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EXCLUSIVO – Após pandemia de Covid-19, contratação de seguros de vida dispara em Santa Catarina

Alta de 77% na contratação de pacotes entre 2020 e 2024 indica mudança de perfil do consumidor

A pandemia da Covid-19, especialmente entre 2020 e 2021, mudou o comportamento financeiro dos catarinenses, fenômeno também observado em outras regiões do país. Diante da crise sanitária, muitos passaram a buscar formas de proteger a si e suas famílias.

Especialistas apontam que o período despertou uma nova consciência sobre a importância de estar preparado para imprevistos. Em Santa Catarina, a procura por seguros de vida cresceu entre 7% e 26% ao ano, segundo levantamento exclusivo do jornal O Município.

As porcentagens referem-se à evolução dos valores pagos pelos clientes para manter os seguros ativos, os chamados prêmios que, em média, cresceram cerca de 15,5% ao ano nos últimos cinco anos.

Segundo dados do Painel de Inteligência da Superintendência de Seguros Privados (Susep), os valores contratados em Santa Catarina saltaram de R$ 902 milhões em 2020 para quase R$ 1,6 bilhão em 2024 — um avanço de 77%.

As indenizações pagas pelas seguradoras, os sinistros, também cresceram desde 2021, ano com os maiores registros da pandemia. Em 2024, os pagamentos chegaram a quase R$ 400 milhões, embora representem uma queda de cerca de R$ 80 milhões em relação a 2021.

Demanda local


O aumento expressivo nas contratações de seguros em Santa Catarina, impulsionado pela maior demanda, também tem refletido diretamente nas corretoras de Brusque.

Segundo profissionais do setor, os números registraram altas significativas, especialmente durante o período mais crítico da pandemia.

A empresa Belli afirma ter registrado seus melhores resultados de novos associados justamente entre 2020 e 2021, com 27 adesões no primeiro ano da crise sanitária e 18 no seguinte.

“Muitas pessoas estavam com medo da doença, e outras contrataram o seguro após terem sido infectadas e passado mal”, relatou Thaila de Souza Vechini, gerente comercial e sócia.

Nos anos seguintes, o número de novos segurados caiu para 12, em 2022, e 7, em 2023. Em 2024, voltou a crescer, chegando a 15 adesões — tendência semelhante à observada em outras regiões do país.

Já a Fex apontou aumento constante na procura entre 2020 e 2024, sempre em comparação com 2019, ano anterior à pandemia.

De acordo com dados da empresa, o crescimento foi de 28% em 2020, 36% em 2021, 16% em 2022, 14% em 2023 e 21% em 2024. Como é possível observar, as maiores porcentagens ficam justamente com os anos de 2020 e 2021, os mais impactados pela pandemia.

“A principal dúvida era se haveria cobertura para morte por Covid-19. O maior temor das pessoas era deixar seus entes queridos desamparados caso algo acontecesse”, explicou Kletyane de Andrade, agente de seguros da Fex.

Na RR, a movimentação também foi expressiva, especialmente nos dois anos mais recentes.

“A nossa corretora sempre teve como forte os produtos massificados. Mas com a pandemia, o aumento em 2021 foi de 11%, em 2022 foi de 7%, já nos anos de 2023 e 2024 registramos altas de 30% e 32% respectivamente”, detalhou Roberta Mariano, sócia-proprietária da empresa.

Segundo ela, além da mudança no comportamento dos consumidores, que passaram a ver o seguro de vida com outros olhos, houve também um trabalho interno focado na carteira de clientes.

“A fomentação ocorreu em parceria com as seguradoras, oferecendo produtos mais atrativos com coberturas para uso em vida. Mas a pandemia trouxe um outro olhar para este produto, por parte dos consumidores”, afirmou.

Tendência nacional


Para especialistas, o aumento na procura por seguros de vida não é exclusivo de Brusque ou Santa Catarina, mas se repete em todo o país. Eles afirmam que os dados refletem a insegurança vivida pelos brasileiros diante das perdas e da crise sanitária.

Como resultado, o seguro de vida passou a ser visto por muitos não mais como um gasto supérfluo, mas como uma proteção essencial – percepção confirmada pelo crescimento nos números do setor.

Dados do Painel de Inteligência da Superintendência de Seguros Privados (Susep) mostram que, entre 2020 e 2024, o valor total arrecadado com seguros, incluindo vida, acidentes e doenças, chegou a R$ 153,8 bilhões no país.

Desse total, R$ 73 bilhões referem-se a seguros de vida em grupo, R$ 62 bilhões a seguros individuais, R$ 15 bilhões ao setor rural e R$ 4 bilhões a coberturas de doenças graves ou terminais.

A arrecadação anual subiu de quase R$ 22 bilhões em 2020 para mais de R$ 39 bilhões em 2024, um salto de 77%, mesma taxa registrada em Santa Catarina.

