A ‘Cruz de Ferro’ entregue a Carlos Renaux na Europa
Sou fascinado por replicar de sinos ao cair da tarde, na hora do ‘Angelus’, conferindo sentido ao trabalho e ao descanso, pois somos passageiros, sairemos de mãos vazias, levando apenas o rastro de relacionamentos. Cena espetacular foi ver Richard Gere em ‘Outono em Nova Iorque’, sobre folhas de carvalho no Central Park ao som do sino da catedral de New York! Isso fez lembrar Carlos Renaux ao fazer doação de sino à Lörrach no final da Primeira Guerra. E sabe como, e por quem, foi homenageado?
É comovente o soar de sinos em dias de enchente, um deles teria forçado Pe. Gattone a pedir socorro na ‘hochwasser’ – enchente de 1880. Salvou vidas, não existia Defesa Civil, e foi condecorado por D. Pedro II. O primeiro sino foi o Ana Susana doado por Pedro Werner, em 1866, tendo na ombreira as Armas do Império. Está no Museu Azambuja, após a descarga de um raio.
O carrilhão atual da matriz foi abençoado em 1973, integrando o projeto de Gottfried Böhm, em estilo neogótico de forte impacto estrutural pelas pedras irregulares, como lembrança das catacumbas cristãs. Existem poucos fabricantes de sino. Nos anos 1930-40, a Electro Aço Altona fundia sinos com ligas especiais de bronze. Custam milhões, o maior do Brasil pesa 55 toneladas e foi instalado no Santuário Pai Eterno, de Goiás.
Em 1917, na entrada do Brasil na guerra, a imprensa moveu campanha contra os alemães. Carl Renaux estava em Florianópolis e foi insultado pelo jornal. Sua esposa, Joanna, saiu às pressas para Petrópolis, aguardando o marido mudar a direção da fábrica e fugir. Em 1918, passaram por Lörrach e tomaram o sentido de Arnhem, nos Países Baixos, considerada um país neutro. Para lá fugiu, também, o Kaiser Guilherme II, do Império Germânico, acompanhado da aristocracia. O ambiente era para os capitalistas, e alguns ricos foram procurados por Renaux para bancar a exploração de calcário e a estrada de ferro de Brusque, que a guerra impedirá de realizar.
Em 1921, Carl abriu escritório e pediu o registro de ‘Consulado do Brasil’, que foi assinado pelo presidente Epitácio Pessoa, em 1922. Numa festa do Kaiser, na residência de Doorn, Carl foi procurado pelo Chanceler Paul von Hindenburg que lhe pediu um sino para a igreja de Lörrach. A cidade está na fronteira com a França, em Baden-Würtemberg. À época, era o Grão-Ducado de Baden, onde acontecera a revolução de 1848. No conflito, os sinos da igreja foram ‘entregues’, obrigatoriamente, para fundir armas de guerra para o Império Alemão, em 1917, e que deveriam ser repostos em 1922.
Carl Renaux voltou a residir em Baden depois da morte de Johanna von Schönenbeck, em Arnhem, era 1920. E contraiu núpcias com sua secretária Mama Goucky, intitulada ‘Consulesa do Brasil’. Renaux comprou a residência e doou o sino de bronze com 600 kg, com os dizeres ‘Gestiftet von Karl Christian Renaux’ – doação, que a Igreja luterana Saint Peter recebeu a 6 de maio de 1922. Depois, na guerra de 1939, o sino de Lörrach foi ‘entregue’ para fabricar novas armas de guerra.
De volta ao Brasil, em 1932, a aristocracia despediu-se do casal, tendo Hindenburg feito cerimonial de entrega da ‘Cruz de Ferro’ na categoria ‘não militar’. Era o reconhecimento por trabalhos de Renaux no Consulado na Alemanha. O emblema da medalha serviria mais tarde de estampa para a bandeira da fábrica, que nunca será apresentada ao público por receio étnico. Durante o conflito mundial, a medalha Cruz de Ferro foi escondida no escritório da fábrica, sob a guarda do bibliotecário Pedro Zimmermann. E nunca mais foi achada.