A loucura de Robert Schumann
Peço para Alexa tocar uma música de Robert Schumann, de forma aleatória surgem os acordes do Concerto para piano em La Menor, obra maravilhosa, sofisticada e tênue ao mesmo tempo. Como a grande maioria das composições de música clássica parece um bálsamo que nos tranquiliza e cicatriza qualquer ferida.
É difícil entender como obras tão belas possam ter sido compostas por um compositor que viveu entre longos períodos de melancolia alternados com fases eufóricas de mania. Mas a história da arte está lotada de exemplos de grandes artistas com transtornos mentais.
Um estudo da psiquiatra Nancy Andreasen da Universidade de Iowa (USA) relata que os escritores têm quatro vezes mais chances de sofrer Transtorno Bipolar e a incidência de depressão é três vezes maior. Outros pesquisadores apontam que quase 50% dos literatos e artistas sofrem algum transtorno do humor, mais do que o dobro do resto da população.
Schumann nasceu em Zwickau, na Saxônia, Alemanha, e desde muito jovem mostrou uma grande aptidão para a música e como pianista. Quando tinha 16 anos sofre duas grandes perdas familiares, sua irmã mais velha Emilie que comete suicídio, e meses após seu pai fica doente e falece. Parece que sua tendência ao isolamento aumenta consideravelmente logo após o falecimento de seu pai.
Apesar do seu talento natural para a música, Schumann pretendia ser escritor, era um grande leitor. A tradição musical da sua família fez com que enveredasse pelo caminho da música. Aos 19 anos inicia um prolongado quadro de melancolia, ansiedade e solidão que tentava amenizar com o consumo de bebidas alcoólicas.
Um ano mais tarde os sintomas de ansiedade social aumentaram, apareceram alucinações auditivas, pensamentos suicidas e movimentos involuntários na mão direita que se transformaram numa distonia.
Parece que a distonia começou após ter tentado imobilizar o dedo médio enquanto tocava piano, isso causou uma lesão nesse dedo que ficou imobilizado. Sem poder seguir carreira como pianista, Schumann se dedica a compor obras musicais.
Quando tinha 23 anos morrem seu irmão Julius, seu irmão Carl e poucos meses depois sua cunhada Rosalie, Schumann tinha uma relação muito estreita com todos eles. Essas perdas provocaram um período de angústia, e principalmente a recidiva das ideações suicidas.
Iniciar um trabalho como crítico musical no jornal de Leipzig trouxe para ele uma estabilidade financeira e um período de calmaria emocional interrompido pelo falecimento da sua mãe Johanna, a pessoa mais importante e que sempre deu apoio aos seus projetos de vida.
Aos 30 anos Schumann contrai matrimônio com Clara Wieck, eminente pianista com quem teve oito filhos. Clara teve muitas dificuldades para lidar com as frequentes crises depressivas do marido, embora fosse o suporte emocional de Robert.
Aos 40 anos de idade Schumann começou a sofrer de muitas dores pelo corpo associadas aos sintomas depressivos, talvez um quadro do que hoje é conhecido como fibromialgia e que frequentemente acompanha os transtornos depressivos.
Pouco tempo depois as alucinações auditivas se tornaram cada vez mais frequentes, muitas dessas eram com notas musicais ou até música estruturada.
Aos 44 anos de idade teve que ser internado num sanatório na cidade de Endenich onde permaneceria até sua morte em 1956, com apenas 46 anos de idade, provavelmente devido a um quadro grave de inanição.
Passara seus últimos anos de vida com um quadro típico de esquizofrenia e o deterioro progressivo das suas funções mentais. Mentes privilegiadas parecem ter um risco maior de sofrer doenças psiquiátricas.
A evolução na área dos psicofármacos tem propiciado uma maior qualidade de vida aos portadores de distúrbios mentais, a grande maioria pode continuar produtivos e manter uma boa convivência familiar e social.
Já dizia Shakespeare: “é uma pena que os loucos não tenham direito a falar sensatamente das loucuras da gente sensata”.