Apesar desse avanço, os valores pagos em sinistros não cresceram no mesmo ritmo.

No Brasil, os clientes pagaram R$ 158 bilhões em seguros entre 2020 e 2024. Desse valor, R$ 43 bilhões (cerca de 27%) foram utilizados para cobrir ocorrências previstas nas apólices.

Em Santa Catarina, as seguradoras arrecadaram mais de R$ 6,4 bilhões no período, com cerca de R$ 1,9 bilhão (30%) destinado ao pagamento de indenizações. A média de sinistralidade no estado permanece acima da nacional.

O estado ocupa hoje a sétima posição no ranking nacional em volume arrecadado e em número de ocorrências cobertas.

Embora os valores arrecadados sigam em alta, os pagamentos proporcionais aos segurados vêm diminuindo desde o pico da pandemia.

Nos planos de saúde, o índice de sinistralidade é calculado com base nos custos de cobertura em relação à receita das operadoras – dados que podem ser reajustados periodicamente.

Na prática, esse índice indica quanto da receita é de fato usado para cobrir os procedimentos dos beneficiários. Diante da ausência de dados específicos, a reportagem utilizou a média simples para facilitar a compreensão.

Dados que ajudam a comprovar


Antes cercado por tabus e restrito principalmente às camadas mais altas da população, o seguro de vida se tornou mais acessível, popular e, por isso, cada vez mais procurado. Entre 2020 e o primeiro trimestre de 2025, o setor apresentou crescimento contínuo.

De acordo com a Agência Conversion, referência nacional em mecanismos de busca, o termo “seguro de vida” teve um aumento de 22,36% nas buscas online apenas nos três primeiros meses de 2025 — uma tendência que se intensificou desde o início da pandemia.

A Susep também aponta outros crescimentos. Em 2022, o setor teve alta de 15,1% no faturamento nacional e, em 2024, de 15,2% apenas no primeiro trimestre. Já uma pesquisa da consultoria Edelman mostra que 54% dos entrevistados contrataram seguro de vida entre 2020 e 2024.

Para especialistas, o cenário revela maior preocupação com a vida e a saúde. Já a redução proporcional nas indenizações pode indicar uma consciência preventiva crescente, o que favorece a sustentabilidade do setor.

Reflexo na vida dos moradores


Em Brusque, o morador Adilson Neves, cliente da Heinig Corretora de Seguros, compartilha a percepção de que a pandemia reforçou a importância do seguro de vida. Ele conta que a família já valorizava esse tipo de proteção antes mesmo da crise sanitária, mas decidiu ampliar a cobertura diante das incertezas trazidas pela Covid-19.

“A gente já enxergava o seguro como algo muito importante e como um investimento a longo prazo. Com a pandemia, resolvemos ampliar a cobertura, conscientes de que a morte poderia chegar para algum membro da família e que seria importante garantir uma segurança financeira”, diz.

A decisão também foi motivada pelo perfil das vítimas da Covid-19. “Logo no início, vimos que os mais atingidos eram idosos e pessoas com comorbidades — como era o caso de um parente nosso. Por isso, reforçamos o seguro como uma forma de criar um guarda-chuva para se proteger”.

Mesmo antes da crise, a contratação do seguro já fazia parte da rotina da família, que sempre buscou formas de se preparar para o futuro.

"A morte prematura de um provedor pode desestabilizar toda a família, principalmente no aspecto financeiro. E o seguro é justamente o que ajuda nesses momentos emergenciais".

Para Adilson, a pandemia fez com que mais pessoas entendessem a importância desse tipo de proteção.

“São variáveis incontroláveis. Ninguém espera ser uma das vítimas. Mas com a chegada da Covid, ficou claro que isso é possível. E isso aumentou, sim, o desejo das pessoas de se proteger financeiramente".

Já para a também brusquense Simone Regina Moser, cliente da mesma corretora, a motivação foi diferente. Ela contratou o seguro de vida em 2023, sem relação direta com a pandemia. Antes disso, já possuía um plano de previdência privada, com benefícios semelhantes.

Ainda assim, reconhece que o seguro pode garantir estabilidade aos beneficiários, que talvez tenham sido impactados de forma subconsciente, ou seja, sem perceber, pelo período da pandemia.

“Acredito que quem fez o seguro depois do período de emergência teve como objetivo deixar os familiares financeiramente estáveis, mesmo que por um curto prazo, após o falecimento do segurado, ou ainda garantir condições de tratamento em caso de enfermidade”.

Mudança de mentalidade


Empresas do setor, com atuação nacional, também identificaram mudanças na forma como os brasileiros passaram a lidar com saúde e imprevistos após a pandemia.

