Disputa global, efeitos locais: o impacto da tensão entre China e Estados Unidos na indústria de Brusque e de Santa Catarina
Tarifas impostas por Trump atrapalham projeção de crescimento da indústria catarinense em meio à disputa entre as potências
A escalada de tensões comerciais entre Estados Unidos e China, intensificada desde fevereiro, já afeta diretamente a indústria do Vale do Itajaí, especialmente nas cidades de Brusque, Guabiruba e Botuverá.
Juntos, os três municípios, que somam mais de 5 mil indústrias ativas e um PIB industrial expressivo, sentem os reflexos da instabilidade global, agravada pelo decreto assinado pelo presidente americano Donald Trump na quarta-feira, 30, que impõe tarifa de 50% sobre produtos do Brasil.
O Brasil foi o país mais penalizado entre os 22 notificados pelos Estados Unidos. A medida provocou reação imediata do presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que declarou: “o Brasil é um país soberano, com instituições independentes, que não aceita ser tutelado por ninguém”.
O governador de Santa Catarina, Jorginho Mello, também manifestou preocupação, destacando que os EUA são um parceiro estratégico para o estado, e qualquer barreira comercial pode comprometer empregos, investimentos e a competitividade regional.
Segundo a Confederação Nacional da Indústria (CNI), com a nova tarifa, o estado deve registrar um prejuízo financeiro de aproximadamente R$ 1,7 bilhão — o quarto maior do país.
Além disso, Santa Catarina terá a segunda maior queda prevista no PIB, estimada em -0,31%. A taxa entra em vigor em 6 de agosto. Entre os itens que ficaram de fora, estão aeronaves civis, suco de laranja e petróleo.
Com um PIB atual de R$ 135,8 bilhões, o Vale do Itajaí representa mais de 30% da economia catarinense. A região é referência nacional em exportações e abriga indústrias consolidadas, como as brusquenses ZM, Zen, Fischer, Toalhas Atlântica e Verdetec.
Em Brusque, as indústrias empregam cerca de 35 mil pessoas e geram um PIB local superior a R$ 8,7 bilhões (dado de 2021, o mais recente disponível).
Disputa e desdobramentos
As tensões comerciais entre China e Estados Unidos não são novas, mas se intensificaram em fevereiro, quando o presidente americano, Donald Trump, ameaçou elevar tarifas sobre produtos chineses. A medida se concretizou em abril, com a aplicação de tarifas de 34%, seguidas por retaliações da China.
A escalada continuou, e até agora os EUA impuseram tarifas que somam 145% sobre produtos chineses, enquanto a China respondeu com 125% sobre itens americanos. O embate gerou instabilidade nos mercados, ampliou temores de recessão e afetou a economia global.
Mesmo após uma trégua de 90 dias firmada em 12 de maio, em Genebra, as negociações seguem com impasses. Os EUA acusam a China de descumprir acordos, especialmente na exportação de terras raras — insumos estratégicos para tecnologias modernas.
No dia 10 de junho, os dois países anunciaram um entendimento preliminar para restaurar a trégua. Um mês depois, o Brasil foi incluído na crise.
Em carta ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Trump justificou a nova tarifa de 50% sobre produtos brasileiros e criticou o julgamento de Jair Bolsonaro, classificando-o como "uma vergonha internacional".
Lula reagiu e prometeu uma resposta com base na Lei da Reciprocidade Econômica. Também afirmou que o julgamento dos envolvidos nos atos de 8 de janeiro cabe exclusivamente à Justiça brasileira. Para o presidente, o decreto representa uma "chantagem", e ele insiste que não cederá a pressões políticas desse tipo.
Na mesma carta, Trump alegou, sem provas, que a medida foi motivada por "ataques insidiosos do Brasil contra eleições livres e à violação fundamental da liberdade de expressão dos americanos".
A decisão surpreendeu especialistas, que apontaram motivações ideológicas. O economista e Nobel Paul Krugman classificou a tarifa como "maligna e megalomaníaca", enquanto a Confederação Nacional da Indústria emitiu uma nota afirmando que "não há qualquer fato econômico que justifique uma medida desse tamanho".
