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Anotações de uma Imigrante Polonesa – 2

Esta é a segunda parte de um ensaio literário a partir de situações concretas, vividas pelos primeiros imigrantes poloneses. Dados a partir de documentos oficiais da Sociedade Amigos de Brusque, da Arquivo da Cúria Metropolitana, em Florianópolis e no Arquivo Público do Paraná.

1873 – algum dia deste ano. Kurytyba
Soube que a Colônia Abranches se tornou um centro de referência para nossos conhecidos poloneses. Assim, com o passar do tempo, vários amigos dos pioneiros deram início à uma história, ou seja, pela terceira vez não só eles, como eu também, recomeçávamos nossas vidas: Polônia, Brasil (Colônias Itajahy e Príncipe do Pedro/SC) e novamente Brasil (Província do Paraná)!

1873, Dezembro, 31
Último dia do ano. O Presidente, dr. Frederico José Cardoso d’Araújo Abranches – que emprestaria seu nome à nossa Colônia -, assinou um documento encaminhado à Thezouraria da Fazenda, esclarecendo sobre o crédito destinado à fundada Colônia Abranches. Pera aí. Então ele já sabia da nossa existência? Mas, ao que parece, políticos e não políticos continuariam a esquecer da gente...Como sei disso? É só ler a passagem seguinte:

1874, Agosto, 25
Querido diário: como descrever o que nós estamos vivendo? Dor e sofrimento explicam. Ou posso usar as palavras de conterrâneos que trilharam os mesmos caminhos: nós, “pobres e carregados de numerosa família, estão luctando com mil dificuldades”.

Então, pensa que estamos aqui em Curitiba há três anos e nem tudo foi conforme prometido. Pelo contrário, “muitos apenas mal ganhão para o seu sustento diário, o que não aconteceria se tivessem auxílio”. Sei disso porque documentos contam, através de páginas amareladas pelo tempo, segredos de nossa história. Há quem duvide! Quer conferir? Pesquise nas Atas da Câmara Municipal de Curitiba.

1876, Maio, 13
Mesmo estando no outono aqui no Hemisfério Sul, os dias frios e cinzentos seriam marcas do clima de Curitiba. Não transformava nossos sonhos em realidade, ou seja: termos neve como na Polônia. Mas trazia-nos as lembranças mais queridas de bebidas quentes e fortes: se lá eram os chás e vodkas, aqui temos quentão, à base de vinho, cachaça e especiarias. Nada mal para quem já estava se assumindo curitibana.

1876, Agosto, um dia qualquer
Como manter nossa identidade polono-brasileira? Ela pode existir através de sentimentos de pertença (já me sinto polaquinha do Abranches, após 5 anos), grupos (por enquanto, só os de conversa – como os que temos quando vamos, de carroção, a outros lugares, levar produtos de nossa agricultura familiar) ou mesmo com o contato entre as famílias.

2025, Agosto
Encontro uma publicação sobre homenagens a imigrantes em nomes de ruas em Curitiba. No bairro Abranches: 15 logradouros; Pilarzinho, 13. A soma total chega a 114, segundo Rafaela Mascarenhas Rocha, autora de um estudo sobre a presença de imigrantes poloneses no desenvolvimento da cidade. O perfil dos homenageados varia, porém não há nenhum nome da leva de 1871. Será que foram esquecidos?

Posfácio
“Ao fim deste texto (Jornal Gazeta do Povo, Curitiba/PR, 27/09/1976) lembrei-me de Gore Vidal que, em Lincoln, perguntou-se do quanto de real e do quanto de ficção era composta aquela obra. Os que conhecem a história da chegada dos primeiros imigrantes poloneses no Brasil certamente fazem-se, agora, a mesma pergunta. (...) Anotações de uma imigrante não pretende, imagino eu, acender novas luzes sobre a conturbada “primeira história” dos imigrantes poloneses que chegaram ao Brasil em 1869.”

Segundo Sérgio Ricardo Otero Goulart Filho: "A intenção da autora (sua mãe) é bastante clara: dar um pouco de humanidade, de sensibilidade, de coração à história, que nos relata, sem piedade, as dificuldades sofridas à época”,