Prioridade no combate à pandemia gera atraso no diagnóstico e tratamento do câncer
A despeito de estarmos vivenciando uma pandemia inimaginável, há pouco tempo e em certa forma a sociedade vivendo momentos de preocupação e angustia, tanto pelo risco que representa se contaminar pelo Sars Cov2 quanto por todas as mudanças na rotina e no cotidiano das pessoas que a pandemia impôs, devemos lembrar que todas as outras doenças continuaram a existir e a comprometer a saúde da população. O câncer é uma delas.
E o que temos visto na prática é que, por causa da prioridade no combate à pandemia, houve um grande atraso no diagnóstico, tratamento e acompanhamento de milhares de pacientes portadores de câncer. Podemos afirmar que os pacientes com câncer foram muito prejudicados pela postergação do seu tratamento. E evidentemente o atraso pode ter causado uma piora do seu prognóstico e da sua sobrevida.
Sabemos que o câncer é uma doença causada pelo crescimento descontrolado de uma única célula. Isto é causado por mutações, mudanças no DNA que afetam os genes estimuladores do crescimento ilimitado das células. Na célula normal os circuitos genéticos regulam sua divisão e morte, a célula cancerosa rompe esse controle e não consegue parar de crescer. Estas mutações se acumulam com o envelhecimento e essa é uma das razões pelo que a prevalência do câncer aumenta conforme avança a idade das pessoas.
Na antiguidade, quando a expectativa de vida da população beirava os 30 anos, o câncer era muito menos frequente. E, quando presente, era atribuído ao excesso da “bile negra”, vivíamos a fase da teoria dos “humores”. Não é verdade então que o câncer seja uma doença associada à vida moderna, o câncer sempre existiu, registros de patopaleontologia de uma indígena do império inca datados aproximadamente de 900 A.C. mostraram a presença de um câncer ósseo no antebraço.
É bem conhecido que, além de determinantes genéticos, há fatores ambientais que são importantes para o aparecimento de um câncer. A lista de fatores ambientais relacionados a diferentes tipos de câncer é extensa, mas quero aqui fazer ênfase somente em um deles, o consumo de bebida alcoólica.
Estudo recentemente publicado na revista The Lancet Oncology mostra que 4% (740 mil pacientes) de todos os casos de câncer foram provocados pelo consumo de álcool no mundo em 2020, e 15% desses 740 mil pacientes faziam consumo apenas moderado de álcool (menos de duas cervejas por dia). Os cânceres mais frequentemente relacionados ao álcool são o de garganta, laringe, esófago, fígado, cólon e reto. Essa associação bem conhecida entre consumo de álcool e câncer tem sido muito negligenciada na nossa sociedade. Acredito que seja uma necessidade premente ter politicas de saúde pública alertando sobre este perigo que parece preferimos ignorar.
O INCA (Instituto Nacional do Câncer) informa que em 2020 houve 626 mil novos casos de câncer no Brasil. Se preveníssemos aquelas provocadas pelo álcool seriam 25 mil casos a menos de câncer por ano. Isso significa evitar muito sofrimento, muita dor, muitas mortes.
A ciência tem avançado muito no tratamento do câncer e muitos tipos de câncer têm cura, principalmente quando realizado o diagnóstico precoce. Muito progredimos desde que o pai da quimioterapia, Dr. Sidney Farber, no ano de 1947 mostrou que era possível prolongar a vida de crianças com leucemia com o uso da aminopterina.
Hoje em dia, além de centenas de quimioterápicos, existem também imunoterápicos, radioterapia, braquiterapia, hormonioterapia, oncocirurgia, etc. Apesar do arsenal terapêutico disponível, muitas vezes a medicina perde a batalha na luta contra um câncer agressivo ou que é diagnosticado tardiamente.
Esses pacientes precisam ter os cuidados paliativos e humanitários preservados, são pacientes e famílias que em um momento de extrema fragilidade ficam expostos as falsas promessas de terapias empíricas e de charlatães, é triste saber que nas suas últimas semanas de vida muitos pacientes com câncer terminal são submetidos a dietas restritivas (pra não nutrir o tumor!), terapias quânticas, terapias ortomoleculares, terapia com cristais, não bastasse o engodo da fosfoetanolamina.
Muitas famílias consomem seus escassos recursos econômicos porque no desespero são convencidos por curandeiros gananciosos. Estes, prometendo a cura para seu ente querido já desenganado pelos médicos.
Finalmente quero fazer referência ao excelente trabalho que desempenha no nosso estado o Cepon (Centro de Pesquisas Oncológicas) de Florianópolis no diagnóstico, tratamento e acompanhamento dos pacientes oncológicos do estado.
Existe o problema da grande demanda de pacientes e as consequentes filas de espera que são uma tortura para os pacientes que carregam um diagnóstico de câncer. Há a necessidade de criar novos centros de oncologia públicos nas diversas regiões do estado. Brusque, pelo seu tamanho e importância econômica, precisa de uma filial do Cepon que disponha de toda a estrutura diagnóstica e terapêutica para que os pacientes oncológicos já severamente debilitados não sejam obrigados a peregrinar pelas nossas péssimas estradas em busca do tratamento necessário em outras cidades.
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