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EXCLUSIVO – Financiar para crescer: empresas de Brusque já acessaram mais de R$ 2,2 bilhões em crédito do BNDES

Com apoio de bancos e cooperativas, recursos impulsionaram inovação e empregos no município

Um levantamento exclusivo do jornal O Município mostra que, entre 2002 e agosto de 2025, Brusque recebeu mais de 5,8 mil operações do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), que somaram, sem considerar a inflação, mais de R$ 2,2 bilhões.

O crédito foi determinante para modernização industrial, geração de empregos e fortalecimento da economia local, especialmente em setores estratégicos como têxtil, metal mecânico e transporte.

A indústria concentrou a maior parte dos recursos, com 1.991 operações, seguida pela infraestrutura, com 1.291. Entre os setores, transporte rodoviário e têxtil lideraram os aportes, com 1.433 e 995 operações, respectivamente.

Microempresas predominaram em 14 dos 24 anos analisados, enquanto pequenas empresas lideraram em sete e médias, em três. Entre 2009 e 2014, Brusque captou R$ 1,15 bilhão, equivalente a 52% do total do período, consolidando-se como um polo industrial competitivo.

A maioria dos financiamentos foi obtida indiretamente, por meio de bancos e cooperativas, mantendo, porém, a origem pública dos recursos do Tesouro Nacional, formados por impostos pagos pela população e empresas.

Esse modelo permitiu que micro e pequenas empresas tivessem acesso a crédito estruturado, algo que seria mais difícil via operação direta com o BNDES.

Crédito estratégico para a indústria


Vanessa Wohlgemuth, gerente-executiva de Desenvolvimento Industrial da Federação das Indústrias de Santa Catarina (Fiesc), ressalta que o crédito do BNDES é essencial para a competitividade da indústria local.

“No têxtil, os financiamentos de longo prazo viabilizam automação, digitalização, sustentabilidade e melhoria de processos. Já o setor metalmecânico se beneficia diretamente ao acessar crédito estruturado para modernização do parque fabril, Pesquisa e Desenvolvimento (P&D) e expansão de capacidade”, explica.

Otávio Timm/O Município

Ela destaca que regiões como o Vale do Itajaí-Mirim precisam preservar sua competitividade diante das rápidas transformações tecnológicas e da concorrência internacional.

Segundo Vanessa, os recursos permitiram que diversas empresas investissem em softwares de gestão, equipamentos de última geração e projetos de eficiência energética.

“Esses investimentos aumentam a produtividade, reduzem custos e permitem que a indústria catarinense se destaque globalmente”, acrescenta.

Desafios e Finame


Andrea Niehues, coordenadora do Núcleo de Cooperativas da Acibr, destaca que a linha Finame, a mais usada em Brusque nos últimos 24 anos, estimula investimentos produtivos, oferecendo taxas de juros reduzidas e prazos longos.

“O Finame é essencial para empresas que precisam modernizar máquinas, expandir frota ou aumentar capacidade produtiva. No transporte rodoviário, muitos veículos financiados são produzidos no Brasil, fortalecendo a indústria local”, explica.

Valdir Walendowsky, secretário de Desenvolvimento Econômico e Turismo de Brusque, ressalta o papel das cooperativas no acesso a crédito.

“A proximidade das cooperativas é um diferencial. Elas apoiam microempreendedores e agricultores, permitindo investimentos em equipamentos, insumos e expansão das atividades. Quando um empreendedor alcança sucesso, toda a economia do município se beneficia”.

Andrea complementa: “as cooperativas compreendem profundamente as necessidades de cada empresa, viabilizam linhas de crédito e intermediam recursos do BNDES. Mais do que financiar, priorizam o desenvolvimento local, fortalecendo setores estratégicos da região”.

Instituições como Sicoob Trentocredi e Sicredi Vale Litoral SC oferecem linhas de crédito para capital de giro, investimento fixo, antecipação de recebíveis, crédito rural e microcrédito, com prazos longos, carência estendida e atendimento personalizado.

Entre os principais instrumentos, estão o Crédito BNDES FGI, Cartão BNDES e financiamentos de máquinas e equipamentos.

“O setor têxtil é o principal beneficiado em Brusque, seguido por embalagens, reciclagem e comércio varejista, totalizando mais de R$ 7 milhões liberados nos últimos 12 meses”, informa o Sicoob Trentocredi.

Questionada, a Sicredi Vale Litoral SC reforça que o crédito cooperativo "fortalece a economia local, gera empregos, estimula o empreendedorismo e promove inclusão financeira".