Indústria local revê estratégias
Diante do cenário geopolítico, empresas da região já adotam medidas para garantir competitividade. Na ZM, Poliana Zimermann, gerente de vendas, afirma que a empresa acelerou a diversificação de fornecedores e mercados.
“Estamos ampliando parcerias fora da Ásia para mitigar riscos logísticos e cambiais”, destaca. A empresa aposta em acordos com países da América Latina e Europa.
Na Zen, com exportações para mais de 70 países, Ricardo Freire dos Santos, gerente de Supply Chain, enfatiza a busca por novos fornecedores, ajustes de rotas e investimentos em automação como forma de garantir resiliência. A empresa inaugurou recentemente uma nova unidade em Brusque, reforçando o foco em inovação.
Edemar Fischer, sócio da Fischer, empresa atuante nos setores de eletrodomésticos e construção civil, diz que o momento exige revisão completa das estratégias. “Estamos investindo em certificações e revendo rotas logísticas. Mas as variações cambiais e gargalos logísticos representam desafios constantes”, afirma.
Susymeri Ogliari, diretora da Toalhas Atlântica, aponta que o maior risco está na entrada massiva de produtos chineses de baixo custo no mercado brasileiro.
“Essa concorrência desleal desorganiza as cadeias produtivas locais. Mesmo com fornecedores europeus, sentimos a pressão sobre os preços”, explica. Para ela, é urgente uma política pública que assegure isonomia tributária e apoio à indústria nacional.
Rafael Silva, CEO da Verdetec, especializada em hidrossemeadura, afirma que a empresa enfrentou aumento de custos e atrasos logísticos. Ainda assim, destaca que a qualidade e agilidade do serviço mantêm a competitividade.
“O desafio é o fardo tributário. Produzir no Brasil é caro, e o governo federal precisa agir para aliviar essa carga, ainda mais agora que as tarifas se tornaram realidade”.
Entidades buscam respostas
A Associação Empresarial de Brusque (Acibr) acompanha de perto os impactos das disputas entre China, Estados Unidos e agora o Brasil, por isso tem promovido debates com especialistas.
O presidente da entidade, Marlon Sassi, alerta: “a chegada de itens têxteis da Ásia é uma preocupação constante. Esse movimento pode afetar duramente as indústrias locais”.
Já a Federação das Indústrias de Santa Catarina (Fiesc) promoveu uma reunião emergencial em julho, reunindo empresários e lideranças para avaliar os impactos das tarifas. Uma das maiores dúvidas gira em torno de quando as tarifas passam a valer, se pela data de embarque ou de chegada nos EUA.
Segundo Maria Teresa Bustamante, presidente da Câmara de Comércio Exterior da Fiesc, ainda não há clareza oficial sobre as regras.
Enquanto isso, setores como madeira, autopeças, máquinas e equipamentos seguem sob investigação da chamada Seção 232, o que, por ora, impede alterações tarifárias, mas não elimina o risco.
A Fiesc estima que até 110 mil empregos podem ser perdidos no Brasil com a nova tarifa de 50% decretada por Trump. Produtos como equipamentos elétricos (13,3% das exportações catarinenses aos EUA) e veículos (14,8%) estão entre os mais afetados.
Outros setores também devem sofrer aumentos expressivos: produtos farmacêuticos (200%), filmes (100%), semicondutores (25% ou mais) e cobre (50%). Em Santa Catarina, a madeira e derivados, que representaram 37,3% das exportações em 2024, estão especialmente vulneráveis.
Cenário de risco
Antes do decreto assinado pelo presidente americano, o governo de Santa Catarina via no cenário uma oportunidade de reposicionamento estratégico.
Jorginho Mello apostava que os produtos catarinenses eram mais atrativos para os Estados Unidos diante do fechamento das portas à China. No entanto, o cenário mudou: agora, as restrições americanas atingem todo o Brasil.
Mario Cezar de Aguiar, presidente da Fiesc, reconhecia o potencial do momento, mas fazia um alerta: “variações nos preços de insumos, atrasos logísticos e a imprevisibilidade dos mercados podem gerar instabilidade”.
