A menina polonesa que descobriu o Brasil – 1
“Era uma vez... no fim do século 18, a Polônia, um país situado ao leste da Europa, passava por diversos problemas. Algumas guerras atrasavam seu desenvolvimento econômico e surgiam várias dificuldades, com as pessoas de lá se desentendendo. O trabalho era escasso e a miséria tomava conta. Empobrecidos, sem terras para trabalhar, pois estavam sendo disputadas por outros países que invadiram a Polônia, muitos homens resolveram sair em busca de melhores condições de sobrevivência para si e sua família. Ouviam falar em lugares longínquos, países exóticos. Como o Brasil, lugar com terras à vontade para nelas se trabalhar, morar, plantar.
Coragem: a palavra mágica. Decidir era preciso. Dar adeus aos amigos da aldeia, deixar a cidade de Opole, situada na região da Alta Silésia. Abandonar aquela paisagem querida. Tudo isso em meio às lágrimas da partida, oitenta pessoas questionavam: voltariam a ver sua pátria?
Junho de 1869, dia 10. A folinha assinalava a data da saída, lembrando um calendário especial na vida de cada emigrante (você sabe: emigrante é quando a pessoa deixa seu país) que compunha o grupo. Quase ninguém queria pensar, de verdade, na jornada a ser vivida a bordo do navio Victoria. Tinha início a aventura a um país distante, sobre o qual sabiam pouco ou quase nada (ambas as hipóteses, bem prováveis). Além disso, a falta de projeto quanto à viagem em si, era um fato. Ou seja; os emigrantes não sabiam qual seria seu destino. Há uma lenda sobre a possibilidade de eles serem direcionados a São Francisco, na Califórnia/Estados Unidos. Mas, foram encaminhados ao porto de São Francisco, em Santa Catarina/Brasil.
O trajeto transoceânico durou cerca de dois meses. Após uma parada no porto do Rio de Janeiro, a viagem continuou em águas pelo Atlântico até Sul do país. Primeira parada: porto de São Francisco do Sul/SC. Depois, o porto de Itajaí, litoral da então Província de Santa Catarina. Dali todos foram conduzidos às Colônias Itajahy e Príncipe Dom Pedro (futura cidade de Brusque). Os agora imigrantes (sim, ao chegarem a outro país, as pessoas em questão passaram a ser imigrantes) conheceram um caminho novo. Foi através do Rio Itajaí-Mirim, em meio ao verde da Mata Atlântica, com algumas plantações aqui e acolá, esparsas moradas e pequenos portos de atracadouro às margens do citado rio.
A possibilidade de refazer a vida era realidade para os imigrantes poloneses, entre os quais Domin Stempka, sua esposa Karolina Synowska e a filha do casal, Sophia. O nome dele irá aparecer grafado de diversas maneiras, às vezes como Domin Stampka, Dominik Stempka, pois decorria do entendimento com o qual os responsáveis pelos registros nos portos conseguiam escrever, lembrando que a maioria dos funcionários brasileiros nas alfândegas não estava acostumada a tantas consoantes numa palavra só, como era o caso dos sobrenomes de origem polonesa.
Sophia descobriu, aos cinco anos de idade, um céu muito azul, com estrelas brilhando e iluminando as noites. Um lugar cercado pelos desafios de doenças e animais das florestas começava a fazer parte de sua vida. A menina chorava muito devido aos desconfortos e má alimentação. Padre Alberto Francisco Gattone, Cura das Colônias, chegou a comentar que as polacas teriam bastante água para lavarem as roupas, pois as lágrimas de Sophia aumentariam o volume do rio Itajaí-Mirim. O fato é que Sophia Stempka tornou-se a menina polonesa que descobriu o Brasil!