Conversas de consultório: saúde para todos
A sala de espera do Posto de Saúde, modernamente chamado Unidade Básica de Saúde, estava lotada quando chegou mais um paciente, de muletas e que aparentava ter chegado aos 70 anos de idade. Mal se sentou no último lugar vago e logo foi cumprimentado por uma simpática mulher sentada ao lado.
— Bom dia. O senhor aqui também? Lembro-me bem que trabalhava na loja da Hermes Macedo e me vendeu uma geladeira, que ainda funciona. Isso foi há mais de trinta anos. Parece-me que naquela época tudo era melhor. Mas, o que aconteceu com a sua perna?
— Olha, é uma novela que não acaba mais. Tenho sofrido que nem cão. Aliás, hoje os cachorros são melhor tratados do que pacientes do SUS. Ao menos no meu caso, posso dizer que tem sido assim. Faz mais de três anos que comecei a sentir uma dor terrível no joelho direito. No início, ainda era possível andar sem muita dificuldade. A dor só aparecia no final do dia. Minhas noites passaram a ser infernais.
— Você sabe como é. Trabalhei em pé e com a barriga encostada no balcão durante trinta anos, para me aposentar com pouco mais de um salário mínimo que não dá pra nada. O jeito foi continuar trabalhando para aumentar a renda. Mesmo assim, depois que passei a sofrer do joelho, fui obrigado a parar de vez.
— Na primeira vez, paguei um ortopedista particular. Cobrou uma fortuna pela consulta e pediu pra fazer alguns exames que custavam o olho da cara. A solução foi buscar o SUS. Infelizmente, fazer uma consulta médica pelo sistema público de saúde não é fácil. Levantei cedo, de madrugada, a fim de pegar a ficha. Esperei quase um mês para a primeira consulta com um clínico geral que mal me olhou e requisitou uma radiografia. E lá se foram três meses para o retorno e só escutar que o meu caso era com um especialista.
— Esperei mais de um ano para consultar um ortopedista, que requisitou uma ressonância e outra radiografia. E lá se foi outro ano. Todo esse tempo de espera e sofrimento para me dizerem que preciso fazer uma cirurgia e colocar uma prótese. Agora me chamaram para marcar a cirurgia, quando já não me aguento mais de tomar analgésico, anti-inflamatório e de andar de muletas. Mas, estou preocupado. Um vizinho falou-me que esperou mais de um ano para realizar uma cirurgia e colocar a prótese.
— Sinto muito, disse a mulher. É triste a gente precisar do SUS. Em alguns casos, até que a gente é bem atendida. Mas, de um modo geral, sofre com o mau atendimento. O senhor não leu a reportagem do jornal O Município da semana passada? A pobreza rala na fila para consultar um especialista. São meses e até mais de dois anos de espera por uma cirurgia dita eletiva, sempre sinônimo de espera sem fim. É por isso que alguns pacientes faltam na data marcada. Claro, devem morrer na fila de espera! E a gente tem que ouvir a propaganda oficial dizer que a saúde é um direito de todos e um dever do Estado.
A conversa terminou de súbito quando a mulher foi chamada para a consulta, deixando assustado o paciente de muletas.