Riscos e impactos econômicos


O economista Wagner Dantas explica que o BNDES sempre foi crucial para o desenvolvimento de Brusque, especialmente antes e depois do Plano Real, período em que a cidade enfrentou forte concorrência externa e mudanças estruturais no setor industrial.

“Várias empresas conhecidas geram emprego e renda a partir deste crédito. Mas a concentração nos setores têxtil e metal mecânico gera vulnerabilidade. Políticas complementares, como inovação, diversificação setorial e capacitação empresarial, são fundamentais para reduzir impactos de crises externas”, afirma.

Daniel da Cunda Corrêa da Silva, economista e mestre em relações internacionais, contextualiza que a movimentação de crédito entre 2009 e 2014 refletiu as medidas anticíclicas do governo federal após a crise econômica de 2008.

Entre elas, destacaram-se redução de impostos sobre produtos da linha branca e automóveis, desoneração da cesta básica, ampliação do programa Minha Casa Minha Vida, redução da taxa básica de juros, intervenção em preços administrados e concessão de crédito subsidiado pelo BNDES para aquisição de bens de capital, máquinas, equipamentos e caminhões.

“Estas cifras de Brusque não são isoladas, fizeram parte de um movimento nacional. Embora a participação de micro e pequenas empresas tenha crescido, mais de 75% do crédito foi destinado a médias e grandes empresas. O movimento fortaleceu fusões e aquisições, centralizando capital mais do que promovendo diversificação de negócios”, explica.

Ele acrescenta que, a partir de 2012, a queda nos preços internacionais e a desaceleração econômica complicaram o cenário: empresários que aproveitaram crédito e dólar baixo se depararam com alta do câmbio, recessão, desemprego e endividamento.

“Foi um contexto que reforçou a percepção de responsabilidade do governo sobre a deterioração das condições de vida, agravada pelas investigações de corrupção, como a operação Lava Jato”.

Inovação e modernização


Entre as empresas beneficiadas, a ZEN S.A. utiliza financiamentos reembolsáveis e não reembolsáveis para projetos de inovação, transição energética e capacitação tecnológica.

Alvaro Michelotti, especialista de P&D da empresa, explica que “cada edital envolve instituições de ciência e tecnologia e empresas parceiras, formando alianças industriais para desenvolver projetos alinhados às chamadas públicas”.

Cristiano Foppa, também especialista de P&D, acrescenta que “os investimentos resultam em ganhos de produtividade e competitividade, além de desenvolver novos produtos e agregar funcionalidades aos existentes”.

Otávio Timm/O Município

Rita Conti, vice-presidente da Facisc e diretora da Mensageiro dos Sonhos, afirma que a empresa já utilizou diversas linhas de crédito. "Os valores nos permitiram crescer não só de espaço físico, mas de qualidade no maquinário".

Ela também destaca que os financiamentos do BNDES foram fundamentais para consolidar Brusque como polo industrial.

“Hoje a concorrência não é mais local nem nacional, é internacional. O fácil acesso às linhas de crédito com juros mais subsidiados impacta diretamente na inovação e fortalece Santa Catarina como potência industrial”.

Questionada sobre as discussões que o tema desperta, especialmente pelo fato do governo do estado ser considerado opositor ao federal, a empresária afirma que separar as esferas contribui para o sucesso da parceria entre país e estado.

"O nosso estado é um dos que mais têm acesso às linhas de crédito federal, e o motivo é simples: Santa Catarina devolve dez vezes mais. Todo o dinheiro emprestado retorna com juros, mas, acima de tudo, o estado contribui na produção e desenvolvimento para o Brasil. O governo não investiria em um estado que não demonstra crescimento, que não é sério, que não ajuda o país a evoluir".

Cooperativismo e desenvolvimento regional


O Banco de Desenvolvimento da Região Sul (BRDE) atuou na região com 3.592 contratos entre 2020 e 2024, totalizando R$ 1,4 bilhão.

Ricardo Faria, gerente regional, explica que o banco facilita acesso de micro e pequenas empresas às linhas de crédito, "direta ou indiretamente, em parceria com cooperativas, associações comerciais, centros de inovação e sindicatos".

No Vale do Itajaí, 37 cooperativas geram 15,6 mil empregos e faturamento de R$ 11,9 bilhões em 2023. Vanir Zanatta, presidente da Ocesc, ressalta que o crescimento é coletivo, justo e com retorno social.

"As cooperativas geram e distribuem riqueza, promovendo desenvolvimento completo nos municípios onde atuam, fortalecendo a economia regional e garantindo inclusão financeira e social”.


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