Segundo ele, o mais importante era garantir que Santa Catarina mantivesse uma posição mais vantajosa do que a de outros exportadores, missão que agora parece quase impossível de ser cumprida.
Um estudo da Fiesc, coordenado pelo economista Marcelo de Albuquerque, mostra que Santa Catarina exportou em 2023 cerca de US$ 488 milhões em itens semelhantes aos vendidos pela China aos EUA. Setores como máquinas, vestuário, calçados, madeira e têxteis têm grande potencial de substituição.
Contudo, o estudo também alerta para um risco oposto: o redirecionamento de excedentes da produção chinesa ao Brasil, como forma de escoar produtos barrados nos EUA. Em um cenário extremo, o Brasil pode absorver até US$ 7,4 bilhões adicionais em importações — sendo US$ 1,3 bilhão apenas em Santa Catarina.
Segundo Aguiar, a concorrência desleal já é sentida. “Mesmo antes da tarifa vigorar, observamos quedas de até 20% nos preços de produtos asiáticos. Isso ameaça a rentabilidade e a manutenção dos empregos e investimentos locais”.
Santa Catarina cresce e se internacionaliza
O certo é que nenhuma instabilidade global, pelo menos até agora, impediu Santa Catarina de apresentar resultados robustos nos últimos anos.
Entre janeiro e abril de 2025, o estado exportou US$ 3,85 bilhões — crescimento de 7,5% em relação ao mesmo período do ano anterior. Os principais destinos foram Estados Unidos, China e Argentina. Os destaques da pauta exportadora foram carne de frango (US$ 682,7 milhões) e carne suína (US$ 544,3 milhões).
As importações também aumentaram, somando US$ 11,4 bilhões, com a China liderando como principal país de origem. O PIB estadual cresceu 6,9% entre março de 2023 e março de 2024 — a maior alta desde o início da série histórica, em 2010. A média nacional no período foi de 3,5%.
A indústria de transformação puxou a alta, com crescimento de 8%. Os serviços subiram 6%, com destaque para transportes, alojamento, alimentação e comércio. Na agropecuária, a produção animal cresceu 2,2% e as exportações do setor aumentaram 17,8%.
Os dados são do Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), e foram compilados pelo Observatório Fiesc.
Em maio, o governo liderou a missão internacional SC Day, em Nova York, com a presença de 50 empresários. Em junho, o estado enviou representantes à China e ao Japão com foco na ampliação das exportações de proteína animal.
Paulo Bornhausen, secretário de Articulação Internacional, afirmou que o estado apresentou seu potencial logístico e sanitário, além de reforçar a importância da reforma tributária e da redução de incentivos fiscais como instrumento de competitividade.
A empresária Rita Conti, de Brusque, vice-presidente da Federação das Associações Empresariais de Santa Catarina (Facisc), também destacou o diferencial do modelo catarinense.
“Mesmo fora dos grandes centros, temos um parque industrial multissetorial que responde com agilidade às novas exigências do comércio global. Antes das tarifas se concretizarem, era fácil afirmar que estávamos entre dois polos de poder”, observou.
Especialistas avaliam
Em maio — antes do anúncio das novas tarifas —, a Fiesc promoveu, em Florianópolis, a imersão “Fator Tarifaço”. O evento reuniu especialistas para discutir os impactos das tarifas norte-americanas no comércio global. Na ocasião, não se imaginava que, poucos meses depois, elas atingiriam diretamente o Brasil.
Durante o evento, analistas destacaram que o maior desafio do Brasil não está apenas nas tarifas em si, mas na disputa por investimentos com os Estados Unidos, acirrada pelos pacotes de incentivos fiscais do governo americano.
Segundo os especialistas, a tendência é que boa parte das tarifas persistam mesmo após um novo acordo entre os países, o que exige maior presença institucional do Brasil em Washington.
Santa Catarina foi apontada como um dos estados mais vulneráveis, especialmente nos setores de madeira, móveis, aço e autopeças. A possível priorização de produtos norte-americanos em acordos bilaterais representa um risco real à competitividade local.
