Brusque 1904: A Moderna Lancha Selma
No mês de dezembro de 1904, o empresário Carlos Renaux, então prefeito de Brusque, retornou da Alemanha. Segundo notícia do jornal Novidades, ali permaneceu à espera da chegada do navio cargueiro Numidia, que trazia a estrutura metálica da primeira ponte a ser construída sobre o rio Itajaí-Mirim. Trazia também a sua moderna lancha comprada naquele país e batizada com nome de Selma, em homenagem à sua primeira esposa.
A embarcação foi adquirida em sociedade com José Kniss, “navegador de anos do Itajaí-Mirim, o que deveria garantir o êxito da empresa”. Construída em madeira especial, com aproximadamente 12 metros de comprimento e mais de três de largura, a lancha era o que havia de mais moderno e avançado, na navegação fluvial da Europa e de outras partes do mundo.
A lancha Selma podia levar até 250 sacos de farinha, mais uma dezena de passageiros e seria o maior barco a navegar pelo nosso rio, que nunca permitiu um tráfego intenso de pessoas e mercadorias. É claro que outros produtos seriam também transportados, principalmente, os tecidos fabricados pela tecelagem “do distinto industrial, honrado e ativo Superintendente do município de Brusque”, conforme anotou com reverência o jornal itajaiense.
O mais importante era o seu “pequeno calado de apenas trinta centímetros”, mesmo quando carregada e sua “hélice em forma de um pavilhão auricular”. Esses avanços iriam facilitar a navegação pelo Itajaí-Mirim, até então utilizado apenas por canoas e pequenas lanchas.
É interessante notar que a lancha estava equipada com um motor híbrido. Assim, funcionava com álcool ou querosene. A cana para produção de açúcar e cachaça era aqui produzida desde a fundação da Colônia. Mas, não creio que havia algum fabricante de álcool apropriado para impulsionar o avançado motor da Selma. Penso que foi mais fácil usar querosene importado.
A versatilidade da moderna embarcação permitiu a intensificação e melhoria do transporte fluvial entre nossa cidade e a vizinha cidade e, a partir daí, com todo o país e o exterior. Tanto é que, em abril do ano seguinte, o mesmo jornal publicou uma nota destacando o sucesso da Lancha Selma no transporte fluvial do Itajaí-Mirim. Disse, sem qualquer explicação, que a embarcação tinha 17 e não os 12 metros de cumprimento, antes informado. Noticiou também que, enquanto a viagem feita por “lanchas tangidas a varas” durava o dia inteiro, a Selma fazia o percurso em apenas oito horas, levando mais carga e passageiros.
No final dos anos 1920, com a reconstrução da estrada de rodagem, o transporte de pessoas e cargas pelo rio Itajaí-Mirim foi sendo abandonado. Hoje e há muito tempo já, que não se vê mais uma canoa sequer singrando as águas rasas do nosso assoreado e maltratado nosso rio-amigo.