Questionada pela reportagem, a Porto Seguro informou que, em Santa Catarina, o mercado cresceu em média 18% ao ano entre 2020 e 2024, índice superior à média registrada pela Susep para o estado.

A maior parte das contratações veio de pessoas entre 40 e 49 anos, com renda entre R$ 5 mil e R$ 10 mil, majoritariamente administradores de empresas.

Na Nippur Finance, o especialista em seguridade Rafael Borges Dachi afirma que os escritórios no estado têm registrado crescimento anual acima de 35%. Os principais clientes são autônomos, com renda entre R$ 10 mil e R$ 15 mil. A empresa assessora mais de R$ 8 bilhões em ativos.

“Gostamos de mostrar para nossos clientes que não adianta apenas guardar dinheiro. Se algo grave acontecer, essa pessoa pode ter que resgatar todo o valor acumulado. Por isso, a proteção também é fundamental”, afirma Rafael.

O Sicoob Seguradora também registrou crescimento no Sul. Segundo Marcel Evandro Bankow, diretor executivo da Sicoob Corretora de Seguros SC/RS, o número de segurados passou de 120 mil, em 2019, para 270 mil em 2023 — alta de 125%.

Na Mapfre, o diretor Guilherme Bini destaca a diversificação do perfil dos segurados.

“Vimos um aumento na adesão de pessoas mais jovens, entre 25 e 35 anos, muitas delas autônomas ou profissionais liberais. Além disso, a classe média teve uma participação mais relevante, impulsionada pela maior conscientização sobre riscos e pela oferta de seguros mais acessíveis”, afirma.

Segundo o psicólogo Jones Trajano, que atua em Brusque, houve uma mudança clara no comportamento das pessoas após o isolamento e a crise sanitária.

"O luto coletivo e a exposição constante a notícias sobre mortes aumentam o estresse, a ansiedade e a sensação de vulnerabilidade. Isso influencia o comportamento de consumo e pode ter levado muitas pessoas a refletirem mais sobre o futuro, o que se traduziu em decisões como contratar seguros e criar fundos de emergência”, relata.

O economista e mestre em Sociologia Política Eduardo Guerini completa: “falar sobre a morte deixou de ser tabu e passou a fazer parte do planejamento familiar. O seguro de vida é visto agora como um ato de cuidado com os que ficam, não apenas como proteção financeira, mas também como legado”.

Para ele, o mercado caminha para produtos mais abrangentes, que também podem cobrir eventos em vida.

Adaptações do setor


Com as mudanças de comportamento, o setor de seguros também se adaptou. Empresas reformularam processos, digitalizaram etapas e ofereceram produtos mais personalizados.

Victor Bernardes, diretor de Vida e Previdência da SulAmérica, destaca que a empresa adicionou 260 mil clientes à carteira de seguros de vida apenas entre 2020 e 2021.

Segundo ele, o avanço foi impulsionado não apenas pela pandemia, mas também pela modernização do setor.

“A digitalização foi um fator decisivo. Houve investimento em processos mais ágeis e maior autonomia para o segurado, o que facilitou o acesso. O papel dos corretores também foi essencial, ajudando os clientes a entenderem a necessidade de proteção em tempos incertos”, afirma.

Segundo Rafael, da Nippur, algumas seguradoras chegaram a abrir mão de cláusulas para pagar benefícios relacionados à Covid-19, o que chamou a atenção de novos clientes.

“Hoje, o seguro de vida já é uma ferramenta bem mais completa — não é mais aquele produto básico que só cobria morte”, observa.

Na Mapfre, houve revisão de critérios de aceitação e inclusão de coberturas para doenças graves. Já o Sicoob ajustou contratos para incluir mortes por Covid-19, algo que antes não era previsto.

Victor Bernardes complementa dizendo que a personalização é o futuro do setor. “Com produtos diferenciados, buscamos oferecer soluções que atendam às necessidades específicas de diferentes perfis. A tendência é que o mercado caminhe cada vez mais nesse sentido”, afirma.

Curiosidades de outras regiões


Embora as regiões Sul e Sudeste liderem a arrecadação de prêmios no país, estados do Norte e Nordeste chamam atenção pelas altas taxas de sinistros em relação ao valor arrecadado, o que acende um alerta sobre o equilíbrio atuarial nessas localidades.

No Maranhão, por exemplo, foram arrecadados R$ 2 bilhões, com R$ 580 milhões pagos em sinistros — uma das maiores proporções do Nordeste. Outros estados com índices elevados são o Rio Grande do Norte (20%), o Piauí (13%) e o Acre (6,7%).

No Amazonas, a taxa também preocupa: foram R$ 171,7 milhões pagos em sinistros frente a R$ 1,7 bilhão arrecadado em prêmios. Em contraste, São Paulo e Minas Gerais apresentam relações mais equilibradas, sinalizando maior maturidade e estabilidade do setor nessas regiões.


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