Acolho a barragem de Mirim Doce e Botuverá, mas espero serem executadas medidas a mais, frente à mudança climática. A reforma de Ituporanga custou R$ 23 milhões em 2025, e precisará das barragens de José Boiteux e Taió para funcionar. Já o Projeto JICA sugeriu a retenção de entulhos do rio e zero de erosão do solo, os causadores da tragédia de Blumenau em 2008, com 24 mortes!

O estudo da UFSM 1986 recomendou o manejo integrado da sub-bacia do Mirim em relação à contenção de cheias e apontou o replantio de 58 milhões de mudas de árvores do tipo acácia, canela, jacatirão, araucária, canjerana, louro, grápia, cambará, ipê, cabriúva, bracatinga, timbó, guatambu e guajuvira. Quantas árvores têm a avenida central da cidade? Quantas foram plantadas na nova marginal do rio em 2025? Árvore é vida, pense nisso!