Anotações de uma Imigrante Polonesa – 1
Esse é um ensaio literário a partir de situações concretas, vividas pelos primeiros imigrantes poloneses. Dados a partir de documentos oficiais da Sociedade Amigos de Brusque, da Arquivo da Cúria Metropolitana, em Florianópolis e no Arquivo Público do Paraná.
1871, Junho, 10
Há dois anos embarcamos no navio Victoria, no porto de Hamburgo/Alemanha. O cansaço pela longa viagem marítima deixou-nos debilitados. A comida era razoável: serviam sardinhas, carne duas vezes por semana, café pela manhã e chá à tarde. Conhaque, vinho, limões e remédios foram de grande utilidade na travessia do Oceano Atlântico.
As mulheres pouco viam os maridos, pois fomos acomodados em lugares diferentes. Conversávamos quando nos encontrávamos no convés, à luz do dia, apreciando a paisagem e as gaivotas, aves marinhas que acompanhavam a rota dos navios.
1871, Setembro, 18
Notícias sobre nossa transmigração: as mulheres irão de carroça até o porto de Itajahy/SC e de lá, ao porto de Paranaguá/PR. Os homens, que sairão antes, irão a pé. Destino: o rocio curitibano do Pilarzinho. Dará certo? As promessas feitas quanto a melhores condições de vida serão cumpridas?
No coração, novamente aquela sensação de angústia pelo desconhecido.
1871, Setembro
Kurytyba. Chegamos!
Iniciei sinalizando o nome da capital do Estado, no idioma polonês: Kurytyba. Que, aliás foi uma carinhosa homenagem da nossa comunidade, tornando Curitiba a única cidade fora da Polônia a receber o nome próprio com grafia polonesa.
1871, Outubro, 20
O polonês Sebastião Saporski buscava meios legais para transferir-nos entre as Províncias. Os colonos sabiam que os serviços na Colônia Príncipe Dom Pedro estavam quase parados por diferentes motivos e, mediante seu desejo de trazer-nos, convenceu os homens do grupo que no Paraná achariam mais serviços nas estradas. Assim. ele promoveu nossa saída da Príncipe D. Pedro, mesmo que à revelia do Imperador D. Pedro II. A transmigração acabou acontecendo – razão pela qual escrevo a partir de Kurytyba.
Sabe por que “à revelia”? É que no período de maio de 1871 a março de 1872, D. Pedro estava com sua esposa fazendo uma expedição à Europa e ao Egito. Então não poderia ter assinado (lembra? Não existiam as mídias...) a petição autorizando a transmigração dos poloneses. Não há sequer um documento comprovando o fato – ignorado pela maioria dos historiadores.
A partir de agora, Kurytyba será nosso novo lar polonês!
1871, Outubro, 27 e 28
Nascem: Úrsula, filha de Fabiano Barcik e Edvirges Purkot e João, filho de Gregorio e Maria Hylla. Como fiquei sabendo?
O historiador Edwin Tempski citou-os como “os primeiros paranaenses – etnicamente poloneses, os primeiros polonos-brasileiros”. Acabei contestando, depois de ter lido numa placa, junto à imagem de Cristo Migrante no Bosque João Paulo II, em Curitiba, tal anotação. Escrevi ao Presidente da Fundação Cultural de Curitiba, Rafael Greca de Macedo, reivindicando a proeza do fato pertencer à Izabella Kokot, que havia nascido em novembro de 1869 nas então Colônias Itajahy e Príncipe Dom Pedro. Ele respondeu, em 10/02/1982: “É de atos como este que a Memória tece seu fio, e, da rudeza das coisas desconhecidas se transforma em “esclarecedora da história”(...). Dez anos depois, como Prefeito da cidade, em 1993, nos 300 anos de Curitiba: “A cidade é a casa do espírito do homem. Curitiba é a “nossa” casa, com espírito polonês”, seria sua mensagem.
Nossa etnia sendo valorizada.