Medicina e ancestralidade
Digitalizando prontuários antigos me deparo com os dados da paciente Flor, uma jovem que atendi há mais de duas décadas, cujo nome indígena era Potira, já que pertencia a uma comunidade tupi-guarani. Fico surpreso com a capacidade incrível da memória que após décadas é capaz de lembrar seu rosto.
Flor foi trazida por um proprietário de terras, vizinho da aldeia, que conseguiu convencer à comunidade que ela precisava de atendimento médico. Nos tempos de estudante de medicina tive a sorte de cursar uma cátedra denominada Medicina Aborígene.
Sou natural do Equador, um país com uma grande parcela de população indígena, aprender sobre a espiritualidade, cosmovisão, uso de plantas terapêuticas, rituais de cura e xamanismo é muito importante para que um médico possa atender adequadamente a população dos países andinos, respeitando suas tradições e cultura. Isso vale para quem atende comunidades indígenas em qualquer lugar do mundo.
Fico feliz ao saber que essa cátedra ainda existe, atualmente com o nome de Cátedra de Saúde Intercultural. Olivia pertencia à aldeia Wy`a de Major Gercino, apresentava sintomas de depressão que não estavam remitindo apesar de todos os esforços da comunidade e do seu xamã.
Numa situação dessas é bastante improvável que a medicina tradicional consiga ajudar se não levarmos em consideração as tradições culturais e crenças do paciente.
A presença Guarani em Santa Catarina data ao redor do ano 1000 da era cristã. Se calcula que a população indígena na época da chegada dos colonizadores era entre 2 a 5 milhões, sendo que uma parte significativa deles eram tupi-guarani.
Atualmente existe ao redor de 2000 indígenas Guaranis em SC, isso significa que estiveram (estão) ao borde da extinção e que há a necessidade de um grande esforço para preservar sua cultura, tradições e idioma.
Um estudo recentemente publicado por pesquisadores da Universidade de Buenos Aires relata o processo migratório dos Tupi-guarani desde a Amazônia até a bacia do Rio de la Plata e o litoral Catarinense e do Rio Grande do Sul.
Isso abarca uma extensão norte-sul de 2500 km num período ao redor de mil anos, os estudos confirmam que houve períodos de baixa densidade populacional e ocupação descontínua. Os guaranis têm uma forma totalmente diferente de entender a natureza e a vida, duas palavras que para eles parecem sinônimos. O binômio saúde-doença está totalmente relacionado a alegria-tristeza.
Basta ter saúde para que o guarani se mantenha alegre e feliz, o materialismo não entra nessa equação. A atividade xamânica guarani está voltada para a produção da saúde do bem-estar (-iko porã) individual e principalmente o coletivo, afirma a pesquisadora Elizabeth Pissolato.
Elizabeth é estudiosa da cultura tupi guarani com foco nas práticas de saúde, enfrentamento às doenças e as respostas emocionais aos problemas de saúde. A condição de estar alegre para essa cultura tem relação direta com estar saudável.
Crianças que choram muito ou se mostram fisicamente frágeis são submetidas a uma série de práticas xamânicas com o intuito de consertar o desconforto e que a criança passe a sentir felicidade da convivência com a família e a comunidade. Caso necessário, são procurados xamanes especialistas em “remédios do mato” ou fazer “benzimentos”.
As capacidades curativas dos mais velhos são muito respeitadas. A fala ocupa um lugar especial como poder curativo, seja nas conversas informais ou nos discursos durante cerimoniais feitos pelos mais velhos.
Ciente destas peculiaridades foi necessário que Flor se sentisse acolhida e respeitada, saber que também sou descendente de indígenas foi um ponto de identificação que facilitou o diálogo e a aceitação das medidas terapêuticas. A paciente melhorou em poucas semanas e anos após vim saber que se desempenhava como agente comunitária de saúde no seio da sua comunidade.
A famosa frase hipocrática “curar quando possível, aliviar quando necessário e consolar sempre” deve sempre ser moldada pelo entorno social e cultural em que o doente vive.