Inverno em Bruxelas
O inverno deste ano está nos castigando com temperaturas baixas, até com geada na última semana. Têm sido dias de intenso frio que me fizeram lembrar, dentre os meus muitos invernos já vividos, daquele que passei em Bruxelas, onde cursei o Mestrado em Ciências Criminológicas, como bolsista do governo belga. Com seu pequeno território plantado sobre uma planície de terras baixas, quase no mesmo nível do mar, a Bélgica é um país que tem nas “catedrais as suas únicas montanhas”, como diz a popular canção de Jacques Brel.
Deixei Brusque no mês de outubro, em plena primavera. Do outro lado do Equador, o outono já me ofereceu uma amostra do frio que me aguardava na estação seguinte. Veio dezembro, chegou o Natal, terminou o ano e o frio se intensificou. Nos primeiros dias de janeiro, então, senti o que era enfrentar um inverno num país europeu. Não como nos países nórdicos, é claro, onde a neve cai durante quase toda a estação hibernal. Pela baixa altitude do seu território, as nevascas não são frequentes na Bélgica.
Foram cinco meses de dias frios, nublados, chuvosos e cinzentos. Tudo por conta do seu clima úmido e o seu céu tão carregado de nuvens baixas que, um dia de sol ou uma noite estrelada e enluarada, era sempre motivo de alegre surpresa. As noites começam cedo. Às cinco da tarde, o dia já se veste de noite, que chega sem pedir licença com a sua escuridão que se prolonga até as oito, quase nove horas da manhã seguinte.
Às sete horas de manhãs escuras, temperatura sempre rondando os dois, três graus — a pasta com livros e cadernos na mão, o capote de lã como companheiro inseparável de cada dia de estudo intenso — pegava o ônibus 71 para a Universidade, de onde só retornava para casa depois das seis da tarde, também na escuridão de uma noite que já havia tomado conta da cidade.
No começo de maio, a primavera já querendo passar a bola da temperatura ao verão, olhei pela janela da biblioteca da Universidade e o dia estava ensolarado. Finalmente, depois de um gélido período de hibernação, vi os raios do sol iluminando a paisagem renovada pelas árvores com suas novas folhas verdejantes e os canteiros floridos. Vi também as pessoas caminhando ao ar livre mais sorridentes, como que a gastar a alegria guardada durante o inverno.
Então, compreendi porque os povos do hemisfério norte valorizam tanto os dias quentes e ensolarados que nós, criados nos trópicos e sapecados pelos raios do astro-rei, temos durante quase todo o ano e até em boa parte do inverno. Por isso, esse frio que nos castiga há quinze dias, logo vai ceder lugar a temperaturas mais amenas e agradáveis.