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Meritocracia

Aristóteles define a Justiça como “equidade”, ou o equilíbrio, em que cada um recebe o que lhe é de direito, “de acordo com o mérito”. Mas decidir, em casos difíceis, o que pertence e é de direito a alguém não é exatamente uma tarefa simples. Por isso sempre haverá controvérsias em temas polêmicos que envolvam direitos. Quando falamos em justiça social, a confusão conceitual e ideológica é grande. Se a miséria é sinal de injustiça, é preciso não fazer do combate a ela uma injustiça ainda maior.

Embora me congratule com as ações concretas dos governos para combater a pobreza e melhorar as condições de vida dos brasileiros, preocupo-me, de igual modo, com um tipo de comportamento que vem se tornando comum. Muita gente está se esquecendo de que é necessário esforço, vontade e muito trabalho para “fazer jus” aos benefícios que consideramos, genericamente, como direito de todos. A expressão “fazer jus” parece traduzir muito bem o que Aristóteles tinha em mente quando definiu a justiça: o que cabe a cada um depende, em grande monta, do que se “faz” para poder merecê-lo. Por isso,  a ideia de mérito está impregnada na definição de Justiça. Os programas sociais do governo serão legítimos se não se esquecerem desse importante detalhe. Tenho estado atento ao comportamento um tanto quanto folgado de pessoas que parecem pensar que o governo, os empresários ou nós todos que pagamos pesados impostos temos a obrigação pura e simples de sustentá-las. As empresas estão o tempo todo às voltas com empregados que parecem se interessar unicamente em usufruir os (fartos!) direitos que a legislação lhes confere, mas com bem pouco comprometimento em dar sua contrapartida. Do que tenho observado nesses muitos anos, creio poder dizer que os que mais reclamam das “injustiças” são os que menos se esforçam para evoluir e prosperar por seus próprios méritos.

O que me parece emblemático atualmente é o que ocorre com o PRONATEC, programa do governo federal destinado aos beneficiários dos seus programas sociais, para qualificar a mão de obra e permitir que os que “ganharam o peixe” finalmente “aprendam a pescar”. Pois é, a vara de pesca está parecendo pesada demais, pois a procura por esses cursos, que dão toda a facilidade imaginável para quem quer frequentá-los, é baixíssima. Muitos de nós nos estrebuchamos para fazer cursos de datilografia, computação, inglês ou qualquer coisa possível, em épocas de vacas magérrimas para podermos estar disponíveis às poucas vagas que apareciam no mercado de trabalho. Agora, os empresários estão procurando trabalhadores com lupa e, com tanta facilidade, pouca gente parece querer se qualificar para contribuir para seu próprio desenvolvimento e da sociedade. Programas sociais e ações afirmativas, como a das quotas, são louváveis, desde que encontrem um modo efetivo de envolver o mérito de quem se beneficia. Do contrário, geram injustiça e desanimam quem se esforça. Creio que este seja o ponto fundamental para balizar essa discussão.