Ir para o conteúdo

Conversas de supermercado, este bazar moderno!

Versão moderna, ocidental, climatizada e organizada do antigo bazar persa, em terras brasileiras o supermercado já foi chamado de armazém, mercearia, casa de secos e molhados, venda, bolicho e até de bodega das gentes mais pobres de muita vontade de comprar e pouco dinheiro no bolso. No velho bazar, muitos são os comerciantes. Em cada porta um balcão, um vendedor à espera do primeiro freguês para a pechincha que só termina com a compra depois de um desconto do tamanho da conversa. No moderno supermercado, um só dono invisível, preços à vista e sem regateio e autocompradores a encher suas cestas e carrinhos.

Assim como no antigo bazar das arábias, supermercado é uma verdadeira catedral do comércio varejista, abarrotada de alimentos, bebidas e milhares de outros produtos. Nas suas prateleiras e gôndolas, tudo é exposto como chamariz, como irresistível isca a atiçar a gula consumista. Sem dúvida, é preciso muito autocontrole para que o tamanho da compra caiba no bolso do freguês.

Os tempos mudaram e a vida pós-moderna já não nos deixa tempo para procurar os amigos em seus lares ou em lugares marcados para um encontro amigo. Quando muito, um encontro casual na rua, na cafeteria, no banco e no supermercado, que é também ponto de reencontros cheios de alegria e de fraternais abraços entre pessoas amigas, que já não mais se visitam como nos tempos dos nossos pais e avós.

Em Brusque, nas vezes em que vou a um supermercado, tenho visto fregueses se cumprimentando no meio de estreitos corredores, entre prateleiras cheias de mercadorias de todas as espécies, desde as de primeira até as de última necessidade, além dos supérfluos que a cada dia vão surgindo nesta sociedade de consumo sem limite.

Nesses encontros, conversas sobre familiares estão em primeiro lugar. Invariavelmente, a primeira pergunta é para saber — “como vai o seu pai?”. E a resposta, muitas vezes vem constrangedora porque o pai do amigo morreu durante a pandemia. Como quase tudo tem conserto, a gafe é contornada com o costumeiro pedido de desculpa e o — “sinto muito; eu gostava muito do seu pai!”. E a conversa continua sobre o cotidiano da vida brusquense, que já não é mais a mesma dos tempos do armazém ou da venda que ficava na esquina das nossas casas.

No entanto, nos corredores de um supermercado as conversas mais frequentes, é claro, versam sobre a qualidade e o preço dos alimentos. Nesses casos, é comum ouvir reclamações indignadas contra o preço do tomate, a alta do café ou o elevado preço da picanha, que estaria custando o olho da cara — “um verdadeiro roubo!”. Quanto ao preço da carne nossa de cada dia, o governo federal, que não cria gado mas prometeu picanha quase de graça, é um dos principais alvos dos xingamentos e desabafos das conversas de supermercado.