La mia Itália
"La mia Itália" era a frase mais falada pelos imigrantes italianos ao referirem-se à sua pátria. E repetiam-na tanto que faziam crer – aos ouvintes menos avisados -, estarem em território italiano e não em solo brasileiro. Para Hilário Merico, cujos avós paternos e maternos vieram da Itália, houve uma surpresa no primeiro dia de aula na Escola de Águas Negras, Porto Franco (antigo nome do atual município de Botuverá). Porém não foi a emoção de iniciar o estudo primário e sim a de saber que o país em que morava chamava-se Brasil!
Mas como poderia ser isso? perguntavam-se também as outras crianças. Pois aquele lugar onde falava-se italiano, os nomes eram de origem italiana e agora a professora Olga Dauer Lyra ‘vinha com essa conversa de morarmos num país que não era a Itália?’ Sim, era La mia Itália!
Complicado mesmo, depois do susto de estarem num lugar bem distante do até imaginado, foi ‘assimilar’, em português, os erres e os esses da pronúncia emaranhada do novo idioma. Dificuldade, diga-se de passagem, que durou por muitos anos entre os mais velhos moradores da localidade.
Quantas outras lembranças guardadas por essa bonna gente e seus descendentes, aportadas na Colônia Itajahy (atual Brusque) há 150 anos? Bom saber que ao chegarem, ainda pensavam que estavam sendo encaminhadas a uma cidade portuária do litoral, pois foi-lhes dito que iriam para Porto Franco. São histórias do cotidiano, anotadas com emoção e resgatadas para que o registro não se perca. A memória de um povo é escrita pelos que participaram de sua formação.
Quando começou a imigração italiana na região de Brusque? O historiador Walter Fernando Piazza cita que ‘chegam ao porto de Itajaí, em Santa Catarina, em maio/junho de 1875 os primeiros italianos do norte e tiroleses do sul e vão ser encaminhados à colônia “Brusque”, fundada em 1860, nas margens do rio Itajaí-mirim. São localizados na periferia da colônia e vão, aos poucos, penetrando o Vale do Itajaí-mirim. Centram-se em torno da localidade de Porto Franco.
Os italianos de Bérgamo ou de Trento, de Vêneto, Piemonti ou Lombardia, já na Europa escolhiam a colônia onde iriam fixar-se no Brasil. A respeito, a historiadora brusquense Roselys Isabel Corrêa dos Santos cita: “A preferência dada à Colônia Brusque devia-se, sem dúvida, às formas como eram feitas as distribuições das ajudas de custo para a compra de sementes e ferramentas. Não havia uma norma comum a todas as colônias (...) na de Brusque e Príncipe Dom Pedro, as quantias já lhes eram entregues quando ainda esperavam nos barracões a demarcação de seus lotes’.
Todavia haviam motivos políticos e de ordem interna administrativa: o desgosto pela localização dos lotes, terras cultivadas sendo destruídas pelas enchentes, aglomeração de colonos, falta de serviço para muitos imigrantes. Além de outros desentendimentos com o diretor da Colônia Itajahy, dr. João Carvalho Borges Júnior, os quais motivaram a saída de inúmeras famílias que em sua maioria, foram realocadas em lotes na região. Incluindo-se aí Porto Franco.
Dessas, algumas poucas famílias conseguiram retornar à Itália. Porém, não sem muito esforço. Conta-se até que uma delas foi a passeio e deslumbrada no regresso relatava aos seus conterrâneos que lá existiam até ruas de cimento! O que, segundo lenda, serviu de incentivo aos colonos mais abastados ao utilizarem-se da matéria prima em Porto Franco, cal, para construírem sua própria rua.