Além disso, a transformação industrial da China pressiona a reorganização do comércio global. Para manter espaço no mercado, empresas brasileiras precisam investir em inteligência estratégica e no relacionamento com clientes internacionais.
Lisandro Bueno, diretor da ES Logistics, de Itajaí, especializada em fretes internacionais, avalia que a rivalidade entre China e EUA, somada as novas tarifas e outros conflitos geopolíticos, acelera a necessidade de diversificação.
“Há mais risco na importação de insumos (dumpings) e, ao mesmo tempo, surgem chances para substituir fornecedores globais em setores como alimentos, metalmecânico e têxteis. Mas o aproveitamento disso depende da competitividade e capacidade de adaptação", disse.
Sobre a chamada “desglobalização seletiva”, Bueno diz que os efeitos variam conforme o setor. Segmentos com base local e potencial exportador podem se beneficiar, caso saibam ocupar os espaços deixados por fornecedores asiáticos.
Ele cita cerâmica, madeira, móveis e plásticos como exemplos de sucesso em Santa Catarina. Mas avisa: o Brasil ainda investe pouco nessa oportunidade. “Faltam infraestrutura, segurança jurídica, agilidade logística e acordos comerciais mais amplos”.
Apesar das dificuldades, o especialista vê potencial. “Temos escala agrícola, matriz energética limpa e mão de obra razoavelmente qualificada. É preciso transformar isso em estratégia nacional para ganhar presença em novos mercados”.
Para o professor Bruno Meurer de Souza, do curso de Comércio Exterior da Univali, o endurecimento das tarifas americanas, mesmo desconsiderando a mais recente, obrigou países a repensarem suas estratégias comerciais.
“A partir do momento em que os EUA implantaram a política das alíquotas recíprocas, o mundo se deu conta de que precisa buscar novos mercados”.
Segundo ele, a China tenta reduzir a dependência dos EUA, intensificando acordos com o Brasil, a União Europeia e outras regiões. Apesar da trégua firmada em maio, Meurer acredita que Pequim continuará diversificando parcerias. “Ainda é cedo para previsões, mas os efeitos já são perceptíveis”.
Sobre o Brasil, ele destaca que as novas tarifas não eliminam oportunidades de negociação. “O acordo com a União Europeia, travado há anos, voltou à pauta. E a aproximação com a China também indica novas possibilidades. Isso pode abrir portas para o Brasil em outros mercados”.
Esforço federal
O Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC) informou que acompanha de forma constante o cenário envolvendo China e Estados Unidos, e reforçou a defesa do multilateralismo e das regras estabelecidas pela Organização Mundial do Comércio (OMC).
“Trabalhamos em conjunto com o setor privado para identificar movimentos atípicos e oportunidades comerciais”, destacou a pasta.
Desde março, o vice-presidente Geraldo Alckmin tem liderado um canal de diálogo com os Estados Unidos, em articulação com o Itamaraty. Questionado sobre o decreto do ex-presidente Donald Trump que impõe tarifa de 50% sobre produtos brasileiros, Alckmin classificou a medida como “inadequada”.
“Precisamos mostrar que essas tarifas também prejudicam os produtos americanos”, afirmou. Ele lembrou que os Estados Unidos mantêm superávit comercial com o Brasil há 15 anos, com tarifa média de apenas 2,7% sobre os itens exportados ao país.
Nas últimas semanas, o Brasil intensificou as negociações com os Estados Unidos na tentativa de evitar a aplicação da tarifa. Tanto Alckmin quanto o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, reiteraram que o governo segue apostando no diálogo, mas já iniciou a elaboração de um plano de contingência.
Na semana passada, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva criticou a postura de Trump diante das negociações. Segundo ele, o republicano “não quer conversar” sobre o tema.
Como resposta, o governo federal aposta em medidas internas, como o programa Nova Indústria Brasil, que prevê estímulos à inovação, às exportações e à sustentabilidade. Outro foco é o avanço da reforma tributária, considerada fundamental para aumentar a competitividade do país.
Mesmo diante do cenário atual, o governo catarinense diz buscar se posicionar como uma alternativa confiável para os mercados internacionais, amparada na qualidade da produção local, na eficiência logística e na diversificação de fornecedores.
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