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De Sócrates ao vício em internet

Vivemos uma época de convivência total com a internet, dependemos dela para quase tudo, trabalho, compras, educação, entretenimento. A geração que nasceu na época do lançamento do primeiro Iphone já tem 18 anos e praticamente já estamos na segunda geração de adultos desde que a internet chegou ao Brasil em 1988.

Virou prática comum que em todo lugar público as pessoas estejam entretidas com seus celulares, não importa se estão numa praia ou algum lugar paradisíaco. O uso exagerado da internet e dos smartphones já virou um problema de saúde pública.

O Transtorno por Adição à Internet e o Transtorno por Adição ao Smartphone estão definidos na quinta edição do manual de diagnóstico e estatística das doenças mentais (DSM-5).

Basicamente estes transtornos consistem no uso compulsivo e descontrolado de tecnologia e este abuso provoca transtornos na vida pessoal, social e profissional dessa pessoa. Não é a primeira vez que a humanidade se defronta com o aparecimento de uma nova tecnologia ou um grande avanço na forma de se comunicar ou de propagar conhecimento.

O alfabeto provocou uma revolução no conhecimento maior que a provocada pela internet, até poderíamos ponderar. É fácil deduzir que sem alfabeto e matemática a humanidade não teria chegado à internet.

O alfabeto permitiu a construção de uma memória comum gigante ao alcance de todos, o aparecimento dos livros possibilitou que as pessoas adquiram e acumulem conhecimentos.

Na época de Sócrates os textos escritos não eram comuns e despertavam desconfiança, a palavra oral tinha muito mais crédito, quando proveniente de um sábio era considerada sagrada. Representativo da insegurança que os livros provocavam na época é o famoso mito egípcio de Fedro.

Sócrates conta ao seu discípulo Fedro que séculos atrás o deus Theuth de Egito, inventor dos números, da geometria, da astronomia e das letras ofereceu essas invenções ao rei Thamus para que as ensinasse aos súditos. Com essa fonte de memória e sabedoria o povo egípcio se tornaria mais sábio.

O Rei Thamus rejeita a oferta dizendo que os livros apenas servirão para descuidar a memória e que pessoas sem educação ao interpretar textos de forma errada, poderiam se passar por sábios sem sê-lo. Fedro então concorda com Sócrates, há que ter muito cuidado com o conhecimento acumulado nos livros.

Mitos aparte, ninguém pode negar que sem o conhecimento transmitido através dos livros por centenas de anos o chamado “progresso” da humanidade aconteceria de forma muito mais lenta.

Não há dúvidas que a leitura contribui para o enriquecimento cultural e intelectual das pessoas, já quando se trata do uso compulsivo de internet, mídias digitais e celulares o mais provável é que surja um problema de saúde mental.

O transtorno de adição à internet e uso de celulares pode levar a transtornos do sono, ansiedade, depressão, estresse, déficit de atenção e dificuldades de memória. Pesquisas recentes tem mostrado que adolescentes e adultos jovens usuários compulsivos de internet e smartphones apresentam uma série de alterações cerebrais.

Os estudos usam principalmente imagens de ressonância magnética nuclear funcional do cérebro. Áreas cerebrais como o striatum, ínsula e amigdala que são importantes no chamado sistema de “recompensa”, mostram uma diminuição do funcionamento.

Isso significa que para obter prazer (liberação de dopamina) o usuário vai precisar de maior tempo o maior intensidade dos conteúdos visualizados, criando assim um efeito cascata. A região pré-frontal dorsolateral importante na tomada de decisões e para manter a atenção também se encontra afetada.

Existem também alterações no eletroencefalograma muito semelhantes com as que acontecem nos dependentes químicos. Muitos países estão encarando este tipo de adição como um problema de saúde pública e reunindo especialistas para a adoção de medidas regulatórias.

Não há dúvida que o primeiro mecanismo de supervisão e controle tem que ser em casa, permitir o livre uso de internet e celulares a crianças e adolescentes além de criar um problema de saúde mental prejudica o desenvolvimento cognitivo e emocional de nossos jovens.