Editorial: A barragem das desavenças
Nesta semana, o jornal O Município publicou com exclusividade uma nova atualização sobre a barragem de Botuverá. Moradores e autoridades do município realizaram uma reunião no qual manifestaram dúvidas e contrariedades à construção da barragem, algumas delas sem base na realidade factual.
Além disso, sugeriram, com o apoio do prefeito, não facilitar os planos do governo do estado, negando-se a aceitar os acordos de desapropriação das terras que farão parte da barragem.
Durante anos, a barragem de Botuverá foi tratada como um projeto de consenso. Nenhuma voz pública se levantou contra, nenhuma comunidade se mobilizou em rejeição, nenhum vereador ou liderança ousou contestar sua importância.
Porém, de maneira repentina, a obra passou a ser questionada e, mais do que isso, transformou-se em bandeira eleitoral. O que se vê é a transformação de uma obra essencial em moeda de troca política. Ser a favor ou contra a barragem passou a significar apoiar ou rejeitar determinado partido ou candidato.
O resultado: em vez de discutir segurança, prevenção de enchentes e bem-estar de milhares de pessoas, debate-se quem ganha ou perde individualmente com a obra.
Esse é um risco que não pode ser ignorado. Este é um debate que deveria ser conduzido com base em critérios técnicos, ambientais e sociais. Trata-se de discutir impactos reais para milhares de pessoas, que convivem ano após ano com as consequências das enchentes.
É evidente que a barragem enfrenta obstáculos complexos por si só — ambientais, burocráticos e financeiros. Somar a isso uma resistência que claramente não está embasada em questões técnicas não contribui para o avanço da solução, apenas aprofunda divisões.
Persistindo essa postura, corremos o risco de transformar um problema coletivo em um foco de animosidade regional, rompendo uma tradição de cooperação entre Brusque, Botuverá, Guabiruba e até cidades do litoral, como Itajaí e Navegantes, que também poderiam ser beneficiadas pela obra.
O caminho precisa ser outro. O diálogo, com a participação de órgãos técnicos e da Defesa Civil, deve esclarecer dúvidas legítimas da população, afastando receios e garantindo transparência.
Mas, sobretudo, é necessário que a decisão seja construída sobre fundamentos técnicos, sociais e humanos, e não com base em um cálculo político.
O jornal reforça a importância de que o debate volte ao eixo correto: menos política, mais razão e mais empatia. A barragem não é apenas uma obra de concreto; é um projeto de segurança, de convivência e de responsabilidade coletiva.