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A caneta mágica

Suspeito que mais de um leitor vai ficar decepcionado porque o artigo não versa sobre as canetas injetáveis de semaglutida e tirzepatida que estão na moda para conseguir perder peso. Acho que as chamadas “canetas emagrecedoras” não tem nada de mágico, tem efeitos colaterais e em caso de o programa não incluir reeducação alimentar e prática de atividade física, haverá ganho de peso (efeito rebote) assim que o usuário parar de usar esse medicamento.

Sem esquecer que devem ser utilizadas unicamente por prescrição médica com o devido acompanhamento do profissional. A caneta que chamo de mágica é a MasSpec Pen. Trata-se de um grande invento da cientista brasileira Livia Schiavinato Eberlin.

A Dra. Livia é formada em Química Analítica na Universidade de Campinas em 2007, fez pós-doutorado na Universidade de Stanford e atualmente é professora no Baylor College of Medicine em Houston (USA). O genial invento foi a solução encontrada pela cientista para resolver um problema frequente durante as cirurgias de retirada de tumores malignos.

Perante a necessidade de retirar todo o tecido maligno, o cirurgião ainda durante o ato cirúrgico é obrigado a retirar amostras de tecidos que após congeladas são analisadas pelo patologista. O patologista então informa se o tecido é canceroso ou não.

Acontece que este processo geralmente é demorado, geralmente leva mais de 30 minutos, geralmente com o paciente anestesiado. Evidentemente quanto maior o tempo da cirurgia há um aumento do risco anestésico-cirúrgico e de infecções.
A Dra. Livia, especialista numa técnica chamada espectrometria de massa, teve a ideia de aplicar esse conhecimento para dar a informação necessária ao cirurgião em poucos segundos se o espectrofotômetro estiver na sala de cirurgia.

A espectrometria de massa é uma técnica analítica que quantifica compostos químicos medindo a razão massa-carga dos íons gerados a partir de uma amostra. Essa análise é feita por um aparelho chamado espectrofotômetro, o aparelho está dotado de inteligência artificial e pode responder em questão de segundos se a amostra tem células cancerosas ou não.

A caneta MasSpec Pen tem um reservatório preenchido com uma gota de água que em contato com o tecido escolhido pelo cirurgião absorve moléculas que são transportadas para o espectrofotómetro. O cirurgião tem a resposta em poucos segundos e pode então decidir a conduta a ser tomada a continuação.
Os estudos pré-clínicos mostram que esta técnica tem uma precisão de identificação do câncer superior a 96%. O método já foi empregado em mais de 300 cirurgias oncológicas em humanos, algumas delas no Hospital Albert Einstein em São Paulo.

Resta a realização de estudos com um número maior de pacientes para que a caneta seja aprovada pelas principais agências reguladoras em saúde do mundo. Será uma grande evolução para a cirurgia oncológica, uma técnica que ajudará a melhorar o prognóstico e a sobrevida dos pacientes acometidos pelo câncer.
A pesquisadora apesar da sua juventude já recebeu inúmeras premiações pelo seu trabalho. Em 2018 recebeu a renomada bolsa da Fundação MacArthur, a chamada “bolsa dos gênios”, no valor de aproximadamente R$ 2,5 milhões, pode ser usada de forma livre pelo bolsista.

Recentemente recebeu a Medalha Biemann, a maior premiação da Sociedade Norte-americana de Espectrometria de Massa. Sua vida é dedicada às pesquisas, às aulas na Universidade, à orientação dos doutorandos, palestras em inúmeros seminários e à sua família.

Essa rotina própria de um cientista talvez não seja interessante para o grande público, embora tenha ao redor de 85 mil seguidores no Instagram, está longe dos milhões que seguem influencers que ao julgar pelo conteúdo que produzem parecem ter uma massa cinzenta de duvidosa qualidade.

Nas redes ela gosta de mostrar seu trabalho e a felicidade que sente com suas conquistas, seu trabalho é dedicado a melhorar a cura e recuperação dos pacientes com os mais diversos tipos de câncer.

A vida de uma cientista é cheia de grandes desafios intelectuais, evidentemente não há nada de luxos nem exibicionismo. Vale aqui lembrar ao grande Jorge Luis Borges: “o luxo é uma vulgaridade”.